domingo, 4 de dezembro de 2011

O avesso do avesso da história

Antropólogos e historiadores dividiram o passado da humanidade por Eras Históricas. Através das Eras Históricas entendemos a involução do homem, suas primeiras formas de dissociabilização e conflitos em comunidade, os primeiros registros de alienação e desarmonia, injustificáveis e longas batalhas por território, o desenvolvimento do acúmulo, etc. É graças a estes períodos fragmentados da história da (des)humanidade que compreendemos a complexa involução política, social, econômica, histórica e cultural do homem. Foi na Pré-história, período anterior à escrita, onde certas formas de comunicação humana foram desenvolvidas a partir de símbolos e gestos. Nessa época, o homem começa a se distinguir dos outros animais por sua capacidade técnica de criar armas rudimentares para matar, inclusive semelhantes, constituindo os primeiros registros de guerra. A Idade Antiga iniciou-se com a origem da escrita por volta de 4.000 a.C. e foi a era em que o homem fundou o escravagismo com a criação do Estado, estabelecendo leis e regras para serem aplicadas pela sociedade com o intuito de garantir domínio numa população dividida em classes. Na Idade Antiga surgiram profetas como Zoroastro, Buda e Cristo, denunciando os descaminhos da raça humana, enquanto filósofos gregos como Sócrates, Platão e Aristóteles procuravam justificá-los.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

FORA PM!

 Estudantes da USP protestam contra a presença da Polícia Militar no campus da universidade e pela saída do reitor João Grandino Rodas

sábado, 19 de novembro de 2011

Gafanhoto atacado por rinoceronta gangrenada, militantista, sloganista e replicante de Modjus.


"Parabéns"!? "Contamos com vocês"!? Para mandar balas de 
borracha e spray de pimenta na nossa cara em vez de chumbo?
Farsantes infiltrados no #acampasampa dão todo apoio aos 2.127 formandos da PM com faixas:  "POLÍCIA É 99% TAMBÉM", "PARABÉNS... CONTAMOS COM VOCÊS", Para que? Por quê? Para mandar balas de borracha na nossa cara em vez de chumbo? Perseguir pretos, pobres e prostitutas? Lançar spray de pimenta em nossos olhos?Cercar-nos com grades como cidadãos de segunda classe?


P2 tentam calar e expulsar manifestante por escrever cartaz 
"NÃO MATARÁS" em repúdio à vocação assassina da polícia paulista. 
Participante do acampasampa escreve faixa "NÃO MATARÁS" fixando-a na grade que separa acampasampa da festa dos formandos da PM. Pretensos líderes do 15o não gostam: "Vamos tirar isso daí porque os policiais podem pensar que é para eles" e retiram o cartaz. Enquanto isso, rinoceronta provavelmente ligada à polícia e/ou partido político, tenta expulsar autor do cartaz, e impedi-lo de dizer aos novos PMs que eles foram, em seu curso, essencialmente treinados para matar, o que não se coaduna com o mandamento "NÃO MATARÁS", um dos principais fundamentos da fé cristã. Outros P2 tentam impedir acampados de efetuar a filmagem do indignado. 



video
Vídeo onde aparece a vergonhosa faixa "polícia é 99% também".




Enquanto faixa "não matarás" é recolhida por PMs e infiltrados, rinoceronta 
tenta expulsar manifestante e impedi-lo de expressar sua indignação diante da polícia.

O ocupasampa terminou na realidade no dia que antecedeu a festa de formatura da polícia, quando todo o espírito de resistência veio por água abaixo. O que se confirmou nas faixas favoráveis à PM, colocadas dentro do próprio acampamento, que configurou uma vergonhosa capitulação, especialmente por ter ocorrido num momento de resistência dos camelôs no Brás e dos estudantes na USP. A prática reacionária veio mais de dentro para fora do que de fora para dentro. Pessoas broxantes como essa patricinha no vídeo acima dando ordens no acampamento, junto com outros articulados com ela, é uma excelente ilustração. Mas a luta independe desse tipo de gente e ressurgirá mais forte e mais robusta em algum outro lugar e momento, onde esses contrarrevolucionários não terão vez.



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Acampadas

O texto abaixo foi preparado pel@s indignad@s da Acampada Puerta del Sol (#acampadasol) com o intuito de explicar como nasceu o movimento, o que são as acampadas, seus valores, seus objetivos e como se organizam.


O movimento 15M é formado por centenas de acampadas espalhadas por todo o mundo, todas unidas e conectadas através da rede, elas são os motores dessa revolução, responsáveis pela organização dos grupos de trabalho, assembleias, debates, protestos e tantas outras atividades sociais, são formadas por pessoas normais que dedicam um pouco do seu tempo em prol do bem comum, que deixam as suas diferenças de lado para unir-se contra as injustiças do sistema.
A cada dia novas acampadas surgem, novos grupos independentes, livres da influência de partidos políticos, livres de ideais extremistas, abertas à participação de qualquer pessoa, todas com desejo de escutar, debater e juntas, de forma horizontal, chegarem a um consenso sobre aquilo que será melhor para a maioria.
Esperamos que essa leitura te inspire.
1.  Quem somos nós?    


Somos “os indignados”
No dia 15 de maio de 2011, um grupo de cidadãos com diferentes formas de pensar iniciou um movimento político não-partidário conhecido como 15M. Após a manifestação realizada naquele dia, espontaneamente decidimos acampar nas ruas e praças da nossa cidade, como repúdio visível da situação política e econômica que está se tornando mais insuportável a cada dia, e como um meio de organizar os nossos esforços para encontrar juntos uma maneira de construir um mundo melhor.
Mais de 50 cidades na Espanha se uniram ao movimento, estabelecendo acampamentos em todo o país, e pontos de apoio apareceram em muitos outros países. Já não estamos acampados nas praças do país, mas estamos reunidos em centenas de assembleias de bairros que foram criadas desde então.
Nós não somos representados por partidos políticos, associações ou sindicatos, nem queremos ser, porque acreditamos que o povo pode decidir por si mesmo. Queremos pensar entre nós como construir um mundo onde as pessoas e a sustentabilidade do planeta prevaleçam sobre os interesses econômicos. Queremos criar o mundo mais justo possível. Unidos, podemos e vamos. Sem medo.

2. Por que tomamos as ruas?
Porque os espaços públicos sempre foram nossos, apesar de que isso foi esquecido há muito tempo. Eles nos chamam “os indignados”, os cidadãos indignados que sofreram o suficiente e isso é o que somos.
Estamos cansados de ser tratados como bucha de jornal, estatísticas, consumidores em potencial, números; chega de ser mercadoria para políticos e banqueiros.
Estamos cientes de ter um voto mas nenhuma opinião sobre aquilo que está ocorrendo, estamos frustrados com a falta de vontade dos políticos para criar mecanismos de participação direta no processo de tomada de decisões. Mecanismos que ponham fim à corrupção e à falta de transparência na política e nas instituições públicas, para colocar o cidadão acima das forças de mercado e interesses privados.
Não conseguimos entender por que devemos pagar os custos da crise, enquanto seus instigadores continuam a anunciar lucros recordes. Estamos enojados e cansados de uma injustiça atrás da outra. Queremos a dignidade humana de volta.
Este não é o tipo de mundo que queremos viver, cabe a nós decidir sobre o mundo que queremos, sabemos que podemos mudá-lo e estamos vivendo esse grande momento.
Nós tomamos as ruas e praças pelas mesmas razões que os movimentos da Islândia, dos países Árabes e tantos outros também o fazem, agimos localmente, mas pensamos globalmente. Nossos problemas globais exigem soluções globais.

3. O que fazemos?

Sentimos, observamos, pensamos, escutamos, falamos, propomos, discutimos, cooperamos, aprendemos, comunicamos, tentamos mutuamente nos entender, trabalhamos, construimos…
Lutamos… para mudar um sistema injusto, questionamos as leis, os métodos de participação e o sistema econômico e propomos alternativas concretas e possíveis Nosso objetivo é melhorar a vida nesse planeta para todos os seus habitantes.
Criamos… redes humanas digitais que dão origem a novas formas de conhecimento coletivo, aprimorando cada vez mais a nossa capacidade analítica e consequentemente o nosso mecanismo de tomadas de decisões conjuntas. Somos a inteligência coletiva do mundo, em processo de organização.
Desenvolvemos… novos meios de organizar, interagir e viver. Combatemos o êxtase induzido pelo sistema e buscando o nosso desenvolvimento e aperfeiçoamento contínuo, participação ativa, de reflexão e de análise, de decisão e ação.

