domingo, 13 de fevereiro de 2011
Algumas diferenças entre revolução proletária e revolução burguesa
A revolução burguesa é violenta. A revolução proletária é pacífica.
A revolução burguesa faz uso da coersão. A revolução proletára faz uso da não colaboração à burguesia e à aristocracia.
A revolução burguesa implementa classes de especialistas, etc. A revolução proletária dissipa todas as classes sociais.
A revolução burguesa promove a disputa entre nações, etnias, grupos, pessoas, comunidades e sociedades. A revolução proletária promove a colaboração entre nações, etnias, grupos, pessoas, comunidades e sociedades.
A revolução burguesa prefere matar a morrer. A revolução proletária prefere morrer a matar.
A revolução burguesa procura corrigir abusos pelo uso da força. A revolução proletária corrige abusos pelo consenso entre minorias e maiorias.
A revolução proletária deixa de ser revolução e deixa de ser proletária ao olhar para trás, ao reeditar os métodos da aristocracia e da burguesia. A revolução burguesa nos promete o futuro repetindo no presente a mesma opressão do passado.
A revolução proletária é simultaneamente presente e futuro, caminho e meta. As práticas no presente já são uma antevisão do futuro, e os caminhos que percorre não são alheios à sua meta. A revolução proletária traz consigo a certeza de que o dia já raiou mesmo que as trevas da noite ainda não tenham sito totalmente dissipadas.
A revolução burguesa reforça o estéril status quo. A revolução proletária restaura a sociedade à profícua comunidade orgânica de relações humanas não-coercitivas, que é a expressão natural da sociedade.
A revolução burguesa aparelha o Estado. A revolução proletária desmancha o Estado.
A revolução burguesa privilegia a ideologia em detrimento da prática. A revolução proletária privilegia a prática em detrimento da ideologia.
Na revolução burguesa prevalece a hierarquia. Na revolução proletária prevalece a acracia.
Na revolução burguesa as celebridades jogam o jogo no campo enquanto as massas assistem das arquibancadas. Na revolução proletária as massas jogam o jogo no campo enquanto as celebridades assistem das arquibancadas.
A meta da revolução burguesa é a tomada do poder. A meta da revolução proletária é a anulação do poder.
A revolução burguesa assemelha-se ao Mar Morto: mata toda vida concentrando poder e riquezas como o Mar Morto mata toda vida concentrando sal. A revolução proletária promove a vida como um Rio Amazonas.
A revolução burguesa envenena o corpo normal da economia destruindo o trabalho local da família humana, diluindo o agrupamento das associações voluntárias. A revolução proletária promove o corpo normal da economia, restaura o trabalho local da família humana, faz proliferar as associações voluntárias.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
As lições do Egito
Os olhos do mundo estão focados nos desdobramentos da Revolução iniciada na Tunísia que - catalizada pela autoimolação de um camelô - ganhou força no Egito, atingiu todo Norte da África e se alastra como fogo em mato seco pelos países árabes. Aqui no Brasil, não há como ficar alheio a esses acontecimentos. Muitos de nós conhecemos perfeitamente os efeitos de uma ditadura. Ainda carrego no lombo algumas de suas marcas.
Lembranças
Como numa viagem no tempo, nos útimos dias - via twitter, facebook, youtube, al jazeera - as cenas vindas do Cairo estão a transportar-me para 47 anos atrás.
Dava meus primeiros passos na puberdade quando os militares tomaram o poder no golpe de 1964, e passaram a perseguir mortalmente seus opositores. Apesar da tenra idade eu tinha uma perfeita consciência do que acontecia. Ouvia notícias pelo rádio e comparáva-as com o que diziam meus vizinhos em suas conversas.
Meu irmão, mais velho do que eu, junto com alguns colegas das classes, passaram a organizar formas de resistência marcando reuniões em suas casas. Lembro-me de ter participado de um desses encontros. Não havia eleição de "mesa" para "dirigir" a reunião, nem cadeiras perfiladas, nem palestra. Na verdade parecia mais uma festa. Todos jovens, cheios de vida. Alguns sentados, outros em pé conversando, grupos de três, quatro, cinco, articulando planos de ação.
Naquele tempo quase todos meus coleguinhas de rua trabalhavam em uma enorme e bem conhecida fábrica de malas, onde a maioria dos empregados tinha entre 12 e 15 anos. Apesar do ambiente terrível, abafado e repugnante, eu temia ser mandado embora, o que aconteceu antes de completar 2 meses de trabalho. Oito horas de trabalho. Salário miserável. Até hoje não sei o que havia naquela fábrica que atraía tanto a molecada, eu inclusive. Talvez o cheiro de cola.
Não éramos ricos nem pobres
Antes do golpe militar de 1964, tínhamos o necessário em nossas casas, opções de lazer, escolas públicas boas, funcionários e professores bem remunerados. Nossos amigos riquinhos, burros como sempre, iam para as escolas particulares, de péssima qualidade, as mães não os deixavam ir para a rua para brincar, muitos tornaram-se efeminados. Domingos pela manhã lotávamos o cinema do bairro, nenhum daqueles meus amigos precisava trabalhar.
Pagar a passagem de trem? Pagava quem queria, não me lembro de guardas. Se havia algum nunca encheu o saco. Pulávamos o muro da estação ferroviária tanto na ida como na volta. Dificilmente disputávamos lugar para sentar. As composições funcionavam como um relógio e eram limpas.
No pós 64 a qualidade de vida piorou e a repressão comeu solta. Pude reconhecer nos cartazes de "PROCURA-SE" colados pela repressão, nas colunas de todas as estações, alguns estudantes dos colégios do bairro, sob o título de "TERRORISTAS".
A mobilização popular contra o golpe e a ditadura militar implantada no Brasil em 31 de março de 1964, teve lugar, óbviamente, não apenas ali entre os estudantes naquele colégio específico onde meu irmão estudava, na Zona Leste de São Paulo, onde morávamos. Agitação similar ocorreu por toda parte, em todos os rincões do Brasil, de norte a sul, de leste a oeste. Em todos os bairros onde havia um jornal para ler apesar das mentiras escritas neles. Em toda vida onde havia um rádio para escutar, apesar das mentiras que eles diziam. Nas grandes e pequenas cidades, no campo, nas indústrias, o povo queria fazer alguma coisa contra aquilo.
Trevas ainda não dissipadas
Os sindicatos, como acontece até hoje, atrelados ao Estado, funcionavam como concessão que pode ser retirada a qualquer momento. O que veio a ocorrer mais tarde com o ato institucional número 5, que em 1969 mergulhou definitivamente todo o país nas mais densas trevas, as quais até hoje não foram totalmente dissipadas. Os articuladores do golpe, torturadores, assassinos profissionais, TODOS, absolutamente TODOS, permanecem impunes, vergonhosamente, ao contrário do que ocorre em outros países vizinhos que igualmente passaram por regimes ditadoriais.
Muito se fala sobre a perseguição implementada a partir de 1969 contra jornalistas, dirigentes sindicais, políticos, alguns deles hoje recebem do Estado até mesmo pensões por terem resistido à ditadura. Mas há um silêncio perturbador pairando sobre os perseguidos durante o período 1964-1969, a esmagadora maioria desses operários, estudantes, camponeses, não falava outro idioma, não pertenciam à classe média ou alta, não tinham contato nem dispunham de apoio de grupos políticos internacionais. Foram pegos nas favelas da periferia das grandes e pequenas cidades. Desde os morros cariocas até as caatingas do nordeste. Foram trucidados e esmagados. Muitos dos familiares dessas vítimas até hoje não sabem nem mesmo onde foram parar os corpos de seus mortos. Esses milhares de proletários espancados, presos sem acusação declarada, sem condenação, sem julgamento, torturados, humilhados, assassinados pela ditadura, permanessem e permanecerão anônimos enquanto não for instalado um tribunal com reconhecimento internacional para apurar tudo, e passar a limpo nossa história.
Conclusão
A revolução no Egito têm muito a nos ensinar, e cabe a cada um de nós, individualmente ou em grupo, refletir sobre o que está acontecendo hoje no mundo. E é o que faço agora do meu jeito, fora das normas, com tropeços, erros, deficiências.
Diante, do que vi pessoalmente em 1990 em minha viagem pela Palestina, Egito, Marrocos, do que vejo hoje à distancia pela internet e noticiários, dos relatos de amigos presentes na Praça Tahir, o olho do furação, cheguei a algumas conclusões:
A revolução coloca em segundo plano toda e qualquer ideologia. Mesmo simpáticos a uma ou outra, seus milhões de participantes estavam dispostos a descartá-las, provisória ou definitivamente, em favor da unidade. Mesmo porque essas grandes massas estavam mais voltadas para coisas práticas do que estudos e disputas teóricas. Nenhuma ideologia política prevalece em favor da busca constante por consenso.
Não havia bandeiras de partidos enroladas ou agitadas como em um estádio de futebol lotado. Nem disputas entre torcidas organizadas ou não organizadas na arquibancada ou nas ruas. A colaboração e o diálogo prevaleceram. A disputa foi descartada. Não havia adeptos ao time A, B ou C. Havia um time único. Um só time contra toda forma de coersão, opressão, corrupção, mentira, corporação, exploração. Havia um só corpo composto por infinitos membros que interagem entre si. Falamos e agimos por nós mesmos.
Não precisaram de classe política, nem de partido político. Nem de composições de siglas partidárias para desenhar o presente e o futuro. Todos, ou a maioria, jogaram. Ninguém, ou quase ninguém, foi galera, espectador, torcedor. Os exploradores da fé popular são repudiados. Cada homem valeu um homem. Houve repúdio aos especialistas da imprensa, da religião, dos sindicatos, dos partidos, da saúde, da justiça, da educação, do poder estatal, à toda exteriorização petrificada, a toda exteriorização do poder.
Enfim, em sua revolução o proletariado egipcio não encontrou nada de positivo fora de si mesmo.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Votar no PCdoB, PSTU, PCB, PCO ou PSOL ajudará melhorar nosso país?
"Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra" ~ Friedrich Nietzsche.
"Qualquer idiota pode fazer uma regra e qualquer idiota a seguirá" ~ Henry Thoreau
Os partidos leninistas, trotskystas ou estalinistas (PCdoB, PSTU, PCB, PCO, PSOL) argumentam que deveríamos votar neles porque serão capazes de crescer devido ao seu apelo popular, por suas palavras de órdem por mudança, por se considerarem a vanguarda de amplas seções da classe trabalhadora, as quais estarão expostas ao perigo da alienação se votarem nos partidos de centro e direita, que são explicitamente pró-capitalistas.
Argumentam também que os partidos de centro que alçaram maior ou menor gráu de poder nos últimos 20 anos (PSDB, PT, PTB, PMDB) imprimiram em grande parcela da sociedade indignação, revolta, decepção e arrependimento por tê-los colocado no poder. O povo não tem mais ilusões para com esses partidos. Em outras palavras, alçar reformistas ao poder foi um teste de experiência que não deu certo. E na medida em que tais partidos, por manterem o status quo, trairam as expectativas populares, perderão seus partidários que, por sua vez, migrarão para as fileiras dos radicais, as pessoas irão a procura de outros partidos, os verdadeiros partidos socialistas (PCdoB, PSTU, PCB, PCO, PSOL).
Esses argumentos estão completamente equivocados por três razões.:
Primeiro, é uma tática profundamente desonesta esconder as verdadeiras intenções daqueles que apóiam tal tática. Para falar a verdade é um ato contra-revolucionário. Os radicais não deveriam ir até a mídia capitalista contando meias verdades ou torcendo os fatos sobre aquilo que acreditam. Eles não deveriam esconder suas políticas, nem sugerir o apoio a um sistema ou partidos aos quais eles se opõem. Se isso significa perder popularidade, então que assim seja. O capitalismo, as religiões, -- como matriz de hierarquia e autoritarismo bem ao gosto de oligarcas, latifundiários e coronéis, etc. -- aliena as pessoas mas poucos radicais aproveitam a ocasião para soltar o verbo dizendo o que realmente pensam. No final das contas, ser honesto sobre suas idéias é o melhor modo de produzir um movimento que aponta em direção à libertação de um sistema social corrupto. O movimento que começa com meias verdades está sentenciado ao fracasso.
Em segundo lugar, a lógica dessa teoria que fundamenta este argumento é que ao desiludir-se com seus líderes e partidos reformistas, os eleitores procurarão por novos e "melhores" líderes e partidos. Isso, porém, não atinge a raiz do problema, ou seja, a dependência de líderes que uma sociedade hierárquica cria nas pessoas. O grande movimento revolucionário denominado Power of the People (Poder Popular) iniciado na Tunísia, que passou para o Egito e que promete alastrar-se por todo mundo árabe e guiçá, além, chama a atenção do mundo inteiro pela ausência de bandeiras partidárias de qualquer coloração. O grande desejo expresso pelas multidões na Praça Tahir pode ser condensado em poucas palavras: "Rejeitamos não apenas Mubarak e o regime, rejeitamos também todas e quaisquer versões de líderes "melhores", eles querem o poder popular, ou seja o povo governando a si mesmo, gente autônoma, administrando seus próprios interesses e não seguindo um ou outro líder que aparece. Se você seriamente acha que a libertação da opressão é uma tarefa que cabe aos próprios oprimidos (como os leninistas e trotskystas proclamam) então você precisa rejeitar essa tática em favor daquelas que promovam a auto-atividade do proletariado.
