sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

As lições do Egito




Os olhos do mundo estão focados nos desdobramentos da Revolução iniciada na Tunísia que - catalizada pela autoimolação de um camelô - ganhou força no Egito, atingiu todo Norte da África e se alastra como fogo em mato seco pelos países árabes. Aqui no Brasil, não há como ficar alheio a esses acontecimentos. Muitos de nós conhecemos perfeitamente os efeitos de uma ditadura. Ainda carrego no lombo algumas de suas marcas. 


Lembranças


Como numa viagem no tempo, nos útimos dias - via twitter, facebook, youtube, al jazeera - as cenas vindas do Cairo estão a transportar-me para 47 anos atrás. 


Dava meus primeiros passos na puberdade quando os militares tomaram o poder no golpe de 1964, e passaram a perseguir mortalmente seus opositores. Apesar da tenra idade eu tinha uma perfeita consciência do que acontecia. Ouvia notícias pelo rádio e comparáva-as com o que diziam meus vizinhos em suas conversas. 

Meu irmão, mais velho do que eu, junto com alguns colegas das classes, passaram a organizar formas de resistência marcando reuniões em suas casas. Lembro-me de ter participado de um desses encontros. Não havia eleição de "mesa" para "dirigir" a reunião, nem cadeiras perfiladas, nem palestra. Na verdade parecia mais uma festa. Todos jovens, cheios de vida. Alguns sentados, outros em pé conversando, grupos de três, quatro, cinco, articulando planos de ação. 

Naquele tempo quase todos meus coleguinhas de rua trabalhavam em uma enorme e bem conhecida fábrica de malas, onde a maioria dos empregados tinha entre 12 e 15 anos. Apesar do ambiente terrível, abafado e repugnante, eu temia ser mandado embora, o que aconteceu antes de completar 2 meses de trabalho. Oito horas de trabalho. Salário miserável. Até hoje não sei o que havia naquela fábrica que atraía tanto a molecada, eu inclusive. Talvez o cheiro de cola. 

Não éramos ricos nem pobres


Antes do golpe militar de 1964, tínhamos o necessário em nossas casas, opções de lazer, escolas públicas boas, funcionários e professores bem remunerados. Nossos amigos riquinhos, burros como sempre, iam para as escolas particulares, de péssima qualidade, as mães não os deixavam ir para a rua para brincar, muitos tornaram-se efeminados. Domingos pela manhã lotávamos o cinema do bairro, nenhum daqueles meus amigos precisava trabalhar. 

Pagar a passagem de trem? Pagava quem queria, não me lembro de guardas. Se havia algum nunca encheu o saco. Pulávamos o muro da estação ferroviária tanto na ida como na volta. Dificilmente disputávamos lugar para sentar. As composições funcionavam como um relógio e eram limpas. 


No pós 64 a qualidade de vida piorou e a repressão comeu solta. Pude reconhecer nos cartazes de "PROCURA-SE" colados pela repressão, nas colunas de todas as estações, alguns estudantes dos colégios do bairro, sob o título de "TERRORISTAS". 

A mobilização popular contra o golpe e a ditadura militar implantada no Brasil em 31 de março de 1964, teve lugar, óbviamente, não apenas ali entre os estudantes naquele colégio específico onde meu irmão estudava, na Zona Leste de São Paulo, onde morávamos. Agitação similar ocorreu por toda parte, em todos os rincões do Brasil, de norte a sul, de leste a oeste. Em todos os bairros onde havia um jornal para ler apesar das mentiras escritas neles. Em toda vida onde havia um rádio para escutar, apesar das mentiras que eles diziam. Nas grandes e pequenas cidades, no campo, nas indústrias, o povo queria fazer alguma coisa contra aquilo. 