4. Como fazemos tudo isso?

Recuperando e usando o espaço público: tomando as ruas e praças das nossas cidades para nos conhecer e trabalharmos juntos, aberta e visivelmente. Informando a população sobre os nossos objetivos e convidando a todos para se juntarem a nós. Discutindo problemas, buscando soluções e chamando os cidadãos para a ação e manifestação. Nossas redes digitais e ferramentas são todas de código aberto: toda a informação está disponível online, assim como em nossas ruas e praças.
Nos organizando através de assembleias, tomando decisões de forma aberta, democrática e horizontal. Não temos líderes, nem hierarquia.
Como há muito trabalho a realizar, dividimos todas as tarefas em três grupos: comissões, grupos de trabalho e assembleias gerais.
As comissões e grupos de trabalho operam de forma independente. As comissões têm funções organizacionais e estruturais e servem como ferramentas para o movimento (A comissão Legal e IT são dois exemplos). Os grupos de trabalho são plataformas para o pensamento coletivo, debate e pesquisa sobre temas específicos (temos grupos de trabalho sobre temas como política, economia e meio ambiente, por exemplo).
Estas comissões e grupos de trabalho estão abertos a qualquer pessoa que queira participar. Eles realizam suas reuniões em espaços públicos, anunciando com antecedencia e todas as suas decisões são registradas em atas que são publicadas online. Todos se organizam em torno de assembleias horizontais, mas cada grupo coletivamente estabelece a própria forma de operar, que está permanentemente aberta a mudanças e otimização.
Todas as decisões importantes feitas por essas comissões e grupos de trabalho são posteriormente levadas à assembleia geral para avaliação e ratificação pelo movimento como um todo. Assim, enquanto o nosso trabalho é feito de forma eficiente e independente, ele é coordenado horizontalmente por nossas assembleias.
No domínio virtual, criamos redes sociais e ferramentas para melhorar a comunicação e unir esforços. Usamos a rede social N-1 e outras ferramentas para nos relacionar, assim como nossos próprios websites: takethesquare.net (internacional), tomalaplaza.net (Espanha) e tomalosbarrios.net (Espanha) e também usamos o Twitter e o Facebook para dar maior visibilidade e alcançar todos os cantos e recantos do ciberespaço.

5. Qual o Organograma?

Lista de algumas das nossas comissões:
Comunicação – A comissão de comunicação é, na verdade, um agrupamento de várias subcomissões. Duas das suas principais tarefas são interagir com a mídia e publicar informações em sites e redes sociais. Sua subcomissão de tradução ajuda a transmitir o desenvolvimento do movimento ao redor do mundo.
Assuntos Legais (Jurídico) – Fornece assessoria jurídica ao movimento, mediações com a polícia, e identifica possíveis riscos legais nas propostas apresentadas.
Dinamização das Assembleias – Prepara a metodologia a ser seguida nas assembleias, elaboração da agenda e estabelece o regime de moderação, os tempos e uso da palavra. Esta comissão também controla o tempo geral das assembleias.
Informação – Instala e mantem postos de informações das ruas para prover todo tipo de informação sobre o movimento aos cidadãos.
Ação – Organiza as atividades internas (conferências, reuniões, protestos) e planeja ações para alertar, prover informação pública ou exercer pressão política.
Coordenação Interna – Coordena trabalhos das comissões, compilando as decisões tomadas por todas as comissões 15M, transmitindo-as aos estandes de informações. Também coordena informações logísticas sobre todas as comissões (tal como onde se encontram e pessoas de contato de cada comissão).
Análise – Analisa o movimento como um todo, realiza discursos internos e externos, bem como questões organizacionais e a forma em que o movimento se expande. Sua tarefa é compilar, analisar, converter, sintetizar e, posteriormente, relançar informações.
Outras comissões focam essencialmente os acampamentos e suas necessidades
Infraestrutura – Fornece os recursos materiais necessários para acampamentos e atividades fora dos seus limites: lonas, estações de trabalho, uso do espaço, stands de informação, energia elétrica (geradores), banheiros e chuveiros, para citar alguns. Muitos desses recursos são doados e distribuídos sob princípios de autogestão.
Respeito – Sua função é trabalhar para manter um ambiente pacífico e seguro, mediação em caso de incidentes ou provocação e prevenção de riscos potenciais. Sua força é apenas verbal: sua tarefa é explicar e persuadir, enquanto transmite a importância de um ambiente respeitoso no acampamento.
Enfermaria – fornece os primeiros socorros quando necessário e gerencia os suprimentos médicos.
Alimentos – Tem a função de gerenciar e coordenar os alimentos doados e estabelece turnos para as refeições.
Limpeza – Organiza o acampamento de forma que o mesmo esteja sempre limpo e saudável. Não é um serviço de limpeza: somos todos responsáveis pela nossa limpeza.
Abaixo listamos alguns dos nossos grupos de trabalho:
Educação e universidade
Cultura
Meio-ambiente
Economia
Trabalho social
Política
Feminismo
Imigração e mobilidade
Ciência e tecnologia
Reflexão

6. Quais os Links?

[Internacional] www.takethesquare.net  contact.takethesquare@gmail.com @takethesquarehttp://www.facebook.com/Take.the.Square 
[Rede Social] www.n-1.cc 

Extraído de 
http://www.democraciarealbrasil.org/?page_id=581

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Anotações sobre estalinismo e trotskismo (*)

por Ken Knabb

Para aqueles que não estão familiarizados com o fundo político internacional da história de Ngo Van, as anotações a seguir podem ser úteis. Abordam estalinismo e trotskismo e traçam algumas das voltas e reviravoltas da III Internacional sob o controle de Stalin.

A Revolução Russa de 1917 consistiu de duas etapas relativamente distintas. A "revolução de fevereiro", uma série de lutas populares, em grande parte espontânea, iniciada em fevereiro e que continuou ao longo dos próximos meses, e a "revolução de outubro", essencialmente um golpe de Estado realizado pelo Partido Bolchevique, sob a liderança de Lênin e Trotsky. Os bolcheviques tinham a reputação de revolucionários radicais, em parte devido ao fato de terem sido um dos poucos grupos de esquerda a se opor a I Guerra Mundial, mas uma vez no poder, reprimiram as tendências radicais de base transformando-se numa nova classe dominante. Embora mudassem o nome para "Partido Comunista" em 1918, o sistema que eles criaram nada tinha a ver com o comunismo no verdadeiro sentido da palavra, era simplesmente uma versão mais crua e mais concentrada de capitalismo. A propriedade privada foi substituída pela propriedade estatal, mas o próprio capitalismo (sistema de mercantilização das relações sociais) não foi de modo algum eliminado. Os trabalhadores antes explorados por uma multidão de capitalistas privados eram agora explorados por uma única empresa capitalista proprietária de tudo: o Estado. Embora este processo fosse complexo e gradual, a transformação tornou-se bastante clara em 1921 quando os marinheiros revolucionários de Kronstadt foram esmagados pelo regime "comunista", sob a liderança direta de Trotsky. (Veja "A Revolução Desconhecida" por Voline e "Os bolcheviques e o Controle sobre os Trabalhadores: 1917-1921" por Maurice Brinton).

Após a morte de Lenin, em 1924, a facção liderada pelo Partido Comunista de Stalin tornou-se cada vez mais poderosa, a ponto de Trotsky ser colocado na defensiva e, finalmente, expulso do Partido e forçado ao exílio. Stalin, em seguida, impôs vários desdobramentos internos totalitários que não serão discutidos aqui, por serem geralmente bem conhecidos —  A polícia do Estado-ditadura, a coletivização forçada, os campos de trabalho chamados Gulag, julgamentos públicos, etc. (Entre as boas narrativas deste processo está Stalin: Uma Pesquisa crítica do bolchevismo por Boris Souvarine,  O Enigma russo por Ante Ciliga, e Memórias de um revolucionário por Victor Serge ).