A terceira razão é que essa tática sempre falhou. O que a maioria de seus partidários parece não notar é que os eleitores vem colocado muitas vezes no poder os mesmos partidos reformistas (o PSDB primeiro e depois o PT, governaram o país durante 16 anos, foram 16 anos de ataque e investidas contra o proletariado) e não houve nenhuma radicalização no sentido de avanço na luta. Tanto Lenin como Trotsky sugeriram essa tática há 70 anos atrás e não houve nenhuma radicalização da população por esse método, nem mesmo na militância dos partidos reformistas. Na realidade, de forma bem irônica, a maioria destes ativistas acaba mesmo abandonando seus partidos quando eles chegam ao poder desgostosa pelas tentativas do partido de parecer "realístico" para ganhar mais votos nas próximas eleições! E este descontentamento muitas vezes acaba em desmoralização do próprio socialismo, em vez do partido.
Na medida em que consideramos as razões pelas quais rejeitamos essa tática, o total fracasso dela não surpreende. Se essa tática não ataca a hierarquia, não combate a dependência de líderes, nem se contrapõe ao processo e à ideologia eleitoral, obviamente não representa uma real alternativa à população votante (que vê as eleições como a única opção disponível, desprezando a ação direta como a que se vê agora no mundo árabe). Além disso, a visão dos denominados governos "socialistas" ou "radicais" administrando o capitalismo, impondo cortes, reprimindo greves, e geralmente atacando aqueles que os apoiaram provocará um sério dano à credibilidade de qualquer espécie de socialismo, levando a população a desacreditar de todas as idéias radicais e socialistas. Na verdade, a experiência do governo Lula no Brasil nos últimos 8 anos resultou no crescimento da direita que capitalizou essa desilusão dos votantes.
A recusa em aceitar o fato de que nenhum governo "está de nosso lado", por parte de uma parcela de radicais que vive incitando-nos a votar "sem ilusões" em reformistas, acaba mesmo contribuindo para desarmar as pessoas que ouvem suas teorias. O proletariado, surpreso, confuso e desorientado pelas constantes "traições" dos partidos da esquerda acabam simpatizando com os partidos da direita (que podem subir ao poder via eleições) no intuito da manutenção da estabilidade. Em vez de votar ou incentivar a participação no processo eleitoral os radicais deveriam inspirar-se no exemplo que vemos há 17 dis na Praça Tahir, a prática da ação direta. O ato de votar, longe de nos aproximar de uma solução ou melhorar nossas vidas, apenas agrava nossos problemas.
Quantas vezes temos que eleger o mesmo partido, passar pelo mesmo processo, sofrer as mesmas traições, até percebermos que essa tática não funciona? Ora, se o problema é experimentar algo que nunca foi experimentado antes, poucos socialistas estatais encaminham este argumento a uma solução lógica. Nós raramente os ouvimos argumentar que é necessário que o proletariado passe pelo inferno do fascismo ou do estalinismo para que possa aprender "por si mesmo" o que essas coisas representam.
O exemplo da revolução árabe, em contraste, diz que nós podemos elevar nossa voz tanto contra ditadores como contra políticos reformistas, manter distancia, e ao mesmo tempo incitar as pessoas a não votarem neles. O fato de defender a abstenção significa ajudar a armar teoricamente o povo que entrará em conflito com esses partidos tão logo alcancem o poder. Defender a abstenção significa que todo governo necessariamente será forçado a nos atacar (devido às pressões do capital e do estado) e que temos que responder a esse ataque com nossa própria organização, temos que acumular poder para a autodefesa, temos que promover a autoconfiança da classe trabalhadora em sua própria habilidade, e encorajar a rejeição ao capitalismo, ao estado, à liderança hierárquica. Temos que encorajar o proletariado ao uso da ação direta.
Além disso, nós podemos somar. Somar não significa radicais participando da farsa eleitoral para que as pessoas aceitem suas idéias. As massas verão a prática da ação direta, verão nossa ação, verão as alternativas que criamos, verão e terão acesso à nossa propaganda. Não precisamos nos associar à ação parlamentar para alcançar as multidões.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Não é o Islã radical que preocupa os EUA - é a independência
Publicado no The Guardian em 4 de fevereiro de 2011
texto de Noam Chomsky
"O mundo árabe está em chamas", destacou a Al-Jazeera na semana passada, enquanto em toda a região, os aliados ocidentais "perdem rapidamente sua influência". A onda de choque foi desencadeada pela dramática insurreição na Tunísia, que expulsou um ditador apoiado pelo Ocidente, com repercussões especialmente no Egito, onde manifestantes são brutalmente oprimidos pela polícia de um ditador.
Os observadores compararam os acontecimentos com a queda dos domínios russos em 1989, mas há diferenças importantes. Fundamentalmente, não há nenhum Mikhail Gorbachev entre as grandes potências apoiando ditadores árabes. Em vez disso, Washington e seus aliados mantem o princípio bem estabelecido de que a democracia só é aceitável na medida em que está de acordo com objetivos estratégicos e econômicos: boa em território inimigo (até certo ponto), mas não no nosso quintal, por favor, se não for devidamente domesticada.
Uma comparação de 1989 tem alguma validade: na Romênia, onde Washington mantém seu apoio a Nicolae Ceausescu, o mais cruel dos ditadores do leste europeu, até a fidelidade tornou-se insustentável. Em seguida, Washington elogiou sua derrubada, enquanto o passado foi apagado. Esse é o padrão: Ferdinand Marcos, Jean-Claude Duvalier, Chun Doo-hwan, Suharto e muitos outros gangsters úteis. Pode estar em curso, no caso de Hosni Mubarak, juntamente com os esforços de rotina, tentar garantir um regime sucessor não distante do caminho aprovado. A esperança atual parece ser o legalista Omar Suleiman, general de Mubarak, que acaba de ser nomeado vice-presidente do Egito. Suleiman, o antigo chefe dos serviços de inteligência, é desprezado pelo público rejeitado quase tanto como o próprio ditador.
Um refrão comum entre os especialistas é que o medo do islamismo radical exige (relutante) oposição à democracia, por razões pragmáticas. Embora não sem algum mérito, a formulação é enganosa. A ameaça geral sempre foi a independência. Os EUA e seus aliados têm apoiado regularmente islamitas radicais, às vezes, para evitar a ameaça do nacionalismo secular.
Um exemplo conhecido é a Arábia Saudita, o centro ideológico do islamismo radical (e do terror islâmico). Outro em uma longa lista é Zia ul-Haq, o mais brutal dos ditadores do Paquistão e favorito do presidente Reagan, que realizou um programa de islamização radical (com financiamento saudita).
"O argumento tradicional apresentado dentro e fora do mundo árabe é que não há nada de errado, tudo está sob controle", disse Marwan Muasher, um ex-funcionário da Jordânia e hoje diretor do centro de pesquisas do Middle East research for the Carnegie Endowment. "Com essa linha de pensamento, as forças entrincheiradas argumentam que os adversários e os de fora pedem reformas exagerando as condições no terreno".
Assim o público pode ser dispersado. Isso vale para todo o mundo, inclusive no território dos EUA. Em caso de agitação, mudanças táticas podem ser necessárias, mas sempre com um olho para reassumir o controle.
O movimento vibrante de democracia na Tunísia foi dirigido contra "um estado policial, com pouca liberdade de expressão, de associação e de graves problemas de direitos humanos", governado por um ditador, cuja família era odiado pela sua venalidade. Isso foi dito por Robert Godec, embaixador dos EUA, em um cabo de Julho de 2009 divulgado pelo WikiLeaks.
Portanto, para alguns observadores do WikiLeaks "esses documentos devem criar um sentimento de conforto no público americano de que os funcionários não estão dormindo no ponto" - na verdade, os cabos são tão favoráveis às políticas dos EUA que é quase como se Obama estivesse vazando-os por si mesmo (assim Jacob Heilbrunn escreve em The National Interest.)
"A América deve dar uma medalha a Assange", diz a manchete do "Financial Times", onde Gideon Rachman escreve: "A política externa dos Estados Unidos aparece íntegra, inteligente e pragmática ... a posição pública tomada pelos EUA sobre determinado assunto é geralmente é também a posição privada".
Nessa visão, o WikiLeaks mina os "teóricos da conspiração" que questionam os motivos nobres que Washington proclama.
O cabo Godec apóia essas decisões - isso se não for mais longe. Se fizermos isso, conforme os relatórios do analista de política externa Stephen Zunes no Foreign Policy in Focus, achamos que, com as informações de Godec na mão, Washington forneceu 12 milhões de dólares em ajuda militar para a Tunísia. Quando isso aconteceu, a Tunísia foi um dos cinco beneficiários estrangeiros: Israel (rotina); as duas ditaduras do Oriente Médio, o Egipto e a Jordânia, e a Colômbia, que há muito tempo tem o pior histórico de direitos humanos e a maior parte da ajuda militar dos EUA no hemisfério.
Heilbrunn é o apoio dos árabes para as políticas dos EUA visando o Irã, revelado por cabos e vazado. Rachman também aproveita este exemplo, como fez a mídia em geral, saudando essas revelações encorajadores. As reações mostram quão profundo é o desprezo pela democracia entre os cultos e educados.
Não é mencionado o que a população pensa - coisa que pode ser facilmente descoberta. De acordo com pesquisas divulgadas pelo Brookings Institution, em agosto, alguns árabes concordam com Washington e comentaristas ocidentais de que o Irã é uma ameaça: 10%. Em contraste, eles consideram os EUA e Israel como as principais ameaças (77%, 88%).
A opinião dos árabes é tão hostil às políticas de Washington de que a maioria (57%) acha que a segurança regional poderia ser aumentada, se o Irã tivesse armas nucleares. Ainda assim, "não há nada de errado, tudo está sob controle" (como descreve Muasher, a fantasia dominante). Os ditadores nos apoiam. Seus temas podem ser ignorados - a menos que quebrem suas cadeias, aí a política deve ser ajustada.
Outros vazamentos também parecem dar intusiástico apoio à nobreza de Washington. Em julho de 2009, Hugo Llorens, embaixador dos EUA em Honduras, informou Washington de uma investigação da embaixada de "questões jurídicas e constitucionais em torno da remoção forçada do presidente Manuel 'Mel' Zelaya em 28 junho.
A embaixada concluiu que "não há dúvida de que o tribunal militar, supremo e congresso nacional conspiraram em 28 de Junho, no que constituiu um golpe ilegal e inconstitucional contra o Poder Executivo". Muito admirável, exceto que o presidente Barack Obama começou a romper com a quase totalidade da América Latina e na Europa, apoiando o regime golpista e minimizando as atrocidades subseqüentes.
Talvez as revelações mais notáveis do WikiLeaks tenham a ver com o Paquistão, segundo o analista politico Fred Branfman em Truthdig.
Os cabos revelaram que a embaixada dos EUA está bem ciente de que a guerra de Washington no Afeganistão e no Paquistão não só intensifica o desenfreado anti-americanismo, como também "os riscos de desestabilização do estado paquistanês" e ainda levanta uma ameaça de pesadelo: que as armas nucleares podem cair nas mãos de terroristas islâmicos.
Novamente, as revelações "devem criar uma sensação de conforto ... de que os funcionários não estão dormindo no ponto" (palavras de Heilbrunn) -, enquanto isso Washington marcha para o desastre.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
O ANTI-estatismo de Marx e o estatismo da burguesia
Marx em "Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas": Os democratas pequeno-burgueses acham também que é preciso opor-se ao domínio e ao rápido crescimento do capital, em parte limitando o direito de herança, em parte PONDO NAS MÃOS DO ESTADO O MAIOR NÚMERO POSSÍVEL DE EMPRESAS.
Marx em "CRÍTICA AO PROGRAMA DE GOTHA": Em que pese a toda sua fanfarronice democrática, o programa está todo ele infestado até a medula da fé servil da seita lassalliana no Estado; ou - o que não é muito melhor - da superstição democrática; ou é, mais propriamente, um compromisso entre estas duas superstições, nenhuma das quais nada tem a ver com o socialismo.
Na sua primeira citação Marx nos diz que estatismo é uma prática burguesa e pequeno burguesa (burguesia e pequeno burguesia que compunha o "partido democrático" alemão de 1850, conforme Marx nos diz no Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas), ou seja, é capitalismo estatal, já na segunda ele nos diz que o socialismo nada tem a ver com o Estado e com a democracia, aliás para ele democracia também é coisa de burguês.
Com se vê, com Marx nos mostrando na 1º citação, o capital (representado nessa citação de Marx pelo partido democrático alemão de 1850, uma coligação de burgueses e pequeno-burgueses) pode usar a total estatização para sobreviver em uma forma não privada e não concorrencial, o estatismo é uma das formas do capitalismo, não tendo nenhuma contradição com o mesmo.
O estatismo não aboli o trabalho assalariado, que por sua vez gera a mais valia, que por sua vez gera e reproduz o capital. Capital (empresa) privado ou estatal, não importa, ambos são capital.