Trevas ainda não dissipadas

Os sindicatos, como acontece até hoje, atrelados ao Estado, funcionavam como concessão que pode ser retirada a qualquer momento. O que veio a ocorrer mais tarde com o ato institucional número 5, que em 1969 mergulhou definitivamente todo o país nas mais densas trevas, as quais até hoje não foram totalmente dissipadas. Os articuladores do golpe, torturadores, assassinos profissionais, TODOS, absolutamente TODOS, permanecem impunes, vergonhosamente, ao contrário do que ocorre em outros países vizinhos que igualmente passaram por regimes ditadoriais. 

Muito se fala sobre a perseguição implementada a partir de 1969 contra jornalistas, dirigentes sindicais, políticos, alguns deles hoje recebem do Estado até mesmo pensões por terem resistido à ditadura. Mas há um silêncio perturbador pairando sobre os perseguidos durante o período 1964-1969, a esmagadora maioria desses operários, estudantes, camponeses, não falava outro idioma, não pertenciam à classe média ou alta, não tinham contato nem dispunham de apoio de grupos políticos internacionais. Foram pegos nas favelas da periferia das grandes e pequenas cidades. Desde os morros cariocas até as caatingas do nordeste. Foram trucidados e esmagados. Muitos dos familiares dessas vítimas até hoje não sabem nem mesmo onde foram parar os corpos de seus mortos. Esses milhares de proletários espancados, presos sem acusação declarada, sem condenação, sem julgamento, torturados, humilhados, assassinados pela ditadura, permanessem e permanecerão anônimos enquanto não for instalado um tribunal com reconhecimento internacional para apurar tudo, e passar a limpo nossa história. 


Conclusão

A revolução no Egito têm muito a nos ensinar, e cabe a cada um de nós, individualmente ou em grupo, refletir sobre o que está acontecendo hoje no mundo. E é o que faço agora do meu jeito, fora das normas, com tropeços, erros, deficiências. 

Diante, do que vi pessoalmente em 1990 em minha viagem pela Palestina, Egito, Marrocos, do que vejo hoje à distancia pela internet e noticiários, dos relatos de amigos presentes na Praça Tahir, o olho do furação, cheguei a algumas conclusões:

A revolução coloca em segundo plano toda e qualquer ideologia. Mesmo simpáticos a uma ou outra, seus milhões de participantes estavam dispostos a descartá-las, provisória ou definitivamente, em favor da unidade. Mesmo porque essas grandes massas estavam mais voltadas para coisas práticas do que estudos e disputas teóricas. Nenhuma ideologia política prevalece em favor da busca constante por consenso.


Não havia bandeiras de partidos enroladas ou agitadas como em um estádio de futebol lotado.  Nem disputas entre torcidas organizadas ou não organizadas na arquibancada ou nas ruas. A colaboração e o diálogo prevaleceram. A disputa foi descartada. Não havia adeptos ao time A, B ou C. Havia um time único. Um só time contra toda forma de coersão, opressão, corrupção, mentira, corporação, exploração. Havia um só corpo composto por infinitos membros que interagem entre si. Falamos e agimos por nós mesmos. 


Não precisaram de classe política, nem de partido político. Nem de composições de siglas partidárias para desenhar o presente e o futuro. Todos, ou a maioria, jogaram. Ninguém, ou quase ninguém, foi galera, espectador, torcedor. Os exploradores da fé popular são repudiados. Cada homem valeu um homem. Houve repúdio aos especialistas da imprensa, da religião, dos sindicatos, dos partidos, da saúde, da justiça, da educação, do poder estatal, à toda exteriorização petrificada, a toda exteriorização do poder. 


Enfim, em sua revolução o proletariado egipcio não encontrou nada de positivo fora de si mesmo. 

Um comentário:

greg disse...

"Nossos amigos riquinhos, burros como sempre, iam para as escolas particulares, de péssima qualidade"

(eu também pertencia à parte sem recursos financeiros até para pegar um ônibus para ir à escola. Muitas vezes fui a pé)
Sua fala é preconceituosa...

....não pagavam o ônibus...atitudes como esta é que vão formando a grande cúpula da corrupção.

contraditório você!!!