O regime stalinista também exerceu uma influência perversa sobre os movimentos radicais em outros países ao redor do mundo. A Terceira Internacional (também conhecida como Internacional Comunista ou Comintern) formou-se em Moscou em 1919 para unir os partidos comunistas revolucionários em todo o mundo, após a maioria dos partidos socialistas da Segunda Internacional ter traído seus princípios socialistas e internacionalistas por mobilizar seus respectivos governos durante a primeira Guerra Mundial. Sob o controle de Stalin, o Comintern tornou-se cada vez mais centrado no objetivo de defender o regime de Stalin a todo custo. Para isso, ao longo das próximas duas décadas impôs uma sucessão de políticas de ziguezague sobre os subservientes partidos comunistas em outros países, a maioria das quais funcionou desastrosamente.

Após o fiasco "aventureiro" no início de 1920 (Alemanha 1923, Estônia 1924, etc.), o Comintern adotou uma política defensiva de compromissos e alianças com várias forças burguesas em todo o mundo. A falha mais dramática dessa política foi na China em 1925-1927. Num momento em que trabalhadores radicais alcançavam vitórias significativas nas principais cidades da China, Stalin insistiu que o Partido Comunista Chinês se subordinasse ao Kuomintang, o partido nacionalista liderado pelo general Chiang Kai-shek. Assim que os trabalhadores de Xangai tomaram a cidade em abril de 1927, a liderança comunista, exortou-os a acolher o exército de Chiang Kai-shek e entregar-lhe todas as suas armas. Quando o fizeram, o exército de Chiang entrou na cidade massacrando milhares de trabalhadores radicais. (Veja A tragédia da Revolução Chinesa por Harold Isaacs). Este resultado catastrófico da política de Stalin, que Trotsky previu com precisão e tentou impedir, foi sem dúvida um fator importante para esclarecer a disposição dos radicais vietnamitas de juntar-se a posições trotskistas nos anos seguintes.

Em 1928, Stalin impôs uma outra mudança política, argumentando que, após o período de levante revolucionário no início do pós-guerra (1917-1923) seguiu-se o refluxo, e a defensiva (1924-1928), até o movimento internacional dos trabalhadores entrar em um novo "Terceiro Período", no qual as revoluções radicais entrariam novamente na agenda. O principal inimigo era agora, supostamente, os partidos socialistas, que os estalinistas qualificavam como "social-fascistas". Seguindo essa política, o Partido Comunista Alemão focado em atacar os socialistas alemães, ignorava os nazistas, ajudando assim a pavimentar o caminho para os nazistas tomarem o poder em 1933 (que logo levou à destruição tanto de socialistas como de comunistas na Alemanha).

Em 1935, a linha do Comintern deslocou-se para o extremo oposto. Agora era supostamente necessário aliar-se aos socialistas, e de fato com qualquer um que não fosse declaradamente fascista, incluindo os partidos de centro e mesmo conservadores, para formar uma "frente unida contra o fascismo". Esta política levou a Frente Popular a ganhar as eleições na Espanha e na França em 1936. Mas as correntes radicais que tinham apoiado essas frentes já estavam comprometidas, com as mãos atadas devido a suas alianças com as forças mais centristas. Na Frente Popular espanhola.  Na França, o governo da Frente Popular, pressionado por uma onda de greves e ocupações de fábricas, cedeu alguma legislação progressista (40 horas semanais, férias remuneradas, direito de greve, etc.), mas não fez nada para eliminar o colonialismo francês ou mesmo melhorar as condições nas colônias, além de algumas poucas reformas que nem foram implementadas em sua maioria. Isso colocou os estalinistas vietnamitas na incômoda posição de ter de defender o regime colonial francês que tinham combatido desesperadamente durante tanto tempo.

Em seguida, o Pacto Hitler-Stalin de 1939 causou outro zigue-zague. Agora o foco era mais uma vez a luta contra a França, enquanto a ameaça do fascismo era jogada para baixo do tapete (embora a Alemanha nazista estivesse à beira de invadir a França e o Japão prestes a invadir a Indochina).

Então, quando Hitler traiu Stalin ao invadir a Rússia em 1941, foi mais uma vez , uma "guerra contra o fascismo". Os estalinistas vietnamitas, assim, novamente se encontraram com os seus aliados franceses senhores coloniais (embora o regime colonial na Indochina fosse pró-Vichy e, portanto, mais ou menos aliado com os fascistas).

Então, no vácuo de poder depois da derrota dos japoneses, em 1945, num momento em que o povo vietnamita tinha condições de evitar quaisquer forças significativas francesas de entrar novamente no país (a França estava se recuperando de anos de ocupação nazista e desmoralizada pela colaboração do regime Vichy com os nazistas, e a maioria de suas forças armadas estava a meio caminho ao redor do mundo), o líder stalinista Ho Chi Minh assinou uma série de compromissos com americanos, britânicos, chineses e franceses, o que lhe permitiu aumentar o seu poder, destruir os trotskistas, outros potenciais rivais, e assumir o controle total sobre as forças nacionalistas, mas que ao mesmo tempo permitiu às forças francesas reinserir o país, resultando mais 30 anos de guerra para obter uma independência nacional, que poderia muito bem ter sido conquistada em 1945. Somente em 1975 o país foi finalmente libertado de seus senhores estrangeiros — mas submetido a uma ditadura stalinista nativa.

A maioria dessas políticas estalinistas foi duramente criticada por Trotsky. Por volta de 1923-1934 Trotsky e seus seguidores se denominavam "Oposição de Esquerda", uma oposição dentro do Partido Comunista russo, tentando recuperar o poder da facção estalinista, para trazer o partido de volta a uma direção revolucionária e internacionalista. Depois de serem expulsos do partido russo em 1928, eles voltaram sua atenção para os partidos comunistas de outros países e para a Terceira Internacional. Esta estratégia mostrou-se igualmente infeliz na medida em que as tendências trotskistas foram sistematicamente eliminadas dos partidos dominados por Stalin em todo o mundo. Por volta de 1933 ou 1934 muitos trotskistas concluiram que a Terceira Internacional estava irremediavelmente perdida e que era necessário formar uma Quarta Internacional. Isto ocorreu em 1938 (razão pela qual alguns grupos provisórios como a Liga Ngo Van de comunistas internacionalistas a denominaram "pela Construção da Quarta Internacional").

Seria muito tedioso discutir aqui as diferenças complexas entre os numerosos grupos trotskistas e as tendências dos anos 1930 até os dias atuais. Basta dizer que o envolvimento direto de Trotsky no processo do Partido Comunista, fez dele uma força contra-revolucionária na Rússia, e por nunca ter reconhecido que o partido transformara-se numa nova classe dominante burocrática, sua tentativa de levar o partido a retomar uma política revolucionária internacional estava fadada ao fracasso. "Trotsky foi condenado pela sua perspectiva fundamental, porque quando a matriz burocrática cientificou-se de ter-se transformado numa classe contra-revolucionária, ela foi obrigada a optar por um papel igualmente contra-revolucionário em outros países "(Guy Debord, A Sociedade do espetáculo # 112). É por isso que a polêmica trotskista, por mais radical que possa parecer em alguns aspectos, volta e meia sempre acaba tropeçando na mesma conclusão errônea: o stalinismo é criticado de muitas maneiras, mas em última análise, ainda consideram os regimes estalinistas "progressistas". Os regimes estalinistas são chamados de "estados com trabalhadores degenerados" ou "estados com operários deturpados", implicando que o sistema sócio-econômico é basicamente bom, apenas mal orientado por uma liderança política defeituosa que precisa ser substituída por uma direção correta à la Lênin e Trotsky. Os trotskistas deixam de reconhecer a origem do estalinismo nas velhas práticas autoritárias de Lênin e de Trotsky e na estrutura hierárquica do Partido Bolchevique, que já inaugurara o sistema estatal-capitalista bem antes de Stalin chegar ao poder.

Note-se que nenhuma dessas tendências políticas têm muita relação com Marx, apesar de todos eles declararem-se marxistas. Uma das razões do apreço de Ngo Van por Maximilien Rubel foi a convicção revelada de como o leninismo e o trotskismo (para não dizer nada do stalinismo) divergem significativamente do ponto de vista real de Marx. Embora Marx tivesse evidentes divergências com alguns anarquistas de seu tempo, sua perspectiva era na realidade muito mais próxima ao anarquismo do que de qualquer uma das vertentes do socialismo de Estado. A prevalência estatista do "marxismo" durante o último século abafou outras correntes do marxismo bem mais próximas de Marx (e das vertentes mais coerentes do anarquismo), tais como Rosa Luxemburgo, Pannekoek Anton, Korsch Karl, Socialismo ou Barbarie, e a Internacional Situacionista.