Karl Marx anarquista? Deixo que o próprio Marx responda: "Todos os socialistas entendem por Anarquia o objectivo do movimento proletário, uma vez alcançada a abolição das classes, o poder do Estado, que serve para manter a grande maioria produtora sob o jugo de uma minoria exploradora pouco numerosa, desaparece, e as funções governamentais transformam-se em simples funções administrativas." (As Pretensas Divergências na Internacional)
Segue abaixo trecho do 18 de Brumário sobre a destruição do Estado ou poder estatal, com seu aparelho:
"Todo interesse comum (gemeinsame) ERA IMEDIATAMENTE CORTADO DA SOCIEDADE, contraposto a ela como um interesse superior, geral (allgemeins), retirado da atividade dos próprios membros da sociedade e TRANSFORMADO EM OBJETO DA ATIVIDADE DO GOVERNO, desde a ponte, o edifício da escola e a propriedade comunal de uma aldeia, até as estradas de ferro, a riqueza nacional e as universidades da França. Finalmente, em sua luta contra a revolução, a república parlamentar viu-se forçada a consolidar, juntamente com as medidas repressivas, os recursos e a centralização do poder governamental. Todas as revoluções aperfeiçoaram essa máquina, ao invés de DESTROÇÁ-LA. Os partidos que disputavam o poder encaravam a posse dessa imensa estrutura do Estado como o principal espólio do vencedor."
Segue agora trecho de carta de Marx a Ludwig Kugelmann, de 12 de Abril de 1871:
"Se você reexaminar o último capítulo do meu '18 Brumário', vai constatar que declaro como próximo intento da Revolução na França, não mais como antes, o ato de transferir a maquinaria burocrático-militar de uma mão para outra, mas sim DESPEDAÇA-LA (no original alemão 'zerbrechen', despedaçar, quebrar, fraturar, destruir etc). E essa é a pré-condição de toda e qualquer verdadeira revolução popular no continente. É também a tentativa que nossos heróicos companheiros da Comuna de Paris estão empreendendo."
Há essas e muitas outras citações que não deixam duvidas do anti-estatismo de Marx.
Comentário extraído de http://goo.gl/qkbiI
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Mundo árabe: A maldição da estabilidade
Por enquanto a "estabilidade" é a base fundamental sobre a qual o regime egípcio repousa para justificar a sua existência e sua continuidade, tanto interna como externamente. Após sete dias da revolução egípcia, tal estabilidade não é mais aceitável para os egípcios, que repudiam a política do regime sitiado tanto quanto sua propaganda.
Tudo começou com a retirada da segurança das ruas, da frente dos bancos, das prisões que foram abertas para a fuga de criminosos para que alcançassem as ruas, para alarmar especialmente os círculos da classe média que querem restabelecer e manter o status quo.
Este cenário também inclui os meios de comunicação que dão imensa amplificação para qualquer incidente, mesmo pequeno, para atrair a atenção para longe da exigência revolucionária no Egito: as pessoas querem derrubar o regime, querem liberdade, democracia, fim da corrupção, solução das questões sociais e redirecionamentos políticos em favor dos pobres.
O cenário pretende glorificar a estabilidade para permitir que os serviços degradados, públicos e privados, especialmente no que diz respeito à transferência de bens alimentares, à produção de pão, à limitação do horário de trabalho e as quantidades fornecidas pelos postos de gasolina.
O fato é que esses cenários são clássicos nos momentos de vibração que precedem a decadência dos regimes ditatoriais. Os egípcios viram na televisão, alguns dias antes de sua revolta, rigorosamente o mesmo cenário na revolução da Tunísia. No ano de 1973 no Chile, os generais aliados ao empresariado e à CIA prepararam a derrubada de Salvador Allende democraticamente eleito pela população: favorecendo o banditismo, impedindo motoristas de caminhão de trasportarem alimentos do campo à cidade, fechando lojas para colocar pressão sobre os cidadãos e empurrá-los para o desespero.
No momento em que os defensores da mudança e suas famílias começam a pensar numa forma de se proteger da morte ou de saque, garantir comida e água, ou mesmo conseguir dinheiro suficiente em suas contas bancárias para que possam suprir suas necessidades diárias, aparentemente são atacados por esses demônios e passam a defender e glorificar a antiga estabilidade: "Deus nos deu o que temos, talvez sejamos pessoas abençoadas, devemos dar valor à estabilidade", dizem eles, um tanto quanto confusos.
A realidade é que os frutos dessa estabilidade -- pobreza, deterioração da educação e da saúde, opressão, domínio hereditário, saque da riqueza em benefício dos empresários, dos corruptos, em detrimento da vida das pessoas e do seu futuro -- empurraram as pessoas para as ruas, incluindo empresários e dirigentes de empresas, juízes e outras pessoas que estão nas categorias de base da ciência política.
Até mesmo aqueles que estão melhor posicionados economicamente reconhecem o estado de insatisfação da maior parte da população, essa situação não favorece ninguém, e é contra isso que todos estão gritando agora.
No final dos anos oitenta e noventa, milhares de famílias nos centros de Fayoum foram despejados de suas casas pela suspeita de que uma família pertencer ao Movimento Islâmico. Arrancaram as pessoas nuas de suas casas e depois espalharam destruição nas ruas da vila de Tjerishm. Os corpos de islamitas mortos foram colocados em cima de caminhões abertos para circularem pelas ruas da cidade para estabelecer o pânico no coração da população após a liquidação física da organização Alhawkiin.
Após a queda do movimento islâmico, o mais envolvido com os interesses dos mais pobres e dos camponeses, os jornais pararam de noticiar detenções ou torturas sofridas por esse segmento, e voltaram sua atenção para estratos sociais mais altos, isso tornou-se um procedimento básico seguido mesmo em casos criminais. Não há situação pior do que perder a capacidade de proteger a si e a sua família da crueldade do Estado só porque você é pobre e não tem como proteger-se.
O que dizer de Khaled Said, torturado até a morte nas mãos de dois policiais que queriam revistá-lo usando a lei de emergência, a partir da perspectiva de sua família e amigos? Do "caos" em suas vidas? Da sensação de insegurança em suas vidas? O que dizer sobre todos aqueles que foram mutilados ou mortos sob tortura nas prisões e delegacias de polícia?
No que diz respeito à alimentação. A estabilidade que eles querem nos obrigar a voltar, os preconceitos, os outros inconvenientes, são semelhante ao caos que criam para nós agora. Quanto ao pão, a crise chegou ao ponto de pessoas se matarem mutuamente, a fim de obtê-lo. A luta por alimentos é vivida pelo país ano após ano, deixando mortos e feridos. Falar sobre o caos? Não há maior confusão do que os milhões que moram em favelas em condições sub-humanas. Enquanto isso o governo, preocupa-se com o consumo recreativo de alguns poucos, direciondo para eles a maior parte dos recursos.
Ano após ano os graduados universitários terminar seus estudos, e dão de cara com o caos do desemprego. Se conseguem um parente ou amigo que lhes arranja um emprego, este mal dá para cobrir as despesas básicas, muito menos as de um casamento, de habitação, ou outros.
Há caos maior do que o analfabetismo na metade da população? Há caos mais amplo que as fraudulentas estatísticas patrocinadas pelo governo? Há caos mais profundo do que baixos valores de eficiência e de produção em favor do clientelismo e da lealdade para com os governantes?
A verdadeira fonte do caos é um sistema baseado nessa estabilidade e na estabilidade desse sistema, que não é desejada agora nem mesmo por seus aliados no exterior. As massas, os manifestantes do campo e da cidade, os mártires, a solidariedade, a humanidade, o entusiasmo na promoção da liberdade, tudo isso abre para nós uma janela de energia e luz em direção a uma outra comunidade onde não haja lugar para a glorificação dos defensores da "estabilidade" e do regime.
Texto adaptado de http://khoyout.blogspot.com/2011/02/blog-post.html?spref=tw
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Tudo começou com a retirada da segurança das ruas, da frente dos bancos, das prisões que foram abertas para a fuga de criminosos para que alcançassem as ruas, para alarmar especialmente os círculos da classe média que querem restabelecer e manter o status quo.
Este cenário também inclui os meios de comunicação que dão imensa amplificação para qualquer incidente, mesmo pequeno, para atrair a atenção para longe da exigência revolucionária no Egito: as pessoas querem derrubar o regime, querem liberdade, democracia, fim da corrupção, solução das questões sociais e redirecionamentos políticos em favor dos pobres.
O cenário pretende glorificar a estabilidade para permitir que os serviços degradados, públicos e privados, especialmente no que diz respeito à transferência de bens alimentares, à produção de pão, à limitação do horário de trabalho e as quantidades fornecidas pelos postos de gasolina.
O fato é que esses cenários são clássicos nos momentos de vibração que precedem a decadência dos regimes ditatoriais. Os egípcios viram na televisão, alguns dias antes de sua revolta, rigorosamente o mesmo cenário na revolução da Tunísia. No ano de 1973 no Chile, os generais aliados ao empresariado e à CIA prepararam a derrubada de Salvador Allende democraticamente eleito pela população: favorecendo o banditismo, impedindo motoristas de caminhão de trasportarem alimentos do campo à cidade, fechando lojas para colocar pressão sobre os cidadãos e empurrá-los para o desespero.
No momento em que os defensores da mudança e suas famílias começam a pensar numa forma de se proteger da morte ou de saque, garantir comida e água, ou mesmo conseguir dinheiro suficiente em suas contas bancárias para que possam suprir suas necessidades diárias, aparentemente são atacados por esses demônios e passam a defender e glorificar a antiga estabilidade: "Deus nos deu o que temos, talvez sejamos pessoas abençoadas, devemos dar valor à estabilidade", dizem eles, um tanto quanto confusos.
A realidade é que os frutos dessa estabilidade -- pobreza, deterioração da educação e da saúde, opressão, domínio hereditário, saque da riqueza em benefício dos empresários, dos corruptos, em detrimento da vida das pessoas e do seu futuro -- empurraram as pessoas para as ruas, incluindo empresários e dirigentes de empresas, juízes e outras pessoas que estão nas categorias de base da ciência política.
Até mesmo aqueles que estão melhor posicionados economicamente reconhecem o estado de insatisfação da maior parte da população, essa situação não favorece ninguém, e é contra isso que todos estão gritando agora.
No final dos anos oitenta e noventa, milhares de famílias nos centros de Fayoum foram despejados de suas casas pela suspeita de que uma família pertencer ao Movimento Islâmico. Arrancaram as pessoas nuas de suas casas e depois espalharam destruição nas ruas da vila de Tjerishm. Os corpos de islamitas mortos foram colocados em cima de caminhões abertos para circularem pelas ruas da cidade para estabelecer o pânico no coração da população após a liquidação física da organização Alhawkiin.
Após a queda do movimento islâmico, o mais envolvido com os interesses dos mais pobres e dos camponeses, os jornais pararam de noticiar detenções ou torturas sofridas por esse segmento, e voltaram sua atenção para estratos sociais mais altos, isso tornou-se um procedimento básico seguido mesmo em casos criminais. Não há situação pior do que perder a capacidade de proteger a si e a sua família da crueldade do Estado só porque você é pobre e não tem como proteger-se.
O que dizer de Khaled Said, torturado até a morte nas mãos de dois policiais que queriam revistá-lo usando a lei de emergência, a partir da perspectiva de sua família e amigos? Do "caos" em suas vidas? Da sensação de insegurança em suas vidas? O que dizer sobre todos aqueles que foram mutilados ou mortos sob tortura nas prisões e delegacias de polícia?
No que diz respeito à alimentação. A estabilidade que eles querem nos obrigar a voltar, os preconceitos, os outros inconvenientes, são semelhante ao caos que criam para nós agora. Quanto ao pão, a crise chegou ao ponto de pessoas se matarem mutuamente, a fim de obtê-lo. A luta por alimentos é vivida pelo país ano após ano, deixando mortos e feridos. Falar sobre o caos? Não há maior confusão do que os milhões que moram em favelas em condições sub-humanas. Enquanto isso o governo, preocupa-se com o consumo recreativo de alguns poucos, direciondo para eles a maior parte dos recursos.
Ano após ano os graduados universitários terminar seus estudos, e dão de cara com o caos do desemprego. Se conseguem um parente ou amigo que lhes arranja um emprego, este mal dá para cobrir as despesas básicas, muito menos as de um casamento, de habitação, ou outros.
Há caos maior do que o analfabetismo na metade da população? Há caos mais amplo que as fraudulentas estatísticas patrocinadas pelo governo? Há caos mais profundo do que baixos valores de eficiência e de produção em favor do clientelismo e da lealdade para com os governantes?
A verdadeira fonte do caos é um sistema baseado nessa estabilidade e na estabilidade desse sistema, que não é desejada agora nem mesmo por seus aliados no exterior. As massas, os manifestantes do campo e da cidade, os mártires, a solidariedade, a humanidade, o entusiasmo na promoção da liberdade, tudo isso abre para nós uma janela de energia e luz em direção a uma outra comunidade onde não haja lugar para a glorificação dos defensores da "estabilidade" e do regime.
Texto adaptado de http://khoyout.blogspot.com/2011/02/blog-post.html?spref=tw
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Mundo Árabe: Calendário da Revolução
Uma calendário da revolução árabe está sendo divulgado online, com as potenciais datas marcado para revoluções no Sudão, Síria, Argélia, Líbia e Marrocos. As datas são 30 de janeiro (estudantes sudaneses já estão marchando pelas ruas de Cartum), 05 de fevereiro, 12 de fevereiro e 13 de março, respectivamente.
No Baréin, a data que está sendo sussurrada é 14 de fevereiro e a conversa no Twitter é também a de dar lances sobre as mudanças na Arábia Saudita e no resto do mundo árabe.
Após a Tunísia, que pegou as pessoas de surpresa, a pergunta na mente de todos era: poderia esta bem sucedida derrubada de um ditador se repetir em qualquer outro país[?] Dez dias depois, os egípcios se levantaram, primeiro exigindo reformas políticas e econômicas e, agora, pedindo a cabeça do presidente Hosni Mubarak, que os governa há 30 anos.
