sábado, 19 de fevereiro de 2011

Da Tunísia para o Cairo, do Cairo para Riad?




Por keh adaptado 


"Será que essa turbulência chegará até aqui? Preferiria não viver a descobrir" Karen Elliott House


Adaptado a partir de um texto de Karen Elliott House: Da Tunísia para o Cairo, do Cairo para Riad? - WSJ.com 






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Em qualquer regime autoritário, a instabilidade parece impensável até o momento da turbulência, e isso é verdade hoje na Arábia Saudita. A influência estadunidense no Oriente Médio, já em franca decadência, tende a piorar. Os EUA em breve enfrentarão as consequências surpreendentes da instabilidade na Arábia Saudita, seu mais importante aliado entre os países árabes. 


Apesar da crença da inabalabilidade da Arábia Saudita por causa de seus bilhões de dólares em receitas de petróleo. E apesar de seu unipresente sistema de inteligência ter até agora permitido a manutenção do regime comprando lealdade ou intimidando sua população passiva, as coisas podem sair totalmente dos trilhos.


O risco do governo da família al Saud pode ser resumido em uma frase: o fosso entre governantes e os jovens cresce drasticamente na medida em que a lacuna de informação entre governantes e governados aumenta. A média de idade do triunvirato real que decide tudo é de 83 anos, enquanto que 60% dos sauditas têm menos de 18 anos de idade. Graças à televisão via satélite, Internet e meios de comunicação social, os jovens sabem da corrupção nos orgãos governamentais. Além disso, 40% dos sauditas vivem na pobreza e quase 70% não podem adquirir uma casa. Estes sauditas vivem vidas de Terceiro Mundo, sofrem com educação deficiente e não encontram empregos no setor privado, onde 90% de todos os funcionários são não-sauditas importados. Através dos novos meios de comunicação os jovens comparam sua situação miserável com a condição nababa dos sheiks que vivem próximos ao Golfo e no Ocidente. 


Ao longo dos anos, a família real, agora com cerca de 7.000 príncipes, permeia todos os cantos da vida na Arábia Saudita, mas perdeu o respeito do público nesse processo. Quase tudo na Arábia Saudita, desde negócios privados a governamentais, é encabeçado ou controlado pelos principes. 


Para agravar o problema tais governantes reais estão doentes, velhos, quase todos estão fora do forma. O rei Abdullah teve que afastar-se, há três meses recebe tratamento médico nos EUA e no Reino de Marrocos. O príncipe Sultan, 85 anos, com câncer e Alzheimer, raramente é visto em público. Completando o triunvitato das decisões, o vice-primeiro ministro, príncipe Naif, tem 77 anos e sofre de diabetes e osteoporose. 


Quem ocupará o lugar deles? Ninguém sabe. O que assusta muito a família real e muitos sauditas é que a sucessão, que historicamente tem passado de irmão para irmão, em breve terá de saltar para uma nova geração. Isso significa que apenas um ramo da família terá o poder, uma receita para um potencial conflito. Ou seja, 34 das 35 linhas sucessórias do fundador da família podem perder seus privilégios. 


Na esteira dos recentes acontecimentos no Cairo, alguns preocupados jovens príncipes sinalizam o desejo de sustar a corrupção, atender demandas da população, e reformar a inútil burocracia governamental. "Estamos unidos na Arábia Saudita e manteremos a cola que mantém essa união", disse um deles. 


O que esses príncipes reformistas não conseguem entender -- nem mesmo reconhecer diante de estranjeiros -- é o fato de muitos jovens sauditas não respeitarem nem temerem a família real . Pelo contrário, cada vez mais se ressentem da indignidade inerente de ter de mendigar direito público aos príncipes como se fosse favor. 


Frustrados diariamente por estas indignidades, os jovens sauditas experimentam drogas, roubam carros e vandalizam propriedades governamentais. Os sauditas em todos os níveis da sociedade tornam-se cada vez mais iníquos, imitando os seus dirigentes, fazendo o que podem para se safar. Um recente alvo da ira jovem é um novo sistema de vigilância por câmeras. O sistema é repetidamente vandalizado por jovens que afirmam que as multas enriquecem o ministro do Interior, que também é responsável pelas invasivas agências de inteligência no reino. O jovens sauditas protestam contra a corrupção real e contra a intromissão estatal em suas vidas. 


De qualquer forma, entre os sauditas, há os que não desejam a democracia. Eles temem que tradicionais divisões tribais, falta de políticas e de organização social, aumentem a desordem, mesmo entre os religiosos conservadores com suas 70.000 mesquitas. Se no Egito, a Irmandade Muçulmana é considerado uma ameaça potencial, o mesmo pode ser dito na Arábia Saudita onde grupos assim campeiam por toda parte. 


Os sauditas querem o mesmo padrão de serviços fornecidos pelos governos ricos: boa educação, emprego, saúde decente. Eles reivindicam o direito de intervir nos problemas políticos e econômicos que afetam suas vidas. No entanto, quando um professor de religião na Universidade Imam sugeriu em novembro, via Internet, aos sauditas publicar suas conversas privadas sobre a sucessão, foi preso. 




"A diferença entre reforma e reivindicações de nossos jovens é cada vez maior", adverte um príncipe sênior. "É uma corrida contra o tempo porque os jovens cansaram do status quo, cansaram de conversa". A Arábia Saudita não é o Egito. Mas, mesmo aqui, na mais estável e desenvolvida das sociedades árabes, o tempo está se esgotando.

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