(*) Extraído de http://www.bopsecrets.org/vietnam/stalinism-trotskyism.htm, submetido ao google tradutor e rápidamente revisado, o texto acima foi escrito por Ken Knabb e é um dos apêndices de In the Crossfire: Adventures of a Vietnamese Revolutionary por Ngo Van (AK Press, 2010). Qualquer contribuição no sentido de melhorar a tradução aqui apresentada será sempre bem vinda.

domingo, 4 de setembro de 2011

Democracia direta: A mais poderosa bomba já feita pelo homem

O encontro começa às 17 horas. As pessoas já estão a postos, grupos de afinidade conversam entre si. As pessoas trocam olhares umas com as outras. Há um clima de guerra no ar, tem-se a falsa sensação de que o inimigo são os outros, as outras pessoas. De que uma batalha terrível está prestes a ser desencadeada e onde haverá vencidos e vencedores, e ninguém ali quer, após a batalha, estar listado entre os vencidos, entre os perdedores.

Mas ali não poderá haver vencidos, pois se cada um vencer a si mesmo todos serão vencedores. O inimigo está dentro de nós mesmos. O monstro a ser destruído está no desejo de cada um de nós de sobrepor-se aos demais, de dominá-los, de fazer com que se submetam aos nossos desejos, aos nossos métodos, para que assim ele possa realizar o desejo oculto de ser um líder, ou de trazer todos a seguir meu líder. Esse monstro tem que ser vencido, calado, superado.

A democracia direta é diferente de tudo o que se viu até agora. Não há outra vanguarda, não há outra linha de frente senão a própria ideia, o próprio método, que não pertence a um grupo ou pessoa específica, mas que pertence a todos os grupos e pessoas, e é a única ideia que prevalece e que não pode ser superada.

Continua...


sábado, 3 de setembro de 2011

Governo dos EUA cria perfis falsos nas redes sociais

Operação de espionagem estadunidense manipula redes socias na internet.



Os militares dos EUA estão a desenvolver um software que permitirá secretamente manipular sítios de redes sociais ao usar entidades virtuais falsas para influenciar conversações na internet e espalhar assim propaganda pró-estadunidense.

Uma corporação Californiana venceu o concurso para um contrato com o Comando Central dos EUA (Centcom) que supervisiona as operações armadas dos EUA no Oriente Médio e Asia central, para desenvolver o que é descrito como um "serviço de gerência de entidades virtuais" que permitirá a um militar dos EUA controlar até 10 entidades virtuais espalhadas por diversos cantos do mundo.

O projeto foi comparado por peritos da internet às tentativas da China para controlar e restringir a liberdade de expressão na rede. Os críticos certamente irão queixar-se de deixar militares americanos criar um falso consenso nas conversações na net, abafar opiniões menos convenientes e comentários ou reportagens que não correspondam aos seus objetivos.

A descoberta de que os militares americanos estão a desenvolver entidades falsas na net - conhecida pelos usuários da media social como "sock muppets" - poderá encorajar outros governos, companhias privadas e ONG's a fazerem o mesmo.

O contrato com a Centcom estipula que cada entidade virtual falsa tenha um histórico e dados de apoio convincentes de forma que até 50 controladores situados nos EUA sejam capazes de operar essas mesmas entidades falsas das suas estações de trabalho "sem medo de serem desmascarados por adversários sofisticados".

O porta-voz da Centcom, Comandante Bill Speaks disse: "Essa tecnologia dará apoio ao rastreamento de "blogs" de língua estrangeira para que o Centcom reaja diante da propaganda extremista e violenta fora dos EUA".

Ele disse que nenhuma das intervenções seria em Inglês porque seria ilegal "atingir o público dos EUA" com esta tecnologia e que qualquer uso da língua inglesa na media social pela Centcom seria claramente criminoso. As linguagens em que as intervenções serão feitas serão: Árabe, Farsi, Urdu e Pashto.

A Centcom disse que não vai intervir em sítios dos EUA em Inglês ou qualquer outra lingua e especificamente disse que não iria intervir em redes sociais como o Facebook ou Twitter.

Quando desenvolvido, este software poderá permitir aos militares americanos trabalhar intensamente numa localidade para responder a conversações emergentes na net com qualquer número de mensagens coordenadas, "posts" em blogs, "chatrooms" entre outras intervenções. Os detalhes do contrato sugerem que a localização seria a base aérea MacDill situada perto de Tampa, Florida onde fica o Comando de Operações Especiais dos EUA.

O contrato com a Centcom requer para cada controlador um "servidor virtual privado" localizado nos EUA e outros que aparentarão estar fora dos EUA para dar a impressão que as entidades são pessoas reais localizadas em partes diferentes do mundo.

Fará também "traffic mixing", fundindo o uso dessa mesma entidade falsa com o uso de pessoas fora da Centcom de maneira que permitirá um "excelente disfarce e poder de dissimulação".

O contrato de multi-entidades foi talvez concebido como parte de um programa chamado "Operação Ernest Voice" (OEV) que foi primeiro desenvolvido no Iraque como uma arma de guerra psicológica contra a presença na net de adeptos da al-Qaida e outros grupos que se opuserem às forcas de coalizão.

Desde então, a OEV expandiu-se em um projeto no valor de 200 milhões de dólares, que provavelmente foi usado contra jihadistas no Paquistão, Afeganistão e no Oriente Médio.

A OEV e visto, por comandantes americanos, como peça vital de contra-terrorismo e o programa de contra-radicalização. Em provas prestadas ao comitê dos serviços armados do senado dos EUA no ano passado, o General David Petraeus, na altura comandante do Centcom, descreveu a operação como um esforço para "contrapor-se à ideologia e propaganda extremista e para se certificar de que vozes credíveis seriam ouvidas na região". Ele disse que o objectivo dos militares dos EUA era ser o "primeiro a chegar com a verdade".

Neste mês o sucessor de Petraeus, General James Mattis, disse ao mesmo comitê que o OEV "apoia todas as atividades associadas com o denegrir narrativa inimiga, incluindo o envolvimento na internet e capacidade de distribuição de produtos na internet".

Centcom confirmou que  2.76 milhões de dólares do contrato foram atribuídos a Ntrepid, uma corporação nova registrada em Los Angeles. Não se desvendou se o projeto de multi-entidades ja estava em operação ou a discussão de contratos relacionados.

Ninguém da parte da Ntrepid esteve disponível para comentar.

No seu depoimento ao comitê do Senado, o General Mattis disse: "a OEV procura destabilizar o recrutamento e treino de homens-bomba; negar lugares seguros para os nossos adversários; e contra-agir a ideologia e propaganda extremista." Ele disse também que o Centcom estava a trabalhar em conjunto "com os parceiros das forcas de coalizão" para desenvolver novas técnicas e táticas que os EUA poderá usar "para agir contra o adversário no domínio da internet".

De acordo com um relatório do inspetor geral do departamento da defesa dos EUA no Iraque, a OEV era gerida por forcas multinacionais e não pela Centcom.

Quando foi questionado se houve envolvimento por parte de militares do Reino Unido na OEV, o Ministro da Defesa do Reino Unido disse que "não encontrava provas de tal facto". O Ministro recusou a dizer se houve envolvimento nos programas de gerencia de entidades falsas, dizendo: "Nao comento sobre a nossa capacidade cibernética".

A OEV foi discutida no ano passado num encontro de especialista em guerrilha eletrônica em Washington DC, onde um oficial da Centcom disse aos delegados que o seu proposito era "comunicar mensagens criticas e agir contra a propaganda dos nossos adversários".

A Gerencia de entidades falsas pelos militares americanos enfrentaria desafios legais se fosse usado contra cidadãos americanos, onde um numero de pessoas que se envolveram em "sock puppetry" foram condenados.

No ano passado, um advogado de Nova York que se fez passar por um educador foi condenado a prisão depois de ser julgado por "personificação criminal" e roubo de identidade.

Não esta claro se o programa de gerencia de entidades falsas iria contra as leis do Reino Unido. Peritos legais dizem que não anda longe de se enquadrar no Ato de Falsificação e Forjamento de 1981, que diz que "a pessoa é culpada de falsificação se fizer um instrumento falso, com a intenção de induzir alguém a aceitar algo como genuíno e pela razão de aceitar fazer ou não fazer esse ato que prejudica alguém". No entanto, isto só se aplica se um sitio ou rede social pudesse provar que sofreu "prejuízo" como resultado.