Reações no Twitter vão da descrença à completa solidariedade com a mudança, alguns até desejando que as ondas da revolução cheguem a suas costas. A conversa é internacional, com os usuários do Twitter em todo o mundo dando suas opiniões.
fonte:
http://pt.globalvoicesonline.org/2011/02/02/mundo-arabe-calendario-da-revolucao-2/
No Baréin, a data que está sendo sussurrada é 14 de fevereiro e a conversa no Twitter é também a de dar lances sobre as mudanças na Arábia Saudita e no resto do mundo árabe.
Após a Tunísia, que pegou as pessoas de surpresa, a pergunta na mente de todos era: poderia esta bem sucedida derrubada de um ditador se repetir em qualquer outro país[?] Dez dias depois, os egípcios se levantaram, primeiro exigindo reformas políticas e econômicas e, agora, pedindo a cabeça do presidente Hosni Mubarak, que os governa há 30 anos.
Reações no Twitter vão da descrença à completa solidariedade com a mudança, alguns até desejando que as ondas da revolução cheguem a suas costas. A conversa é internacional, com os usuários do Twitter em todo o mundo dando suas opiniões.
fonte:
http://pt.globalvoicesonline.org/2011/02/02/mundo-arabe-calendario-da-revolucao-2/
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Revolução e Poder Popular: começo do fim dos estados capitalistas e comunistas?
Qualquer criança que observar um mapa do norte da África notará algo peculiar nas fronteiras entre os países. A impressão que se tem é que os territórios da Argélia, Mauritânia, Mali, Nigéria, Líbia, Egito, Tunísia, Iemen, Sudão, Chade, etc., foram desenhados com o uso de uma régua. O mais estranho é que estes traços contínuos em lina reta não foram delineados pelos povos africanos, mas pelos estados europeus em suas guerras colonialistas e de conquista de territórios.
O poder estatal age sempre dessa forma, desde a macro escala mundial, até a micro escala do município onde moramos. Não importa se o regime é uma ditadura escancarada como a do Egito ou Irã. Não importa se o regime é uma ditadura maquiada por um ou dois dias de eleições a cada conjunto de anos como ocorre no Brasil, Estados Unidos, ou em quase toda parte. O resultado é sempre o mesmo, os traços contínuos em linha reta não são delineados pelo povo mas pelos políticos profissionais em suas guerras por dinheiro, fama e poder.
Embora as antigas colônias africanas tenham conseguido libertar-se em suas guerras de independência, não conseguiram ainda libertar-se dos laços e das influências colonialistas que transformaram quase todo continente negro, apesar de sua imensa riqueza de recursos, na região mais miserável da terra.
As Revoluções em curso na Argélia, Tunísia, Iemen e principalmente no Egito, inauguraram um novo momento político e pela força e pelo apoio popular que vem recebendo por toda parte, promete se alastrar guiçá, além do continente. Já não há mais países europeus lutando entre si e contra os povos africanos pelo controle de colônias. Já não há mais blocos capitalistas ou comunistas lutando entre si e contra os povos africanos pelo controle político, ideológico e econômico. O muro de Berlim caiu e os dois reis, Estados Unidos e Rússia, ficaram nús.
A mensagem que vem das ruas do Cairo e de Alexandria é clara e o recado ao mundo é preciso: Não somos mais colônia européia, e a era de bonecos capitalistas ou comunistas impostos pelos Estados Unidos e pela Rússia acabou.
Esse momento de virada histórica em busca por liberdade e autodeterminação já passou para o outro lado do Mar Vermelho, do Iémem pode contagiar a Arábia Saudita, Iraque, Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão, e até mesmo chegar à superpopulosa ìndia, com seu 1,21 bilhão de habitantes.
Não dá para prever as consequencias de tal tisuname político e econômico para a Europa, Ásia e Américas. Alguns daqueles países detêm os maiores poços de petróleo e consequentemente, uma das maiores concentrações de riqueza no mundo.
A era do colonialismo passou e a luta fraticida entre estados capitalistas e comunistas está com seus dias contados. O poder popular pode finalmente fazer sucumbir o poder do Estado em todos os rincões do planeta.
BBC News - People power builds momentum in Egypt
Philippine People Power in Egypt
Unprecedented show of people power at Egypt's Tahrir Square
Egypt's youth at forefront of 'people power' movement
O poder estatal age sempre dessa forma, desde a macro escala mundial, até a micro escala do município onde moramos. Não importa se o regime é uma ditadura escancarada como a do Egito ou Irã. Não importa se o regime é uma ditadura maquiada por um ou dois dias de eleições a cada conjunto de anos como ocorre no Brasil, Estados Unidos, ou em quase toda parte. O resultado é sempre o mesmo, os traços contínuos em linha reta não são delineados pelo povo mas pelos políticos profissionais em suas guerras por dinheiro, fama e poder.
Embora as antigas colônias africanas tenham conseguido libertar-se em suas guerras de independência, não conseguiram ainda libertar-se dos laços e das influências colonialistas que transformaram quase todo continente negro, apesar de sua imensa riqueza de recursos, na região mais miserável da terra.
As Revoluções em curso na Argélia, Tunísia, Iemen e principalmente no Egito, inauguraram um novo momento político e pela força e pelo apoio popular que vem recebendo por toda parte, promete se alastrar guiçá, além do continente. Já não há mais países europeus lutando entre si e contra os povos africanos pelo controle de colônias. Já não há mais blocos capitalistas ou comunistas lutando entre si e contra os povos africanos pelo controle político, ideológico e econômico. O muro de Berlim caiu e os dois reis, Estados Unidos e Rússia, ficaram nús.
A mensagem que vem das ruas do Cairo e de Alexandria é clara e o recado ao mundo é preciso: Não somos mais colônia européia, e a era de bonecos capitalistas ou comunistas impostos pelos Estados Unidos e pela Rússia acabou.
Esse momento de virada histórica em busca por liberdade e autodeterminação já passou para o outro lado do Mar Vermelho, do Iémem pode contagiar a Arábia Saudita, Iraque, Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão, e até mesmo chegar à superpopulosa ìndia, com seu 1,21 bilhão de habitantes.
Não dá para prever as consequencias de tal tisuname político e econômico para a Europa, Ásia e Américas. Alguns daqueles países detêm os maiores poços de petróleo e consequentemente, uma das maiores concentrações de riqueza no mundo.
A era do colonialismo passou e a luta fraticida entre estados capitalistas e comunistas está com seus dias contados. O poder popular pode finalmente fazer sucumbir o poder do Estado em todos os rincões do planeta.
BBC News - People power builds momentum in Egypt
Philippine People Power in Egypt
Unprecedented show of people power at Egypt's Tahrir Square
Egypt's youth at forefront of 'people power' movement
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Uma mensagem para o Governo dos Estados Unidos
Para os membros do governo dos Estados Unidos da América:
Os olhos do mundo atualmente repousam sobre a reforma democrática em curso na República Árabe do Egipto. Como bem sabem, o desenrolar dos acontecimentos não contempla tua vantagem estratégica ou política. Em contraste com tua administração, nós, membros do Anonymous, apoiamos a revolução egípcia. Pedimos que façam o mesmo. Solicitamos que eliminem imediatamente toda ajuda militar e política ao regime de Hosni Mubarak. Pedimos que prestem apoio ao povo do Egito durante a luta contra a tirania (apoio à plataforma de independência, liberdade e democracia que pretende se instalar daqui para a frente).
Embora tua administração, numa tentativa de proteger os interesses norte-americanos, hesite reconhecer atos de um ditador assassino, o povo do Egito está determinado em sua luta pela liberdade.
Vocês forneceram financiamento e instrumentos de repressão para um regime autocrático, ajudando a suprimir os direitos humanos básicos dos cidadãos. Após tais ações abomináveis, não esperem que os cidadãos do Egito apoiem seus interesses. No uso da Declaração Universal de Direitos Humanos para protestar, conforme fixado pela Organização das Nações Unidas em 1948, o povo egípcio é atacado por bombas de gás lacrimogêneo "Made in EUA". Não esperem que o povo do Egito respeite teu país, quando vocês contribuem para sua opressão.
O povo do Egito já se manifestou, e a ditadura de Mubarak será expulsa. Agora é hora de reavaliar teus interesses, no Egito. Vocês vão continuar a apoiar a tirania, ou reverter tal postura e lutar pelo povo? É o povo que finalmente decide o destino de uma nação. Seu governo segue a filosofia da soberania pública? O poder é sempre do povo.
"Uma revolução está chegando - uma revolução que será pacífica se formos suficientemente sábios, compassivos, interessados; terá sucesso se tivermos suficiente sorte -, mas diante de uma revolução não podemos afetar o seu caráter. Não podemos alterar a sua inevitabilidade". - Robert F. Kennedy
Somos Anônimos
Somos uma legião
Não perdoamos
Não esquecemos
Estamos a caminho
-Anonymous
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Precisamos mesmo desses governos?
Precisamos mesmo desses governos?
Que prendem famintos que buscam alimento?
Que destroem nossas florestas?
Que agridem o pobre que protesta?
Que compram armas?
Que bombardeiam o povo nas ruas?
Que atiram balas de borracha contra nós?
Que disparam balas letais?
Que falsificam nossos alimentos?
Que criam guerras entre nações, povos e homens?
Que impedem o lavrador de ter livre acesso à terra?
Que promovem e eternizam desigualdades?
Que dividem a sociedade em classes sociais?
Que propagam o ódio?
Que disseminam a mentira?
Que roubam e torturam os mais fracos?
Que ferem, reprimem e matam quem reclama seus direitos?
Quem infestam nosso mundo com arrogância e usura?
Que perseguem por toda parte homens que só querem viver em paz?
Na cidade do México, em Teerã, em Moscou, em Havana, em Caracas, no Cairo, em Bagdad, em São Paulo, em Nova Iorque, em Londres, Em Paris?
Até quando estaremos sujeitos a essa praga chamada governo?
Em 1990 - o ditador Hosni Mubarak completava 10 anos de poder no Egito - após um mês de trabalho no Kibbutz Shoval em Israel, peguei minha mochila e segui para Tel-Aviv para tomar um ônibus para o Cairo. Ao passarmos pela faixa de Gaza, tivemos que descer para revista. Horas depois, já na cidade do Cairo, desembarquei. Um taxi me conduziu a um Youth Hostel previamente escolhido. Já era tarde. Cansado, fui dormir. Pela manhã, já na rua, tomei um susto ao ver-me assediado por meia dúzia de mulheres vestidas de preto. Elas estavam com as mãos estendidas e pediam esmola. Afastei-me dali correndo. Embrenhei-me por ruas e becos do Cairo. Como bom traveller, derivei para conhecer a cidade como ela realmente era, não como se apresentava nos mapas turísticos. Vi construções bem velhas e feias. Favelas verticais. Construções ensebadas que pareciam estar ali há séculos. Tomei uma sopa rápida em um bar lotado e depois, numa banca de rua, comi pão pita recheado com verduras e frios. Passei numa loja para revelar as fotos tiradas em Israel e no Egito, às quais, dias depois no aeroporto de Tel-Aviv, foram quase todas confiscadas por soldados israelenses.
As impressões que ficaram? Como esquecer aquele menino do lado de fora de uma estação ferroviária no interior do Egito, com os olhos cobertos por moscas, pedindo-me um lápis. Como quem diz, "veja como sou pobre, e sempre vou sê-lo pois nem mesmo um lápis posso ter".
A pobreza dos que não tem o suficiente para viver é subproduto da riqueza dos que tem mil vezes mais do que precisam. Esse é o retrato das cidades e do interior do Egito, que lembra as cidades e o interior do Brasil, especialmente o Nordeste. Um oceano de gente paupérrima vivendo com no máximo um salário mínimo, pontilhado por algumas ilhas de milionários.
Que os ventos da revolta que sopram hoje pela Europa, pelo mundo árabe no Oriente Médio e Norte da África, possam também soprar por aqui.
Egito: Tuitando de cima dos Telhados
A Tuitosfera egípcia no #jan25 está repleta de histórias do tumulto atual. Para observadores, os telhados se tornaram locais de vista privilegiada. Em Suez, Ian Lee @ianinegypt registra como é a sensação:
"Estou gravando dos telhados; é muito perigoso na rua para estrangeiros. Números chegam a milhares. #jan25 #suez"
Muito da cobertura do Twitter na hashtag #jan25 está em inglês, sugerindo que o motivo disso é divulgar e repercutir nas notícias internacionais, em vez de o motivo ser organização no terreno. Também metaforicamente, as redes sociais são como telhados de vista privilegiada.
O tuíte de Jailan El-Rafie captura essa intenção. Ela traduz para o inglês [en] e tuíta a respeito do ensaio descritivo [en] do cineasta Amr Salama [en].
http://on.fb.me/g7OWvM This is @AmrMSalama 's article, in English. Please RT so we can get more people to read it. #Egypt #Jan25
http://on.fb.me/g7OWvM [en] Este é o artigo de @AmrMSalama. Por favor RT para que mais pessoas possam lê-lo. #Egypt #Jan25
A própria história de Salama é um evento midiático; tanto o registro gráfico de uma surra que ele levou de policiais, como o registro visual de si mesmo como manifestante e seu relato. Ele inicia sua história a se identificar como um encenador de um papel:
"A rua estava completamente vazia, e ao horizonte eu avistava uma massa de pessoas. Primeiro pensei que seriam manifestantes, mas logo percebi que eles todos vestiam preto, vinham em nossa direção e empunhavam cacetetes pretos. Recordei cenas de filmes antigos de guerra, como Coração Valente e Gladiador, e pude ter a sensação exata de antigos campos de batalha; encontrei a mim mesmo como uma das primeiras pessoas a correr em direção às fileiras de policiais que se aproximavam".
O relato de Salama rapidamente se torna cruel. Ele muda de papel, de herói de ação a repórter de guerra, e então vítima:
"Eu tinha meu precioso iPhone numa mão e tentava bater fotos e gravar vídeos, até que fui rodeado por um grande número de soldados, que começaram a me bater ferozmente com seus cacetetes, infligindo pancadas dolorosas na minha cabeça, face, meu estômago e minhas pernas".
Enquanto o espancamento continuava, Salama foi tirado da rua e espancado múltiplas vezes:
"Então nós entramos em um prédio, - os gentis soldados escoltando - ele trancou a porta, me fez tropeçar e cair no chão, então iniciou-se um doloroso episódio de espancamento vicioso".
Ele relata que começa a se imaginar como um mártir das redes sociais:
"Pensei na minha família, e como isso iria afetá-los, sobre o filme que eu ainda não havia terminado de rodar, sobre a página que seria criada sobre mim no Facebook, e me perguntava se ela teria como título “We all are Amr Salama” [Somos todos Amr Salama, em português]. Pensei, também, sobre a declaração que o Ministério do Interior emitiria, a dizer que eu teria morrido ao engolir acidentalmente meu iPhone".
Salvo por alguns dos soldados, ele conseguiu escapar. Ele destaca seus motivos:
"Descobri que o mais importante é que percebi essas coisas, que sei por quê fui espancado, por quê protestei, e sei que, sem sinais e exigências políticas complexas, entendi por quê suportei tudo isso. Suportei tudo isso porque quero um Egito melhor, um Egito melhor sem o poder absoluto dos governantes sobre as pessoas, e um Egito melhor sem grandes abismos na estrutura social".
Nora Shalaby contribui com um set de fotos no Flickr que exibe diferentes facetas do protesto. Imagens cinéticas de multidões e celebrações de noite.
extraído e adaptado a partir de http://pt.globalvoicesonline.org/2011/01/27/egito-tuitando-de-cima-dos-telhados/
"Estou gravando dos telhados; é muito perigoso na rua para estrangeiros. Números chegam a milhares. #jan25 #suez"
Muito da cobertura do Twitter na hashtag #jan25 está em inglês, sugerindo que o motivo disso é divulgar e repercutir nas notícias internacionais, em vez de o motivo ser organização no terreno. Também metaforicamente, as redes sociais são como telhados de vista privilegiada.
O tuíte de Jailan El-Rafie captura essa intenção. Ela traduz para o inglês [en] e tuíta a respeito do ensaio descritivo [en] do cineasta Amr Salama [en].
http://on.fb.me/g7OWvM This is @AmrMSalama 's article, in English. Please RT so we can get more people to read it. #Egypt #Jan25
http://on.fb.me/g7OWvM [en] Este é o artigo de @AmrMSalama. Por favor RT para que mais pessoas possam lê-lo. #Egypt #Jan25
A própria história de Salama é um evento midiático; tanto o registro gráfico de uma surra que ele levou de policiais, como o registro visual de si mesmo como manifestante e seu relato. Ele inicia sua história a se identificar como um encenador de um papel:
"A rua estava completamente vazia, e ao horizonte eu avistava uma massa de pessoas. Primeiro pensei que seriam manifestantes, mas logo percebi que eles todos vestiam preto, vinham em nossa direção e empunhavam cacetetes pretos. Recordei cenas de filmes antigos de guerra, como Coração Valente e Gladiador, e pude ter a sensação exata de antigos campos de batalha; encontrei a mim mesmo como uma das primeiras pessoas a correr em direção às fileiras de policiais que se aproximavam".
O relato de Salama rapidamente se torna cruel. Ele muda de papel, de herói de ação a repórter de guerra, e então vítima:
"Eu tinha meu precioso iPhone numa mão e tentava bater fotos e gravar vídeos, até que fui rodeado por um grande número de soldados, que começaram a me bater ferozmente com seus cacetetes, infligindo pancadas dolorosas na minha cabeça, face, meu estômago e minhas pernas".
Enquanto o espancamento continuava, Salama foi tirado da rua e espancado múltiplas vezes:
"Então nós entramos em um prédio, - os gentis soldados escoltando - ele trancou a porta, me fez tropeçar e cair no chão, então iniciou-se um doloroso episódio de espancamento vicioso".
Ele relata que começa a se imaginar como um mártir das redes sociais:
"Pensei na minha família, e como isso iria afetá-los, sobre o filme que eu ainda não havia terminado de rodar, sobre a página que seria criada sobre mim no Facebook, e me perguntava se ela teria como título “We all are Amr Salama” [Somos todos Amr Salama, em português]. Pensei, também, sobre a declaração que o Ministério do Interior emitiria, a dizer que eu teria morrido ao engolir acidentalmente meu iPhone".
Salvo por alguns dos soldados, ele conseguiu escapar. Ele destaca seus motivos:
"Descobri que o mais importante é que percebi essas coisas, que sei por quê fui espancado, por quê protestei, e sei que, sem sinais e exigências políticas complexas, entendi por quê suportei tudo isso. Suportei tudo isso porque quero um Egito melhor, um Egito melhor sem o poder absoluto dos governantes sobre as pessoas, e um Egito melhor sem grandes abismos na estrutura social".
Nora Shalaby contribui com um set de fotos no Flickr que exibe diferentes facetas do protesto. Imagens cinéticas de multidões e celebrações de noite.
extraído e adaptado a partir de http://pt.globalvoicesonline.org/2011/01/27/egito-tuitando-de-cima-dos-telhados/
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
Perspectivas de Modificações Conscientes na Vida Cotidiana
Estudar a vida cotidiana seria uma tarefa ridícula, e condenada a nada apreender de seu objeto, se tal proposta não fosse explicitamente a de estudar a vida cotidiana para transformá-la.
A conferência - exposição de certas considerações intelectuais a um auditório, como forma banal das relações humanas num amplo setor da sociedade - também faz parte da crítica da vida cotidiana.
Os sociólogos, por exemplo, têm o costume de retirar da vida cotidiana e rejeitar para esferas separadas chamadas superiores - o que lhes acontece a cada momento. É o hábito sob todas as formas, a começar pelo hábito do manejo de alguns conceitos profissionais - produzidos portanto pela divisão do trabalho que mascara a realidade sob convenções preexistentes.
É por isso desejável que se mostre, por uma leve distorção das expressões correntes, que a vida cotidiana é mesmo esta aqui. É claro que a transmissão destas palavras por meio de um gravador não vai ilustrar a integraçâo dos recursos técnicos na vida cotidiana marginal ao tecnicismo, e sim aproveitar uma ocasíão para romper com as aparências de, pseudocolaboração do diálogo artificial, que ficam instituídas entre o conferencista "presente pessoalmente" e seus espectadores. Essa leve ruptura de uma comodidade pode transformar em questionamento da vida cotidiana (questionamento que, de outro modo, será totalmente abstrato) a própria conferência, como outras tantas disposições do uso do tempo, ou dos objetos, disposições que são consideradas "normais", que nem percebemos, mas que no fundo nos condicionam. A respeito de um pormenor como esse, como a respeito do conjunto da vida cotidiana, a modificação é sempre a condição necessária e suficiente para fazer surgir experimentalmente o objeto de nosso estudo, que sem isso permaneceria duvidoso; objeto que não é só para estudar, e sim para modificar.
Acabei de dizer que a realidade de um conjunto observável que seria designado pela expressão "vida cotidiana" corre o risco de continuar hipotética para muita gente. De fato, desde que este grupo de pesquisa se constituiu, o mais surpreendente não é que ainda não tenha encontrado nada, mas que a contestação da própria existência da vida cotidiana se tenha manifestado desde o primeiro instante; e, a cada encontro, continue a se confirmar. A maioria das falas vencidas de que a vida cotidiana exista, por não a terem encontrado em lugar algum. Um grupo de pesquisa sobre a vida cotidiana guiado por tal idéia é comparável a uma expedição que parte em busca do "abominável homem das neves" e chega à conclusão de que se trata de uma pilhéria folclórica.
Todo o mundo está porém de acordo em que certos gestos repetidos a cada dia, como abrir a porta ou encher um copo, são perfeitamente reais; mas esses gestos estão num plano tão trivial da realidade que se contesta, com razão, que possam justificar uma nova especialização da pesquisa sociológica. E vários sociólogos parecem pouco inclinados a imaginar outros aspectos da vida cotidiana, a partir da definição de Henri Lefebvre, isto é, "o que resta quando se retiram do vivido todas as atividades especializadas". Descobre-se então que a maioria dos sociólogos - e todos nós sabemos como eles gostam das atividades especializadas e nelas acreditam cegamente! - reconhece atividades especializadas em tudo, e a vida cotidiana em lugar nenhum. A vida cotidiana está sempre mais além. Está com os outros. Em todo o caso, nas classes não sociológicas da população. Alguém disse que seria interessante estudar os operários, como cobaias provavelmente inoculadas com o vírus da vida cotidiana, pois eles, por não terem acesso às atividades especializadas, só tem a vida cotidiana para viver. Esse modo de se debruçar sobre o povo, em busca de um longínquo primitivismo do cotidiano; e sobretudo esse contentamento escancarado, essa arrogância ingénua de participar de uma cultura da qual ninguém consegue disfarçar a indiscutível falência, a radical incapacidade de compreender o mundo que a produz, tudo isso é assombroso.
Existe uma vontade manifesta de proteger~se por trás de uma formaçâo do pensamento que se baseou na segmentação de domínios artificiais, a fim de rejeitar o conceito inútil, vulgar e incômodo de "vida cotidiana". Tal conceito abrange um resíduo da realidade catalogada e classificada, resíduo com o qual alguns não gostam de se confrontar, porque é ao mesmo tempo o ponto de vista da totalidade; implica a necessidade de um Juizo global, de uma política. Certos intelectuais parecem vangloriar-se de sua participação pessoal no setor dominante da sociedade, por possuírem uma ou várias especializações culturais; isso porém os coloca no lugar ideal para perceberem que toda a cultura dominante está nitidamente roída pelas traças. Mas, seja qual for a opinião que se tenha sobre a coerência dessa cultura ou sobre seu interesse, em detalhe, a alienação que ela impôs aos ditos intelectuais é de fazer com que eles se julguem, do Céu dos sociólogos, como totalmente alheios à vida cotidiana das populações comuns ou situados no topo da escala do poder humano, como se eles também não fossem uns pobres coitados.
É verdade que as atividades especializadas existem; têm até, em certa época, um uso geral que sempre convém reconhecer de modo desmitificado. A vida cotidiana não é tudo, embora esteja em osmose com as atividades especializadas a ponto de, sob certo aspecto, nunca ninguém estar fora da vida cotidiana. E, se recorrermos à conhecida representação espacial das atividades, a vida cotidiana terá de ser colocada no centro de tudo. Nela se inicia cada projeto, e cada realização a ela retorna em busca de uma verdadeira significação. A vida cotidiana é a medida de tudo: da realização - ou melhor, da nâo-realização - das relações humanas; da utilização do tempo vivido; da pesquisa na arte; da política revolucionária.
Convém relembrar que o velho estereótipo científico do observador desinteressado é um ardil. No caso, a observação desinteressada é ainda menos possível que em qualquer outra situação. O que torna difícil o reconhecimento de um terreno da vida cotidiana não é apenas o fato de ele ja ser o ponto de encontro de uma sociologia empírica com a elaboração conceptual, mas também de ser neste momento o desafio de toda a renovaçâo revolucionária da cultura e da política.
A vida cotidiana não criticada significa o prolongamento das formas atuais, profundamente deterioradas, da cultura e da política, formas cuja gravíssima crise, sobretudo nos países mais modernos, se traduz pela despolitização e pelo neo-analfabetismo generalizados. Em compensação, a crítica radical, e por atos, da vida cotidiana existente pode levar a uma superação da cultura e da política no sentido tradicional, isto é, a um nível superior de participação na vida.
Mas, pode alguém perguntar, por que essa vida cotidiana, que a meu ver é a única real, é tão completa e imediatamente depreciada por pessoas que, afinal, não têm nenhum interesse direto nisso e são, na maioria, favoráveis a uma renovação do movimento revolucionário?
Julgo que é por estar a vida cotidiana organizada dentro de parâmetros de uma pobreza escandalosa, E sobretudo porque essa pobreza da vida cotidiana nada tem de acidental: é uma pobreza imposta a todo momento pela coação e pela violência de uma sociedade dividida em classes; pobreza organizada historicamente de acordo com as necessidades da história da exploração.
O uso da vida cotidiana, no sentido de um consumo do tempo vivido, é comandado pela predominância da raridade do tempo livre e raridade dos possíveis modos de utilizar esse tempo livre.
Assim como a história acelerada de nossa época é a história da acumulação e da industrialização, o atraso da vida cotidiana e sua tendência ao imobilismo são o produto das leis e dos interesses que comandaram essa industrialização. A vida cotidiana apresenta de fato, até o momento, uma resistência ao que é histórico. Isso julga antes de tudo o histórico, como herança e projeto de uma sociedade de exploração.
A enorme pobreza da organização consciente, a falta de criatividade das pessoas na vida cotidiana expressam a necessidade fundamental de inconsciência e de mistificação numa sociedade exploradora, numa sociedade da alienação.