-Este artigo foi emendado no dia 18 de Março de 2011 para remover referencias ao Facebook e ao Twitter, feito durante o processo de edição, e para adicionar um comentário da Centcom, recebido depois da publicação, de que nao esta a usar esses sítios para os seus fins.

Extraído de:   http://www.guardian.co.uk/technology/2011/mar/17/us-spy-operation-social-networks?CMP=twt_iph

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O planeta doente



por Guy Debord



A “poluição” está hoje na moda, exatamente da mesma maneira que a revolução: ela se apodera de toda a vida da sociedade e é representada ilusoriamente no espetáculo. Ela é tagarelice tediosa numa pletora de escritos e de discursos errôneos e mistificadores, e, nos fatos, ela pega todo mundo pelo pescoço. Ela se expõe em todo lugar enquanto ideologia e ganha terreno enquanto processo real. Esses dois movimentos antagônicos, o estágio supremo da produção mercantil e o projeto de sua negação total, igualmente ricos de contradições em si mesmos, crescem em conjunto. São os dois lados pelos quais se manifesta um mesmo momento histórico há muito tempo esperado e freqüentemente previsto sob figuras parciais inadequadas: a impossibilidade da continuação do funcionamento do capitalismo.

A época que tem todos os meios técnicos de alterar as condições de vida na Terra é igualmente a época que, pelo mesmo desenvolvimento técnico e científico separado, dispõe de todos os meios de controle e de previsão matematicamente indubitável para medir com exatidão antecipada para onde conduz — e em que data — o crescimento automático das forças produtivas alienadas da sociedade de classes: isto é, para medir a degradação rápida das condições de sobrevida, no sentido mais geral e mais trivial do termo.

Enquanto imbecis passadistas ainda dissertam sobre, e contra, uma crítica estética de tudo isso, e crêem mostrar-se lúcidos e modernos por se mostrarem esposados com seu século, proclamando que a auto-estrada ou Sarcelles têm sua beleza que se deveria preferir ao desconforto dos “pitorescos” bairros antigos ou ainda fazendo observar gravemente que o conjunto da população come melhor, a despeito das nostalgias da boa cozinha, já o problema da degradação da totalidade do ambiente natural e humano deixou completamente de se colocar no plano da pretensa qualidade antiga, estética ou outra, para se tornar radicalmente o próprio problema da possibilidade material de existência do mundo que persegue um tal movimento. A impossibilidade está de fato já perfeitamente demonstrada por todo o conhecimento científico separado, que discute somente sua data de vencimento; e os paliativos que, se fossem aplicados firmemente, a poderiam regular superficialmente. Uma tal ciência apenas pode acompanhar em direção à destruição o mundo que a produziu e que a mantém; mas ela é obrigada a fazê-lo com os olhos abertos. Ela mostra assim, num nível caricatural, a inutilidade do conhecimento sem uso.

Mede-se e se extrapola com uma precisão excelente o aumento rápido da poluição química da atmosfera respirável, da água dos rios, dos lagos e até mesmo dos oceanos; e o aumento irreversível da radioatividade acumulada pelo desenvolvimento pacífico da energia nuclear, dos efeitos do barulho, da invasão do espaço por produtos de materiais plásticos que podem exigir uma eternidade de depósito universal, da natalidade louca, da falsificação insensata dos alimentos, da lepra urbanística que se estende sempre mais no lugar do que antes foram a cidade e o campo; assim como as doenças mentais — aí compreendidas as fobias neuróticas e as alucinações que não poderiam deixar de se multiplicar bem cedo sobre o tema da própria poluição, da qual se mostra em todo lugar a imagem alarmante — e do suicídio, cujas taxas de expansão se entrecruzam já exatamente com as de edificação de um tal ambiente (para não falar dos efeitos da guerra atômica ou bacteriológica, cujos meios estão posicionados como a espada de Dâmocles, mas permanecem evidentemente evitáveis).

Logo, se a amplitude e a própria realidade dos “terrores do Ano Mil” são ainda um assunto controverso entre os historiadores, o terror do Ano Dois Mil é tão patente quanto bem fundado; ele é desde o presente uma certeza científica. Contudo, o que se passa não é em si mesmo nada novo: é somente o fim necessário do antigo processo. Uma sociedade cada vez mais doente, mas cada vez mais poderosa, recriou em todo lugar concretamente o mundo como ambiente e decoração de sua doença, enquanto planeta doente. Uma sociedade que não se tornou ainda homogênea e que não é mais determinada por si mesma, mas cada vez mais por uma parte dela mesma que lhe é superior, desenvolveu um movimento de dominação da natureza que contudo não se dominou a si mesmo. O capitalismo finalmente trouxe a prova, por seu próprio movimento, de que ele não pode mais desenvolver as forças produtivas; e isso não quantitativamente, como muitos acreditaram compreender, mas qualitativamente.

Contudo, para o pensamento burguês, metodologicamente, somente o quantitativo é o sério, o mensurável, o efetivo; e o qualitativo é somente a incerta decoração subjetiva ou artística do verdadeiro real estimado em seu verdadeiro peso. Ao contrário, para o pensamento dialético, portanto, para a história e para o proletariado, o qualitativo é a dimensão a mais decisiva do desenvolvimento real. Eis aí o que o capitalismo e nós terminamos por demonstrar.

Os senhores da sociedade são obrigados agora a falar da poluição, tanto para combatê-la (pois eles vivem, apesar de tudo, no mesmo planeta que nós; é este o único sentido ao qual se pode admitir que o desenvolvimento do capitalismo realizou efetivamente uma certa fusão das classes) e para a dissimular, pois a simples verdade dos danos e dos riscos presentes basta para constituir um imenso fator de revolta, uma exigência materialista dos explorados, tão inteiramente vital quanto o foi a luta dos proletários do século XIX pela possibilidade de comer. Após o fracasso fundamental de todos os reformismos do passado — que aspiram todos eles à solução definitiva do problema das classes —, um novo reformismo se desenha, que obedece às mesmas necessidades que os precedentes: lubrificar a máquina e abrir novas oportunidades de lucros às empresas de ponta. O setor mais moderno da indústria se lança nos diferentes paliativos da poluição, como em um novo nicho de mercado, tanto mais rentável quanto mais uma boa parte do capital monopolizado pelo Estado nele está a empregar e a manobrar. Mas se este novo reformismo tem de antemão a garantia de seu fracasso, exatamente pelas mesmas razões que os reformismos passados, ele guarda em face deles a radical diferença de que não tem mais tempo diante de si.

O desenvolvimento da produção se verificou inteiramente até aqui enquanto realização da economia política: desenvolvimento da miséria, que invadiu e estragou o próprio meio da vida. A sociedade em que os produtores se matam no trabalho, e cujo resultado devem somente contemplar, lhes deixa claramente ver, e respirar, o resultado geral do trabalho alienado enquanto resultado de morte. Na sociedade da economia superdesenvolvida, tudo entrou na esfera dos bens econômicos, mesmo a água das fontes e o ar das cidades, quer dizer que tudo se tornou o mal econômico, “negação acabada do homem” que atinge agora sua perfeita conclusão material. O conflito entre as forças produtivas modernas e as relações de produção, burguesas ou burocráticas, da sociedade capitalista entrou em sua fase última. A produção da não-vida prosseguiu cada vez mais seu processo linear e cumulativo; vindo a atravessar um último limiar em seu progresso, ela produz agora diretamente a morte.

A função última, confessada, essencial, da economia desenvolvida hoje, no mundo inteiro em que reina o trabalho-mercadoria, que assegura todo o poder a seus patrões, é a produção dos empregos. Está-se bem longe das idéias “progressistas” do século anterior [século XIX] sobre a diminuição possível do trabalho humano pela multiplicação científica e técnica da produtividade, que se supunha assegurar sempre mais facilmente a satisfação das necessidades anteriormente reconhecidas por todos reais e sem alteração fundamental da qualidade mesma dos bens que se encontrariam disponíveis. É presentemente para produzir empregos, até nos campos esvaziados de camponeses, ou seja, para utilizar o trabalho humano enquanto trabalho alienado, enquanto assalariado, que se faz todo o resto; e, portanto, que se ameaça estupidamente as bases, atualmente mais frágeis ainda que o pensamento de um Kennedy ou de um Brejnev, da vida da espécie.