Henri Lefebvre aplicou uma extensão da idéia de desenvolvimento desigual para caracterizar a vida cotidiana, descompassada mas não cortada da historicidade, como um setor atrasado. Acho que se pode qualificar esse nível da vida cotidiana como setor colonizado. Todos sabem que, na escala da economia mundial, o subdesenvolvimento e a colonização são fatores que interagem. Tudo leva a crer que o mesmo acontece na escala da formação econômico-social da práxis.
A vida cotidiana, mistificada por todos os meios e controlada policialmente, é uma espécie de reserva para Os bons selvagens que fazem funcionar, sem compreendê-la, a sociedade moderna com o rápido crescimento de seus poderes técnicos e a expansão forçada de seu mercado. A história - isto é, a transformação do real - não é utilizável atualmente na vida cotidiana porque o homem do cotidiano é o produto de uma história que ele não controla. É ele quem faz essa história, mas não livremente.
A sociedade moderna se constitui de fragmentos especializados, praticamente intransmissíveis, e a vida cotidiana, na qual quase todas as questões surgem de modo unitário, torna-se naturalmente o reino da ignorância.
Essa sociedade, através de sua produção industrial, esvaziou o sentido dos gestos do trabalho. E nenhum modelo que esses gestos humanos já tiveram perdura em nosso cotidiano.
Tal sociedade tem tendência a atomizar os homens em consumidores isolados, a proibira comunicação, A vida cotidiana torna-se assim vida privada, domínio da separação e do espetáculo.
De tal forma que a vida cotidiana é também o terreno do qual os especialistas abdicam. É nela que, por exemplo, um dos raros indivíduos capazes de compreender a mais recente imagem científica do universo torna-se estúpido e considera atentamente as teorias artísticas de Alain Robbe-Grillet, ou envia petições ao Presidente da República a fim de influir em sua política. É a esfera da ausência de reação, da confissão da incapacidade de viver.
Não se deve portanto caracterizar o subdesenvolvimento da vida cotidiana apenas por sua relativa incapacidade de integrar técnicas. Esse aspecto é um produto importante, mas ainda parcial, do conjunto da alienação diária, que pode ser definida como a incapacidade de inventar uma técni~ ca de libertação do cotidiano.
E é verdade que muitas técnicas modificam com maior ou menor nitidez certos aspectos da vida cotidiana: os eletro domésticos, como já dissemos, e também o telefone, a televisão, a gravação musical em discos, as viagens aéreas mais acessíveis etc. Esses elementos intervêm desordenadamente, ao acaso, sem que ninguém tenha previsto suas conexões e conseqüências. Mas é certo que, no conjunto, esse movimento de introdução das técnicas no cotidiano, sendo finalmente enquadrado pela racionalídade do capitalismo moderno burocratizado, atua mais no sentido de uma redução da independência e da criatividade das pessoas. Assim as cidades novas de hoje retratam claramente a tendência totalitária da organização da vida pelo capitalismo moderno: os indivíduos isolados (geralmente isolados no âmbito da célula familiar) vêem, nesse gênero de cidade, sua vida reduzida à pura trivialidade da repetição, junto com a assimilação obrigatória de um espetáculo igualmente repetitivo.
Parece portanto que a censura que as pessoas exercem sobre a questão de sua própria vida cotidiana se explica pela consciência de sua insustentável miséria, bem como pela sensação talvez inconfessada mas inevitavelmente experimentada, de que todas as verdadeiras possibilidades, todos os desejos que foram impedidos pelo funcionamento da vida social, estavam nela, e não nas atividades ou distrações especializadas, Isto é, o conhecimento da riqueza profunda, da energia perdida na vida cotidiana, é inseparável do conhecimento da miséria da organização dominante dessa vida: só a existência perceptível dessa riqueza inexplorada leva a definir por contraste a vida cotidiana como miséria e como prisão; depois, no mesmo impulso, leva a negar o problema.
Em tais condições, ocultar a questão política suscitada pela miséria da vida cotidiana equivale a ocultar a profundidade das reivindicações relativas à riqueza possível de nossa vida; reivindicações que levariam forçosamente a reinventar a revolução. Neste aspecto, a fuga à política não é contraditória com o fato de ser militante do Partido Socialista Unificado, por exemplo, ou de ler com confiança o jornal L'Humanité.
Tudo depende efetivamente do nível em que se ousa formular o problema: como vivemos? Como ficamos satisfeitos? Insatisfeitos? Isso sem nos deixarmos nunca intimidar pelas diversas formas de publicidade que visam a persuadir que o homem pode ser feliz por causa da existência de Deus, ou do dentifrício Colgate, ou do CNRS [Centro Nacional da Pesquisa Científica, da França].
Parece-me que a expressão "critica da vida cotidiana" poderia, e deveria, também harmonizar-se com essa inversão: seria a critica que a vida cotidiana exerceria, soberanamente, sobre tudo o que lhe é inutilmente exterior.
A questão do uso dos meios técnicos, na vida cotidiana e alhures, é mera questão política (e, entre todos os meios técnicos existentes, os que são utilizados são de fato selecionados de acordo com os objetivos de manutenção da predominância de uma classe). Quando se considera a hipótese de um futuro, tal como é pensado pela literatura de ficção científica no qual aventuras interstelares coexistem com uma vida cotidiana mantida nesta terra com a mesma indigência material e o mesmo moralismo arcaico, isso significa, exatamente, que ainda haveria uma classe de dirigentes especializados, mantendo a seu serviço as massas proletárias das fábricas e dos escritórios; e que as aventuras interstelares seriam apenas a empresa escolhida por esses dirigentes, a maneira que teriam achado para desenvolver sua economia irracional, o cúmulo da atividade especializada.
Já foi perguntado: "A vida privada está privada de quê?" Da vida, que dela está cruelmente ausente. As pessoas também estão privadas ao máximo de comunicação; e de realização pessoal. Caberia dizer: não podem fazer, pessoalmente, sua própria história. As hipóteses para responder de modo positivo a essa questão sobre a natureza da privação só podem ser enunciadas sob a forma de projetos de enriquecimento: projetos de outro estilo de vida; ou seja, de um estilo... Ou então, se considerarmos que a vida cotidiana está na fronteira entre o setor dominado e o setor não dominado da vida, ou seja, o lugar do aleatório, será preciso substituir o presente gueto por uma fronteira sempre deslocável; trabalhar sem esmorecer para organizar novas oportunidades.
A questão da intensidade do vivido aparece hoje, por exemplo, com o uso da droga, nos mesmos termos com que a sociedade da alienação consegue formular qualquer questão: isto é, em termos de falso reconhecimento de um projeto falsificado, em termos de fixação e de apego. Convém notar também a que ponto a imagem do amor, elaborada e divulgada nesta sociedade, é parecida com a da droga. Nela, a paixão é primeiro reconhecida como recusa de todas as outras paixões; depois, é impedida e, afinal, só se encontra nas compensações do espetáculo reinante. La Rochefoucauld escreveu: "Quase sempre o que nos impede de entregarmonos a um vício é o fato de termos vários". Eis uma constatação muito positiva se, deixando de lado os pressupostos moralistas, a pusermos de pé, como base de um programa de realização das capacidades humanas.
Todos esses problemas estão na ordem do dia porque, visivelmente, nosso tempo é dominado pelo surgimento do projeto, defendido pela classe operária, de abolir toda a sociedade de classes e de começar a história humana; projeto dominado portanto, como corolário, por uma resistência encarniçada, bem como pelos desvios e fracassos que até o momento enfrentou.
A atual crise da vida cotidiana se inscreve nas novas formas de crise do capitalismo, formas que passam despercebidas a quem só pensa em computar a chegada das próximas crises cíclicas da economia.
O desaparecimento, no capitalismo desenvolvido, de todos os antigos valores, de todas as referências da antiga comunicação, bem como a impossibilidade de substituí-los por outros, sejam eles quais forem, antes de terem dominado racionalmente, na vida cotidiana e alhures, as novas forças industriais que nos escapam cada vez mais, são fatos que produzem não apenas a insatisfação quase oficial de nossa época, insatisfação muitíssimo aguda entre os jovens, mas também o movimento de autonegação da arte. A atividade artística sempre fora a única a explicar os problemas clandestinos da vida cotidiana, embora do forma velada, deformada, parcialmente ilusória. Diante dos olhos, temos o testemunho da destruição de toda a expressão artística moderna: é a arte moderna.
Se considerarmos a crise da sociedade contemporânea em toda extensão, não creio que ainda seja possível olhar os lazeres como uma negação do cotidiano. Admitimos que era preciso "estudar o tempo perdido". Mas vejamos a evolução dessa idéia de tempo perdido. Para o capitalismo clássico, o tempo perdido é aquele que é exterior à produção, à acumulação, à poupança. A moral leiga, ensinada nas escolas da burguesia, implantou essa regra de vida. Mas acontece que o capitalismo moderno, por uma manobra inesperada, preci sa aumentar o consumo, "elevar o nível de vida" (não esquecer que essa expressão é inteiramente destituída de sentido). Como, ao mesmo tempo, as condições da produção, parcelar e cronometrada ao extremo, tornaram-se indefensáveis, a moral que já existe na publicidade, na propaganda e em todas as formas do espetáculo dominante admite, ao contrário, que o tempo perdido é o do trabalho, agora justificado apenas pelos vários graus do que se ganha e que permite comprar descanso, consumo, lazer - isto é, uma passividade cotidiana fabricada e controlada pelo capitalismo.
Agora, se considerarmos a facticidade dos imperativos do consumo criados e estimulados pela indústria moderna - se reconhecermos o vazio dos lazeres e a impossibilidade de descanso -, a pergunta pode ser formulada de modo mais realista: o que não é tempo perdido? Ou seja: o desenvolvimento de uma sociedade da abundância deve chegar à abundância de quê?
Isto pode servir de critério para muita coisa. Quando, por exemplo, num dos jornais onde se exibe a inconsistência dos chamados intelectuais de esquerda - refiro-me a France-Observateur - vê-se um título que anuncia algo como "o carro de passeio ataca o socialismo", diante de um artigo explicando que os russos já buscam individualmente, a exemplo dos americanos, um consumo particular dos bens e que começam naturalmente pelo carro, é o caso de se pensar que nem era necessário ter assimilado, depois de Hegel, toda a obra de Marx para perceber que um socialismo que se enfraquece porque o carro de passeio invadiu o mercado nada tem a ver com o socialismo pelo qual o movimento operário lutou. De modo que não é a um estágio da táti(a OU do dogmatismo dos dirigentes burocráticos da Rússia que nos devemos opor, mas à base, àquilo que faz com que a vida das pessoas não mude efetivamente de sentido, E não se trata da fataçodade obscura da vida cotidiana, condenada a permanecer reacionária. E uma fatalidade imposta exteriormente à vida cotidiana, em todos os aspectos, pela esfera reacionária dos dirigentes especializados, seja qual for a etiqueta sob a qual eles planificam a miséria.
A atual despolitizaçâo de muitos ex-militantes de esquerda, o afastar-se de uma certa alienação para atirar-se noutra, a da vida privada, não tem tanto o sentido de um retorno à privatizaçâo como refúgio contra as "responsabilidades da historicidade", mas o de um afastamento do setor político especializado, e sempre manipulado por outros; setor em que a única responsabilidade verdadeiramente assumida foi a de deixar todas as responsabilidades nas mãos de chefes sem controle; onde o projeto comunista foi enganado e desiludido. Assim como não se pode opor como um todo a vida privada à vida pública, sem perguntar: qual vida privada? qual vida pública? (porque a vida privada contém os fatores de sua negação e de sua superação tanto como a ação coletiva revolucionária pôde alimentar os fatores de sua degenerescência), também não se pode fazer o balanço de uma alienação dos indivíduos na política revolucionária por se tratar da alienação da própria política revolucionária. É justo considerar de modo dialético o problema da alienação, assinalar as possibilidades de alienação sempre renovadas na própria luta travada contra a alienação, mas convém enfatizar que tudo isso deve ser aplicado no mais alto nível de pesquisa (por exemplo, a filosofia da alienação no seu todo), e não no nível do estalinismo, cuja explicação é infelizmente mais grosseira.
A civilização capitalista ainda não foi superada em nenhum lugar mas continua a produzir inimigos. A próxima tentativa do movimento revolucionário, radicalizado pelas lições dos anteriores fracassos, e cujo programa reivindicatório deverá enriquecer-se na proporção dos poderes práticos da sociedade moderna poderes que desde já constituem virtualmente a base material que faltava às correntes chamadas utópicas do socialismo -, essa próxima tentativa de total contestação do capitalismo saberá inventar e propor um outro uso da vida cotidiana, e logo se apoiará em novas práticas cotidianas, em novos tipos de relações humanas (não ignorando que o que se conservar, no interior do movimento revolucionário, das relações dominantes na sociedade existente levará insensivelmente a reconstituir, com diversas variantes, essa mesma sociedade).
Assim como outrora a burguesia, em sua fase ascendente, teve de liquidar de modo impiedoso tudo o que ultrapassava a vida terrena (o Céu, a eternidade), assim também o proletariado revolucionário - que nunca poderá admitir, sem deixar de existir como tal, um passado ou modelos terá de renunciar a tudo o que ultrapassa a vida cotidiana. Ou que pretende ultrapassá-la: o espetáculo, o gesto ou a palavra "históricos", a "grandeza" dos dirigentes, o mistério das especializações, a "imortalidade" da arte e sua importância exterior à vida. O que significa: renunciar a todos os subprodutos da eternidade que sobreviveram como armas no mundo dos dirigentes.