O velho oceano é em si mesmo indiferente à poluição; mas a história não o é. Ela somente pode ser salva pela abolição do trabalho-mercadoria. E nunca a consciência histórica teve tanta necessidade de dominar com tanta urgência seu mundo, pois o inimigo que está à sua porta não é mais a ilusão, mas sua morte.

Quando os pobres senhores da sociedade da qual vemos a deplorável conclusão, bem pior do que todas as condenações que puderam fulminar outrora os mais radicais dos utopistas, devem presentemente reconhecer que nosso ambiente se tornou social, que a gestão de tudo se tornou um negócio diretamente político, até as ervas dos campos e a possibilidade de beber, até a possibilidade de dormir sem muitos soníferos ou de tomar um banho sem sofrer de alergias, num tal momento se deve ver também que a velha política especializada deve reconhecer que ela está completamente finda.

Ela está finda na forma suprema de seu voluntarismo: o poder burocrático totalitário dos regimes ditos socialistas, porque os burocratas no poder não se mostraram capazes nem mesmo de gerir o estágio anterior da economia capitalista. Se eles poluem muito menos — apenas os Estados Unidos produzem sozinhos 50% da poluição mundial — é porque são muito mais pobres. Eles somente podem, como por exemplo a China, reunindo em bloco uma parte desproporcionada de sua contabilidade de miséria, comprar a parte de poluição de prestígio das potências pobres, algumas descobertas e aperfeiçoamentos nas técnicas da guerra termonuclear, ou mais exatamente, do espetáculo ameaçador. Tanta pobreza, material e mental, sustentada por tanto terrorismo, condena as burocracias no poder. E o que condena o poder burguês mais modernizado é o resultado insuportável de tanta riqueza efetivamente empestada. A gestão dita democrática do capitalismo, em qualquer país que seja, somente oferece suas eleições-demissões que, sempre se viu, nunca mudava nada no conjunto, e mesmo muito pouco no detalhe, numa sociedade de classes que se imaginava poder durar indefinidamente. Elas aí não mudam nada de mais no momento em que a própria gestão enlouquece e finge desejar, para cortar certos problemas secundários embora urgentes, algumas vagas diretrizes do eleitorado alienado e cretinizado (U.S.A., Itália, Inglaterra, França). Todos os observadores especializados sempre salientaram — sem se preocuparem em explicar — o fato de que o eleitor não muda nunca de “opinião”: é justamente porque é eleitor, o que assume, por um breve instante, o papel abstrato que é precisamente destinado a impedir de ser por si mesmo, e de mudar (o mecanismo foi demonstrado centenas de vezes, tanto pela análise política desmistificada quanto pelas explicações da psicanálise revolucionária). O eleitor não muda mais quando o mundo muda sempre mais precipitadamente em torno dele e, enquanto eleitor, ele não mudaria mesmo às vésperas do fim do mundo. Todo sistema representativo é essencialmente conservador, mesmo se as condições de existência da sociedade capitalista não puderam nunca ser conservadas: elas se modificam sem interrupção, e sempre mais rápido, mas a decisão — que afinal é sempre a decisão de liberar o próprio processo da produção capitalista — é deixada inteiramente aos especialistas da publicidade, quer sejam eles únicos na competição ou em concorrência com aqueles que vão fazer a mesma coisa, e aliás o anunciam abertamente. Contudo, o homem que vota “livremente” nos gaullistas ou no P.C.F., tanto quanto o homem que vota, constrangido e forçado, num Gomulka, é capaz de mostrar o que ele verdadeiramente é, na semana seguinte, participando de uma greve selvagem ou de uma insurreição.

A autoproclamada “luta contra a poluição”, por seu aspecto estatal e legalista, vai de início criar novas especializações, serviços ministeriais, cargos, promoção burocrática. E sua eficácia estará completamente na medida de tais meios. Mas ela somente pode se tornar uma vontade real ao transformar o sistema produtivo atual em suas próprias raízes. E somente pode ser aplicada firmemente no instante em que todas suas decisões, tomadas democraticamente em conhecimento pleno de causa, pelos produtores, estiverem a todo instante controladas e executadas pelos próprios produtores (por exemplo, os navios derramarão infalivelmente seu petróleo no mar enquanto não estiverem sob a autoridade de reais soviets de marinheiros). Para decidir e executar tudo isso, é preciso que os produtores se tornem adultos: é preciso que se apoderem todos do poder.

O otimismo científico do século XIX se desmoronou em três pontos essenciais. Primeiro, a pretensão de garantir a revolução como resolução feliz dos conflitos existentes (esta era a ilusão hegelo-esquerdista e marxista; a menos notada naintelligentsia burguesa, mas a mais rica e, afinal, a menos ilusória). Segundo, a visão coerente do universo, e mesmo simplesmente, da matéria. Terceiro, o sentimento eufórico e linear do desenvolvimento das forças produtivas. Se nós dominarmos o primeiro ponto, teremos resolvido o terceiro; e saberemos fazer bem mais tarde do segundo nossa ocupação e nosso jogo. Não é preciso tratar dos sintomas, mas da própria doença. Hoje o medo está em todo lugar, somente sairemos dele confiando-nos em nossas próprias forças, em nossa capacidade de destruir toda alienação existente e toda imagem do poder que nos escapou. Remetendo tudo, com exceção de nós próprios, ao único poder dos Conselhos de Trabalhadores possuindo e reconstruindo a todo instante a totalidade do mundo, ou seja, à racionalidade verdadeira, a uma legitimidade nova.

Em matéria de ambiente “natural” e construído, de natalidade, de biologia, de produção, de “loucura” etc., não haverá que escolher entre a festa e a infelicidade, mas, conscientemente e em cada encruzilhada, entre, de um lado, mil possibilidades felizes ou desastrosas, relativamente corrigíveis, e, de outra parte, o nada. As escolhas terríveis do futuro próximo deixam esta única alternativa: democracia total ou burocracia total. Aqueles que duvidam da democracia total devem esforçar-se para fazer por si mesmos a prova dela, dando-lhe a oportunidade de se provar em marcha; ou somente lhes resta comprar seu túmulo a prestações, pois “a autoridade, se a viu em obra, e suas obras a condenam” (Jacques Déjacque).

“A revolução ou a morte”: esse slogan não é mais a expressão lírica da consciência revoltada, é a última palavra do pensamento científico de nosso século [XX]. Isso se aplica aos perigos da espécie como à impossibilidade de adesão pelos indivíduos. Nesta sociedade em que o suicídio progride como se sabe, os especialistas tiveram que reconhecer, com um certo despeito, que ele caíra a quase nada em maio de 1968. Essa primavera obteve assim, sem precisamente subi-lo em assalto, um bom céu, porque alguns carros queimaram e porque a todos os outros faltou combustível para poluir. Quando chove, quando há nuvens sobre Paris, não esqueçam nunca que isso é responsabilidade do governo. A produção industrial alienada faz chover. A revolução faz o bom tempo.

Escrito em 1971, por Guy Debord, para aparecer no nº 13 da revista Internacional Situacionista, este artigo permaneceu inédito até recentemente, quando foi publicado, junto com dois outros textos do mesmo autor, em La Planète malade (Paris, Gallimard, 2004, pp. 77-94).  A tradução de “O planeta doente” aqui publicada apareceu pela primeira vez em http://juralibertaire.over-blog.com/article-13908597.html. Tradução de Emiliano Aquino (http://emilianoaquino.blogspot.com/).

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Líbia: A Revolução Arruinada


Enviado por Asad AbuKhalil, sexta-feira, 26/08/2011, 15:22

Isso não é uma revolução. Isso não é nem mesmo um levante popular. Isso é uma revolução arruinada. Não foi a NATO que transformou o levante popular com um potencial revolucionário em um movimento político reacionário encabeçado por ex-tenentes de Kadafi? Não foi essa intervenção da NATO que esmagou as ações concretas dos jovens revolucionários árabes? A NATO suprimiu os sonhos daqueles que esperavam um momento verdadeiramente revolucionário que desse um fim no bizarro modelo de governo do Jamahiriyyah. Esses sonhos foram destruídos sob as botas dos soldados franceses e ingleses.
O bravo povo da Líbia agia por conta própria para se livrar dos grilhões da tirania de Kadafi, quando as forças sinistras da nostalgia colonial interferiram. Essas forças ocidentais eram as mesmas que, há pouco, estavam completamente apaixonadas por Kadafi. O presidente "liberdade", George W. Bush, foi paradoxalmente - o paradoxo da retórica apenas - o presidente dos EUA que ganhou a honra de normalizar as relações entre o ditador líbio e as potências ocidentais. Foi um príncipe saudita, o notório Bandar Bin Sultan, que ajudou a Líbia a se aproximar dos países ocidentais.
Como isto poderia ser uma revolução com a NATO agora no comando? Se o Egito e a Tunísia não constituem uma verdadeira "revolução", no sentido marxista, em que os poderes políticos e sociais são desmontados, então a situação da Líbia está muito aquém de tal critério.
Liberais e conservadores (e ex-esquerdistas), que unem NATO e "revolução" na mesma frase parecem não notar este fato. Mas não é a primeira vez que eles se juntam para abençoar mais uma intervenção militar ocidental. Hillary Clinton reuniu-se - a poucas semanas - com o chefe da polícia secreta da Líbia, Mu`tasim - um dos filhos de Kadafi, para acusar seu regime de violações dos direitos humanos, lembrando a natureza brutal de seu mundo. Obama fez o mesmo. Ambos demagogicamente, porque ambos têm total desprezo para com os árabes. Eles realmente não acham que os árabes são inteligentes o suficiente para perceber ou recordar suas posições recentes, semanas antes, quando adotaram o ditador.
O povo líbio está de parabéns por derrubar o ditador, mas precisa tomar cuidado: a nova Líbia não pode cumprir as promessas de liberdade e prosperidade. As empresas de petróleo ocidentais se degladiam para obter uma posição na nova Líbia, da mesma forma que competiam para serem favorecidas pelo regime de Kadafi. O Conselho de Transição da Líbia não augura nada de bom: é chefiada pelo ministro da Justiça de Kadafi e pelo seu segundo em comando cujo ex-mentor não é outro senão o própiro filho de Kadafi, Sayf Al-Islam. A era Kadafi pode ter terminado, mas com a NATO no comando, é provável que o novo líder da Líbia seja um outro Hamid Karzai ou um cliente ainda mais compatível compativel com potências ocidentais. Mustafa Abd al-Jalil será o líder mais fraco do Oriente Médio; Com a NATO no comando, é certo que a Líbia não será livre. Para que isso aconteça, o povo líbio tem que levantar-se novamente, desta vez contra as forças externas das potências coloniais, e contra as ideologias reacionárias que o novo governo líbio trará junto com ele.
Extraído de http://goo.gl/EZNjF, traduzido pelo google tradutor e rapidamente revisado.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Belo Monte: Desobediência Civil, Violência e Religião

Fonte: Serviço Paz e Justiça SERPAJ-Brasil


Por Rosalvo Salgueiro*


Todo governo, por mais poderoso e avassalador que seja só se sustenta se tiver a aquiescência e a colaboração dos governados, por outro lado, a legitimidade e autoridade de um governo não residem exclusivamente em sua legalidade, mas também e principalmente na justiça de suas práticas e busca verdadeira do bem comum das suas decisões.


O cidadão antes de ser súdito é ser humano e como tal tem a orientar sua vida e seu proceder não apenas as leis e as ordens escritas emanadas pelos poderes e constituídos. Deve ele em primeiro lugar obediência à própria consciência que se funda em leis morais, éticas e religiosas, e porque não dizer, culturais. Assim, antes de obedecer cegamente uma lei ou uma ordem está o ser humano obrigado a se perguntar pela justiça e a moralidade do ditame a ser obedecido.


Há quem sustente que a desobediência civil seja um ato egoísta e um golpe mortal na democracia, e um desrespeito ao governo da maioria. Não se pode olvidar que a democracia não é apenas o governo da maioria. É isto sim, o governo da maioria, mas respeitando e defendendo o direito da minoria. Destarte, não apenas os governos manifestamente tiranos e ditatoriais podem ser legitimamente desobedecidos, mas todo governo ou autoridade que profira leis ou ordens injustas e que violentem a consciência das pessoas ou os direitos naturais.


Ao longo da história da humanidade, muitas foram as ocasiões em que se praticou desobediência civil, em todos os casos os acontecimentos futuros legitimaram essa prática.


Comumente se reconhece como precursores e expoentes da desobediência civil, o ativista americano do século 19, Hanry David Thoreau, que é tido como o sistematizador dessa prática, também são lembradas e aplaudidas as ações do líder indiano e profeta da Não-Violência Mahatma Gandhi, e do pacifista negro americano Martin Luter King.


Na maioria das culturas podem ser encontrados esses momentos. Na Bíblia, entre tantas, temos a história das parteiras Fua e Séfora que desobedeceram ao Faraó que lhes ordenara que matassem os filhos varões das mulheres hebréias. (Ex. 1, 15-22),


Desobediência Civil é diferente de manifestações populares e a pressão legítima que se exerce contra determinado ato do poder constituído para que atenda determinada reivindicação. Para haver a desobediência é necessária existência de uma autoridade, uma ordem ou uma lei injusta a ser afrontada, à qual, pelo menos em tese se deveria obedecer.


O dever de obediência reside na justiça e não a legalidade! Todo governo injusto e imoral que não oriente suas leis e ações na busca do bem comum e não se mostre sensível às reclamações, reivindicações e à participação democrática, deve ser desobedecido, ter a legitimidade contestada e a cooperação negada. A desobediência deve ser pública e de forma não-violenta.


Na America Latina mesmo depois da redemocratização e da eleição de governos chamados de “esquerda” há muitos casos em que não resta à população outra alternativa que não seja a prática efetiva da desobediência civil.


Na Nicarágua, o estilo autoritário do presidente Daniel Ortega, assim como sua prática de perseguir adversários políticos, está levando antigos companheiros de Revolução Sandinista a apoiar e praticar a Desobediência Civil, como é o caso do padre Ernesto Cardenal, do ex-comandante Sérgio Ramires, da defensora dos Direitos Humanos Vilma Nuñes, do cantor e compositor Carlos Mejia Godoy e tantos outros.


Na Argentina, o Prêmio Nobel da Paz e presidente internacional do SERPAJ-AL, Serviço Paz e Justiça na América Latina, Adolfo Pérez Esquivel juntamente com outros intelectuais lideram lutas contras a mineração de ouro a céu aberto e outras agressões ao meio ambiente. Adolfo Esquivel diz:“... não apenas somos a favor da desobediência civil como a temos praticado, não apenas contra as mineradoras, mas também contra a destruição dos bosques e a violação dos Direitos Humanos na Argentina e por toda a America Latina...”


No Brasil, o governo Lula retomou um projeto da época da Ditadura Militar de construir na Amazônia uma série de mega usinas hidrelétricas, sendo a primeira delas, a Barragem de Belo Monte, no Rio Xingu, no Estado do Pará. Esta será a terceira maior hidrelétrica do mundo, ficando atrás apenas das Três Gargantas na China e da Itaipu Binacional, Brasil/Paraguay. Para uma produção de 11.223 Mw, que devido ao regime de chuvas local, será alcança somente durante quatro meses por ano, no mais terá uma produção sustentada, não superior a 4.700 MW, essa barragem vai criar um lago de 516 km² cobrindo a floresta, além da construção de dois canais de 500 metros de largura por 35 km de comprimento cada um, maior que o canal do Panamá, em plena selva amazônica. Esses canais desviarão o rio do seu curso natural convertendo-o num filete d’água em uns trechos e completamente seco noutros, numa alça mais de 100 quilômetros do Xingu conhecida como Volta Gr ande.


A construção já foi contratada no dia 20 de abril último, em Brasília, por 19,6 milhões de reais, por meio de um conturbado processo de licitação que envolveu muito embargos e recursos judiciais, e que culminou com um leilão em que da apresentação, leitura das propostas, suas avaliações, proclamação do resultado e encerramentos levaram tão só sete minutos. Tudo sob intensos protestos de grupos indígenas, ONGs naturalistas e de Defesa dos Direitos Humanos.


Segundo José Ailton de Lima, diretor de energia e construções da CHESF - Companhia Hidroelétrica do São Francisco, empresa que lidera o consórcio ganhador do leilão, os trabalhos começarão em no máximo seis meses, tempo necessário para atender algumas exigências burocráticas. A obra vai atrair para região mais de 100 mil pessoas entre trabalhadores diretos e infra-estrutura de apoio, que certamente demandarão mais áreas da floresta que também serão desmatadas para sua instalação.