A revolução na vida cotidiana, quebrando sua atual resistência no histórico (e a todo tipo de mudança), criará condições tais que o presente consiga dominar o passado, e que a parte da criatividade ganhe da repetitividade. É de se esperar que o lado da vida cotidiana expresso pelos conceitos da ambiguidade - malentendido, comprometimento, abuso - perca a importância, em proveito de seu oposto, a escolha consciente ou o desafio.
O atual questionamento artístico da linguagem, contemporâneo da metalinguagem das máquinas, que é a linguagem burocratizada da burocracia no poder, seá então superado por formas superiores de comunicação. A presente noção de texto social decifrável deverá chegar a novos processos de escrita desse texto social, na direção daquilo que buscam atualmente meus camaradas situacionistas com o urbanismo unitário e o esboço de um comportamento experimental. A produção central de um trabalho industrial inteiramente reconvertido provocará o arranjo de novas configurações da vida cotidiana, a criação livre de acontecimentos.
A crítica e a perpétua recriação de toda a vida cotidiana, antes de serem feitas naturalmente por todos os homens, devem ser empreendidas nas condições da presente opressão, a fim de derrubar essas condições.
Não é um movimento cultural de vanguarda, mesmo com pretensões revolucionárias, que pode realizar isso. Tampouco um partido revoluciotiárioo de modelo tradicional, mesmo que conceda atenção à crítica da cultura (entendendo por esse termo o conjunto dos instrumentos artísticos ou conceptuais pelos quais uma sociedade explica a si mesma e se oferece objetivos de vida). Tal cultura como tal política estão desgastadas, e não é sem motivo que a maioria das pessoas perdeu o interesse por elas. A transformação revolucionária da vida cotidiana não está reservada a um vago futuro: apresenta-se a nós como urgente, diante do desenvolvimento do capitalismo e suas insuportáveis exigências; a alternativa seria o reforço da escravidão moderna. Essa transformação revolucionária marcará o fim de toda expressão artística unilateral, armazenada sob a forma de mercadoria, simultâneo ao fim de toda política especializada.
Será essa a primeira tarefa da organização revolucionária de um novo tipo.
Guy-Ernest Debord
IS número 6, agosto de 1961
Esta palestra foi feita, por meio de um gravador, em 17 de maio de 1961, no Groupe de Recherches sur la vie quotidienne [grupo de pesquisa sobre a vida cotidiana] reunido por H. Lefebvre no Centre d'étudies sociologiques do CNRS.
A conferência - exposição de certas considerações intelectuais a um auditório, como forma banal das relações humanas num amplo setor da sociedade - também faz parte da crítica da vida cotidiana.
Os sociólogos, por exemplo, têm o costume de retirar da vida cotidiana e rejeitar para esferas separadas chamadas superiores - o que lhes acontece a cada momento. É o hábito sob todas as formas, a começar pelo hábito do manejo de alguns conceitos profissionais - produzidos portanto pela divisão do trabalho que mascara a realidade sob convenções preexistentes.
É por isso desejável que se mostre, por uma leve distorção das expressões correntes, que a vida cotidiana é mesmo esta aqui. É claro que a transmissão destas palavras por meio de um gravador não vai ilustrar a integraçâo dos recursos técnicos na vida cotidiana marginal ao tecnicismo, e sim aproveitar uma ocasíão para romper com as aparências de, pseudocolaboração do diálogo artificial, que ficam instituídas entre o conferencista "presente pessoalmente" e seus espectadores. Essa leve ruptura de uma comodidade pode transformar em questionamento da vida cotidiana (questionamento que, de outro modo, será totalmente abstrato) a própria conferência, como outras tantas disposições do uso do tempo, ou dos objetos, disposições que são consideradas "normais", que nem percebemos, mas que no fundo nos condicionam. A respeito de um pormenor como esse, como a respeito do conjunto da vida cotidiana, a modificação é sempre a condição necessária e suficiente para fazer surgir experimentalmente o objeto de nosso estudo, que sem isso permaneceria duvidoso; objeto que não é só para estudar, e sim para modificar.
Acabei de dizer que a realidade de um conjunto observável que seria designado pela expressão "vida cotidiana" corre o risco de continuar hipotética para muita gente. De fato, desde que este grupo de pesquisa se constituiu, o mais surpreendente não é que ainda não tenha encontrado nada, mas que a contestação da própria existência da vida cotidiana se tenha manifestado desde o primeiro instante; e, a cada encontro, continue a se confirmar. A maioria das falas vencidas de que a vida cotidiana exista, por não a terem encontrado em lugar algum. Um grupo de pesquisa sobre a vida cotidiana guiado por tal idéia é comparável a uma expedição que parte em busca do "abominável homem das neves" e chega à conclusão de que se trata de uma pilhéria folclórica.
Todo o mundo está porém de acordo em que certos gestos repetidos a cada dia, como abrir a porta ou encher um copo, são perfeitamente reais; mas esses gestos estão num plano tão trivial da realidade que se contesta, com razão, que possam justificar uma nova especialização da pesquisa sociológica. E vários sociólogos parecem pouco inclinados a imaginar outros aspectos da vida cotidiana, a partir da definição de Henri Lefebvre, isto é, "o que resta quando se retiram do vivido todas as atividades especializadas". Descobre-se então que a maioria dos sociólogos - e todos nós sabemos como eles gostam das atividades especializadas e nelas acreditam cegamente! - reconhece atividades especializadas em tudo, e a vida cotidiana em lugar nenhum. A vida cotidiana está sempre mais além. Está com os outros. Em todo o caso, nas classes não sociológicas da população. Alguém disse que seria interessante estudar os operários, como cobaias provavelmente inoculadas com o vírus da vida cotidiana, pois eles, por não terem acesso às atividades especializadas, só tem a vida cotidiana para viver. Esse modo de se debruçar sobre o povo, em busca de um longínquo primitivismo do cotidiano; e sobretudo esse contentamento escancarado, essa arrogância ingénua de participar de uma cultura da qual ninguém consegue disfarçar a indiscutível falência, a radical incapacidade de compreender o mundo que a produz, tudo isso é assombroso.
Existe uma vontade manifesta de proteger~se por trás de uma formaçâo do pensamento que se baseou na segmentação de domínios artificiais, a fim de rejeitar o conceito inútil, vulgar e incômodo de "vida cotidiana". Tal conceito abrange um resíduo da realidade catalogada e classificada, resíduo com o qual alguns não gostam de se confrontar, porque é ao mesmo tempo o ponto de vista da totalidade; implica a necessidade de um Juizo global, de uma política. Certos intelectuais parecem vangloriar-se de sua participação pessoal no setor dominante da sociedade, por possuírem uma ou várias especializações culturais; isso porém os coloca no lugar ideal para perceberem que toda a cultura dominante está nitidamente roída pelas traças. Mas, seja qual for a opinião que se tenha sobre a coerência dessa cultura ou sobre seu interesse, em detalhe, a alienação que ela impôs aos ditos intelectuais é de fazer com que eles se julguem, do Céu dos sociólogos, como totalmente alheios à vida cotidiana das populações comuns ou situados no topo da escala do poder humano, como se eles também não fossem uns pobres coitados.
É verdade que as atividades especializadas existem; têm até, em certa época, um uso geral que sempre convém reconhecer de modo desmitificado. A vida cotidiana não é tudo, embora esteja em osmose com as atividades especializadas a ponto de, sob certo aspecto, nunca ninguém estar fora da vida cotidiana. E, se recorrermos à conhecida representação espacial das atividades, a vida cotidiana terá de ser colocada no centro de tudo. Nela se inicia cada projeto, e cada realização a ela retorna em busca de uma verdadeira significação. A vida cotidiana é a medida de tudo: da realização - ou melhor, da nâo-realização - das relações humanas; da utilização do tempo vivido; da pesquisa na arte; da política revolucionária.
Convém relembrar que o velho estereótipo científico do observador desinteressado é um ardil. No caso, a observação desinteressada é ainda menos possível que em qualquer outra situação. O que torna difícil o reconhecimento de um terreno da vida cotidiana não é apenas o fato de ele ja ser o ponto de encontro de uma sociologia empírica com a elaboração conceptual, mas também de ser neste momento o desafio de toda a renovaçâo revolucionária da cultura e da política.
A vida cotidiana não criticada significa o prolongamento das formas atuais, profundamente deterioradas, da cultura e da política, formas cuja gravíssima crise, sobretudo nos países mais modernos, se traduz pela despolitização e pelo neo-analfabetismo generalizados. Em compensação, a crítica radical, e por atos, da vida cotidiana existente pode levar a uma superação da cultura e da política no sentido tradicional, isto é, a um nível superior de participação na vida.
Mas, pode alguém perguntar, por que essa vida cotidiana, que a meu ver é a única real, é tão completa e imediatamente depreciada por pessoas que, afinal, não têm nenhum interesse direto nisso e são, na maioria, favoráveis a uma renovação do movimento revolucionário?
Julgo que é por estar a vida cotidiana organizada dentro de parâmetros de uma pobreza escandalosa, E sobretudo porque essa pobreza da vida cotidiana nada tem de acidental: é uma pobreza imposta a todo momento pela coação e pela violência de uma sociedade dividida em classes; pobreza organizada historicamente de acordo com as necessidades da história da exploração.
O uso da vida cotidiana, no sentido de um consumo do tempo vivido, é comandado pela predominância da raridade do tempo livre e raridade dos possíveis modos de utilizar esse tempo livre.
Assim como a história acelerada de nossa época é a história da acumulação e da industrialização, o atraso da vida cotidiana e sua tendência ao imobilismo são o produto das leis e dos interesses que comandaram essa industrialização. A vida cotidiana apresenta de fato, até o momento, uma resistência ao que é histórico. Isso julga antes de tudo o histórico, como herança e projeto de uma sociedade de exploração.
A enorme pobreza da organização consciente, a falta de criatividade das pessoas na vida cotidiana expressam a necessidade fundamental de inconsciência e de mistificação numa sociedade exploradora, numa sociedade da alienação.
Henri Lefebvre aplicou uma extensão da idéia de desenvolvimento desigual para caracterizar a vida cotidiana, descompassada mas não cortada da historicidade, como um setor atrasado. Acho que se pode qualificar esse nível da vida cotidiana como setor colonizado. Todos sabem que, na escala da economia mundial, o subdesenvolvimento e a colonização são fatores que interagem. Tudo leva a crer que o mesmo acontece na escala da formação econômico-social da práxis.
A vida cotidiana, mistificada por todos os meios e controlada policialmente, é uma espécie de reserva para Os bons selvagens que fazem funcionar, sem compreendê-la, a sociedade moderna com o rápido crescimento de seus poderes técnicos e a expansão forçada de seu mercado. A história - isto é, a transformação do real - não é utilizável atualmente na vida cotidiana porque o homem do cotidiano é o produto de uma história que ele não controla. É ele quem faz essa história, mas não livremente.
A sociedade moderna se constitui de fragmentos especializados, praticamente intransmissíveis, e a vida cotidiana, na qual quase todas as questões surgem de modo unitário, torna-se naturalmente o reino da ignorância.
Essa sociedade, através de sua produção industrial, esvaziou o sentido dos gestos do trabalho. E nenhum modelo que esses gestos humanos já tiveram perdura em nosso cotidiano.
Tal sociedade tem tendência a atomizar os homens em consumidores isolados, a proibira comunicação, A vida cotidiana torna-se assim vida privada, domínio da separação e do espetáculo.
De tal forma que a vida cotidiana é também o terreno do qual os especialistas abdicam. É nela que, por exemplo, um dos raros indivíduos capazes de compreender a mais recente imagem científica do universo torna-se estúpido e considera atentamente as teorias artísticas de Alain Robbe-Grillet, ou envia petições ao Presidente da República a fim de influir em sua política. É a esfera da ausência de reação, da confissão da incapacidade de viver.
Não se deve portanto caracterizar o subdesenvolvimento da vida cotidiana apenas por sua relativa incapacidade de integrar técnicas. Esse aspecto é um produto importante, mas ainda parcial, do conjunto da alienação diária, que pode ser definida como a incapacidade de inventar uma técni~ ca de libertação do cotidiano.
E é verdade que muitas técnicas modificam com maior ou menor nitidez certos aspectos da vida cotidiana: os eletro domésticos, como já dissemos, e também o telefone, a televisão, a gravação musical em discos, as viagens aéreas mais acessíveis etc. Esses elementos intervêm desordenadamente, ao acaso, sem que ninguém tenha previsto suas conexões e conseqüências. Mas é certo que, no conjunto, esse movimento de introdução das técnicas no cotidiano, sendo finalmente enquadrado pela racionalídade do capitalismo moderno burocratizado, atua mais no sentido de uma redução da independência e da criatividade das pessoas. Assim as cidades novas de hoje retratam claramente a tendência totalitária da organização da vida pelo capitalismo moderno: os indivíduos isolados (geralmente isolados no âmbito da célula familiar) vêem, nesse gênero de cidade, sua vida reduzida à pura trivialidade da repetição, junto com a assimilação obrigatória de um espetáculo igualmente repetitivo.