Para dar lugar ao lago serão removidas mais de 20 mil famílias que vivem na região, inclusive da zona rural de Altamira. Esta barragem vai modificar profundamente o estilo de vida e atingir pelo menos 15 etnias indígenas, inclusive algumas isoladas, (ainda não contatadas pelo homem branco) que vão perder suas áreas de caça, pesca e cultivo, e serão obrigados a abandonar suas terra e seus lugares sagrados onde vivem em harmonia com a natureza, praticam sua cultura, sua religião, e cultuam seus ancestrais.


A comunidade científica brasileira e internacional têm demonstrado de maneira cabal que o Brasil tem muitas outras e melhores alternativas para gerar energia, inclusive com menor custo, que vão da a re-potenciação das hidrelétricas antigas, a otimização da capacidade já instalada até a utilização do potencial eólico e solar que são abundantes no país.


A Igreja através de Dom Erwin Kräutler, bispo de Altamira a principal cidade da região e presidente do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), e mesmo da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), assim como, as lideranças indígenas e os movimentos ambientalistas têm feito todo esforço para convencer o presidente Lula e seu governo dos enormes prejuízos sociais e danos ambientais que essa barragem trará, alertando para as graves conseqüências não só para a população local, mas que também contribuirá fortemente para o aquecimento global e provocará alteração climática prejudicando todo o planeta.


O diálogo com a comunidade indígena, nesses casos, é uma obrigação prevista na Constituição Federal do Brasil em seu artigo 231 e só teve início por imposição do poder judiciário, e ainda assim aconteceu de “mentirinha”, tudo já estava definido antes das consultas, o que se viu foi uma tremenda manipulação e feroz brutalidade do governo ao impedir que os verdadeiros e reconhecidos líderes indígenas participassem livremente do processo de consultas, essa prática foi amplamente denunciada na ocasião, pelos caciques Raoni Metuktire e Megaron Txucarramãe, assim como pelas organizações não governamentais e a Igreja. Além da constituição de seu país, Lula desrespeita também tratados internacionais como Convenção 69 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que o Brasil assinou se comprometendo a obter o consentimento prévio dos indígenas antes de tomar medidas que os afetem diretamente.


O governo brasileiro, através da Resolução nº 102, de 13 de abril de 2010, do Conselho da Justiça Federal (CJF), criou às pressas a 9ª Vara Federal Ambiental e Agrária da Capital do Estado do Pará, que será especializada em julgar questões agrárias e ambientais retirando assim do juiz de Altamira, que tem reconhecido o direito dos índios e ribeirinhos, a competência para julgar os assuntos relacionados com construção da Barragem de Belo Monte. Casuísmos como este, configuram uma clara manipulação do poder judiciário brasileiro.


Ao se fechar para o diálogo, inclusive violando a Constituição do País, e manipulando o Poder Judiciário, o governo não deixa à sociedade outra alternativa de ação além da desobediência civil.


Nenhum governo pode simplesmente tomar suas decisões e fazer suas obras ao arrepio da lei e da opinião pública, ele precisa sempre se justificar e tentar ganhar os corações e as mentes dos cidadãos, principalmente em tempos de eleição.


Se as pessoas e movimentos sociais e ambientais que se opõem a essa barragem conseguirem mostrar para o conjunto da sociedade, inclusive a nível internacional o desastre que essa obra significa, puxando a opinião pública para o seu lado, que hoje em razão a insignificante cobertura dos meios de comunicação ignora os fatos, há chances efetivas de forçar o governo a voltar atrás ou pelo menos adiar essa tragédia.


A região aonde vai ser criado o lago abriga uma extra-ordinária biodiversidade cujas espécies se contam às centenas, sendo que algumas estão ameaçadas de extinção e outras são endêmicas (só ocorrem ali) existem também muitas espécies que ainda nem foram catalogadas e que se perderão para sempre.


O EIA (Estudo de Impactos Ambientais) feito pelo próprio governo dá conta de que ali já foram encontrados e catalogados: 174 espécies de peixes, 387 de répteis, 440 de aves e 259 de mamíferos, sem se falar dos insetos, fungos e todas as espécies de vegetais.


Cobrir com água a floresta é mais grave que simplesmente queimá-la, pois a decomposição de corpos orgânicos submersos tira o oxigênio da água e emite gás metano (CH4), para a atmosfera e provoca o aquecimento global, e é extraordinariamente mais prejudicial que o dióxido de carbono (CO²), que é o gás emitido na queima de materiais orgânicos e combustíveis fósseis.


Existe um embate midiático a ser travado, quem levar a melhor nessa área vencerá esse confronto. Cabe aos movimentos planejar eventos e criar fatos que sejam notícias, e que os meios de comunicação de massa não possam ignorá-los ou esconde-los, ainda que o queiram.


A causa é nobre e tem conseguido mobilizar personalidades importantes de todos os setores sejam da política, das artes, e das religiões, como é o caso do senador Pedro Simon entre outros, do cineasta e diretor da mega produção e mega sucesso hollyoodiana Avatar, James Cameron e o cantor de rock o inglês Sting, do Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, assim como de expressivos teólogos da libertação como os brasileiros Frei Betto e Leonardo Boff, além de cientistas mundialmente conhecidos como Célio Bermann e Paulo Buckup, e muitos outros, ainda falta, entretanto, ganhar mais espaço nos meios de comunicação, que na verdade é quem faz a opinião pública.


Numa relação de injustiça a solidariedade vem sempre em favor do injustiçado, assim o movimento precisa ter o cuidado de não sair desse pólo da ação, deixando-o livre para ser assumido pelo governo, coisa que o presidente Lula sabe fazer muito bem.


Muitas são as ações concretas que os movimentos podem lançar mão, é importante que sejam fortes e impactantes e que possam facilmente ser compreendidas e aceitas pela população para que então, responda de forma solidária.


Como a primeira ação concreta de desobediência civil nessa luta, após a conclusão do processo de licitação, que foi o leilão realizado pelo governo do dia 20 de abril último, liderados pelo cacique kayapó Megaron Txucarramãe indígenas do Parque Nacional do Xingu paralisaram o serviço de travessia da balsa no Rio Xingu.


Os líderes indígenas encaminharam um comunicado ao comando da Polícia Militar de São José do Xingu explicando a ação. “A gente quer fazer um movimento pacífico e por isso pedimos ajuda para que a polícia não deixe os carros descerem para usar a balsa.”


Na correspondência eles informaram que o fechamento da travessia do Rio Xingu é por tempo indeterminado e deixam claro que o motivo do protesto é devido ao leilão realizado de Belo Monte (hidrelétrica do Rio Xingu) da qual não se aceita que o governo mantenha a construção.


A carta aberta do cacique Megaron ao presidente Lula deixa claro os objetivos e a disposição dos índios: Nós não somos bandidos, nós não somos traficantes para sermos tratados assim, o que nós queremos é a não construção da barragem de Belo Monte. Aqui nós não temos armas para enfrentar a força, se Lula fizer isso ele quer acabar com nós como vem demonstrando, mas o mundo inteiro vai poder saber que nós podemos morrer, mas lutando pelo nosso direito.”


Muitas outras ações podem ser realizadas, tais como a recusa decidida e consciente das pessoas em deixar suas terras para dar lugar ao lago, ou mesmo a ocupação dos canteiros e escritórios das empresas impedindo assim o avanço das obras. Cada ação deve ser analisada e assumida no momento, e da forma que se considere estratégicos para a sua prática.


Aqui estão presentes todos os elementos que justificam a desobediência civil, estão presentes: a causa justa, a autoridade arrogante, a lei e a ordem injusta que deve ser desobedecida, o povo consciente organizado e disposto a resistir, a articulação nacional e internacional. Falta ainda melhor articulação com a mídia.


A luta contra essa barragem de Belo Monte tem, pois, todos os ingredientes e as possibilidades de ser a maior experiência de desobediência cível da história na América Latina, com reais possibilidades de ser vencedor e um marco histórico na luta mundial para a salvação do planeta.


*Coordenador do Serviço Paz e Justiça SERPAJ-Brasil


Esse texto foi publicado na revista canadense Relations, nº 744, em novembro de 2010, tratando a temática Violência e Religião.