Parece portanto que a censura que as pessoas exercem sobre a questão de sua própria vida cotidiana se explica pela consciência de sua insustentável miséria, bem como pela sensação talvez inconfessada mas inevitavelmente experimentada, de que todas as verdadeiras possibilidades, todos os desejos que foram impedidos pelo funcionamento da vida social, estavam nela, e não nas atividades ou distrações especializadas, Isto é, o conhecimento da riqueza profunda, da energia perdida na vida cotidiana, é inseparável do conhecimento da miséria da organização dominante dessa vida: só a existência perceptível dessa riqueza inexplorada leva a definir por contraste a vida cotidiana como miséria e como prisão; depois, no mesmo impulso, leva a negar o problema.
Em tais condições, ocultar a questão política suscitada pela miséria da vida cotidiana equivale a ocultar a profundidade das reivindicações relativas à riqueza possível de nossa vida; reivindicações que levariam forçosamente a reinventar a revolução. Neste aspecto, a fuga à política não é contraditória com o fato de ser militante do Partido Socialista Unificado, por exemplo, ou de ler com confiança o jornal L'Humanité.
Tudo depende efetivamente do nível em que se ousa formular o problema: como vivemos? Como ficamos satisfeitos? Insatisfeitos? Isso sem nos deixarmos nunca intimidar pelas diversas formas de publicidade que visam a persuadir que o homem pode ser feliz por causa da existência de Deus, ou do dentifrício Colgate, ou do CNRS [Centro Nacional da Pesquisa Científica, da França].
Parece-me que a expressão "critica da vida cotidiana" poderia, e deveria, também harmonizar-se com essa inversão: seria a critica que a vida cotidiana exerceria, soberanamente, sobre tudo o que lhe é inutilmente exterior.
A questão do uso dos meios técnicos, na vida cotidiana e alhures, é mera questão política (e, entre todos os meios técnicos existentes, os que são utilizados são de fato selecionados de acordo com os objetivos de manutenção da predominância de uma classe). Quando se considera a hipótese de um futuro, tal como é pensado pela literatura de ficção científica no qual aventuras interstelares coexistem com uma vida cotidiana mantida nesta terra com a mesma indigência material e o mesmo moralismo arcaico, isso significa, exatamente, que ainda haveria uma classe de dirigentes especializados, mantendo a seu serviço as massas proletárias das fábricas e dos escritórios; e que as aventuras interstelares seriam apenas a empresa escolhida por esses dirigentes, a maneira que teriam achado para desenvolver sua economia irracional, o cúmulo da atividade especializada.
Já foi perguntado: "A vida privada está privada de quê?" Da vida, que dela está cruelmente ausente. As pessoas também estão privadas ao máximo de comunicação; e de realização pessoal. Caberia dizer: não podem fazer, pessoalmente, sua própria história. As hipóteses para responder de modo positivo a essa questão sobre a natureza da privação só podem ser enunciadas sob a forma de projetos de enriquecimento: projetos de outro estilo de vida; ou seja, de um estilo... Ou então, se considerarmos que a vida cotidiana está na fronteira entre o setor dominado e o setor não dominado da vida, ou seja, o lugar do aleatório, será preciso substituir o presente gueto por uma fronteira sempre deslocável; trabalhar sem esmorecer para organizar novas oportunidades.
A questão da intensidade do vivido aparece hoje, por exemplo, com o uso da droga, nos mesmos termos com que a sociedade da alienação consegue formular qualquer questão: isto é, em termos de falso reconhecimento de um projeto falsificado, em termos de fixação e de apego. Convém notar também a que ponto a imagem do amor, elaborada e divulgada nesta sociedade, é parecida com a da droga. Nela, a paixão é primeiro reconhecida como recusa de todas as outras paixões; depois, é impedida e, afinal, só se encontra nas compensações do espetáculo reinante. La Rochefoucauld escreveu: "Quase sempre o que nos impede de entregarmonos a um vício é o fato de termos vários". Eis uma constatação muito positiva se, deixando de lado os pressupostos moralistas, a pusermos de pé, como base de um programa de realização das capacidades humanas.
Todos esses problemas estão na ordem do dia porque, visivelmente, nosso tempo é dominado pelo surgimento do projeto, defendido pela classe operária, de abolir toda a sociedade de classes e de começar a história humana; projeto dominado portanto, como corolário, por uma resistência encarniçada, bem como pelos desvios e fracassos que até o momento enfrentou.
A atual crise da vida cotidiana se inscreve nas novas formas de crise do capitalismo, formas que passam despercebidas a quem só pensa em computar a chegada das próximas crises cíclicas da economia.
O desaparecimento, no capitalismo desenvolvido, de todos os antigos valores, de todas as referências da antiga comunicação, bem como a impossibilidade de substituí-los por outros, sejam eles quais forem, antes de terem dominado racionalmente, na vida cotidiana e alhures, as novas forças industriais que nos escapam cada vez mais, são fatos que produzem não apenas a insatisfação quase oficial de nossa época, insatisfação muitíssimo aguda entre os jovens, mas também o movimento de autonegação da arte. A atividade artística sempre fora a única a explicar os problemas clandestinos da vida cotidiana, embora do forma velada, deformada, parcialmente ilusória. Diante dos olhos, temos o testemunho da destruição de toda a expressão artística moderna: é a arte moderna.
Se considerarmos a crise da sociedade contemporânea em toda extensão, não creio que ainda seja possível olhar os lazeres como uma negação do cotidiano. Admitimos que era preciso "estudar o tempo perdido". Mas vejamos a evolução dessa idéia de tempo perdido. Para o capitalismo clássico, o tempo perdido é aquele que é exterior à produção, à acumulação, à poupança. A moral leiga, ensinada nas escolas da burguesia, implantou essa regra de vida. Mas acontece que o capitalismo moderno, por uma manobra inesperada, preci sa aumentar o consumo, "elevar o nível de vida" (não esquecer que essa expressão é inteiramente destituída de sentido). Como, ao mesmo tempo, as condições da produção, parcelar e cronometrada ao extremo, tornaram-se indefensáveis, a moral que já existe na publicidade, na propaganda e em todas as formas do espetáculo dominante admite, ao contrário, que o tempo perdido é o do trabalho, agora justificado apenas pelos vários graus do que se ganha e que permite comprar descanso, consumo, lazer - isto é, uma passividade cotidiana fabricada e controlada pelo capitalismo.
Agora, se considerarmos a facticidade dos imperativos do consumo criados e estimulados pela indústria moderna - se reconhecermos o vazio dos lazeres e a impossibilidade de descanso -, a pergunta pode ser formulada de modo mais realista: o que não é tempo perdido? Ou seja: o desenvolvimento de uma sociedade da abundância deve chegar à abundância de quê?
Isto pode servir de critério para muita coisa. Quando, por exemplo, num dos jornais onde se exibe a inconsistência dos chamados intelectuais de esquerda - refiro-me a France-Observateur - vê-se um título que anuncia algo como "o carro de passeio ataca o socialismo", diante de um artigo explicando que os russos já buscam individualmente, a exemplo dos americanos, um consumo particular dos bens e que começam naturalmente pelo carro, é o caso de se pensar que nem era necessário ter assimilado, depois de Hegel, toda a obra de Marx para perceber que um socialismo que se enfraquece porque o carro de passeio invadiu o mercado nada tem a ver com o socialismo pelo qual o movimento operário lutou. De modo que não é a um estágio da táti(a OU do dogmatismo dos dirigentes burocráticos da Rússia que nos devemos opor, mas à base, àquilo que faz com que a vida das pessoas não mude efetivamente de sentido, E não se trata da fataçodade obscura da vida cotidiana, condenada a permanecer reacionária. E uma fatalidade imposta exteriormente à vida cotidiana, em todos os aspectos, pela esfera reacionária dos dirigentes especializados, seja qual for a etiqueta sob a qual eles planificam a miséria.
A atual despolitizaçâo de muitos ex-militantes de esquerda, o afastar-se de uma certa alienação para atirar-se noutra, a da vida privada, não tem tanto o sentido de um retorno à privatizaçâo como refúgio contra as "responsabilidades da historicidade", mas o de um afastamento do setor político especializado, e sempre manipulado por outros; setor em que a única responsabilidade verdadeiramente assumida foi a de deixar todas as responsabilidades nas mãos de chefes sem controle; onde o projeto comunista foi enganado e desiludido. Assim como não se pode opor como um todo a vida privada à vida pública, sem perguntar: qual vida privada? qual vida pública? (porque a vida privada contém os fatores de sua negação e de sua superação tanto como a ação coletiva revolucionária pôde alimentar os fatores de sua degenerescência), também não se pode fazer o balanço de uma alienação dos indivíduos na política revolucionária por se tratar da alienação da própria política revolucionária. É justo considerar de modo dialético o problema da alienação, assinalar as possibilidades de alienação sempre renovadas na própria luta travada contra a alienação, mas convém enfatizar que tudo isso deve ser aplicado no mais alto nível de pesquisa (por exemplo, a filosofia da alienação no seu todo), e não no nível do estalinismo, cuja explicação é infelizmente mais grosseira.
A civilização capitalista ainda não foi superada em nenhum lugar mas continua a produzir inimigos. A próxima tentativa do movimento revolucionário, radicalizado pelas lições dos anteriores fracassos, e cujo programa reivindicatório deverá enriquecer-se na proporção dos poderes práticos da sociedade moderna poderes que desde já constituem virtualmente a base material que faltava às correntes chamadas utópicas do socialismo -, essa próxima tentativa de total contestação do capitalismo saberá inventar e propor um outro uso da vida cotidiana, e logo se apoiará em novas práticas cotidianas, em novos tipos de relações humanas (não ignorando que o que se conservar, no interior do movimento revolucionário, das relações dominantes na sociedade existente levará insensivelmente a reconstituir, com diversas variantes, essa mesma sociedade).
Assim como outrora a burguesia, em sua fase ascendente, teve de liquidar de modo impiedoso tudo o que ultrapassava a vida terrena (o Céu, a eternidade), assim também o proletariado revolucionário - que nunca poderá admitir, sem deixar de existir como tal, um passado ou modelos terá de renunciar a tudo o que ultrapassa a vida cotidiana. Ou que pretende ultrapassá-la: o espetáculo, o gesto ou a palavra "históricos", a "grandeza" dos dirigentes, o mistério das especializações, a "imortalidade" da arte e sua importância exterior à vida. O que significa: renunciar a todos os subprodutos da eternidade que sobreviveram como armas no mundo dos dirigentes.
A revolução na vida cotidiana, quebrando sua atual resistência no histórico (e a todo tipo de mudança), criará condições tais que o presente consiga dominar o passado, e que a parte da criatividade ganhe da repetitividade. É de se esperar que o lado da vida cotidiana expresso pelos conceitos da ambiguidade - malentendido, comprometimento, abuso - perca a importância, em proveito de seu oposto, a escolha consciente ou o desafio.
O atual questionamento artístico da linguagem, contemporâneo da metalinguagem das máquinas, que é a linguagem burocratizada da burocracia no poder, seá então superado por formas superiores de comunicação. A presente noção de texto social decifrável deverá chegar a novos processos de escrita desse texto social, na direção daquilo que buscam atualmente meus camaradas situacionistas com o urbanismo unitário e o esboço de um comportamento experimental. A produção central de um trabalho industrial inteiramente reconvertido provocará o arranjo de novas configurações da vida cotidiana, a criação livre de acontecimentos.
A crítica e a perpétua recriação de toda a vida cotidiana, antes de serem feitas naturalmente por todos os homens, devem ser empreendidas nas condições da presente opressão, a fim de derrubar essas condições.
Não é um movimento cultural de vanguarda, mesmo com pretensões revolucionárias, que pode realizar isso. Tampouco um partido revoluciotiárioo de modelo tradicional, mesmo que conceda atenção à crítica da cultura (entendendo por esse termo o conjunto dos instrumentos artísticos ou conceptuais pelos quais uma sociedade explica a si mesma e se oferece objetivos de vida). Tal cultura como tal política estão desgastadas, e não é sem motivo que a maioria das pessoas perdeu o interesse por elas. A transformação revolucionária da vida cotidiana não está reservada a um vago futuro: apresenta-se a nós como urgente, diante do desenvolvimento do capitalismo e suas insuportáveis exigências; a alternativa seria o reforço da escravidão moderna. Essa transformação revolucionária marcará o fim de toda expressão artística unilateral, armazenada sob a forma de mercadoria, simultâneo ao fim de toda política especializada.
Será essa a primeira tarefa da organização revolucionária de um novo tipo.
Guy-Ernest Debord
IS número 6, agosto de 1961
Esta palestra foi feita, por meio de um gravador, em 17 de maio de 1961, no Groupe de Recherches sur la vie quotidienne [grupo de pesquisa sobre a vida cotidiana] reunido por H. Lefebvre no Centre d'étudies sociologiques do CNRS.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Você sempre pode voltar para casa
Ela vai até a varanda. Seus olhos lacrimejam...
...enquanto o rapaz acena dizendo adeus
Silenciosamente ela faz uma prece...
...pedindo que Deus o proteja em sua partida
Ela se aproxima e fala com ele a sós:
"Filho nunca se esqueça, você pode sempre voltar para casa.
Qualquer hora, seja lá onde estiver, qualquer dificuldade que enfrentar
Não importa onde esteve nem o que fez,
se não tiver mais nada e estiver procurando descanso
Lembre-se filho, Você pode sempre voltar para casa"
Acossado em uma viela, faminto, cansado e com frio
Depois de tantos anos vivendo no mundo
De repente os pensamentos dele voltam
Ao dia em que deixou a casa de seus pais
E àquilo que sua mãe disse-Ihe antes dele sair
"Filho nunca se esqueça, Você pode sempre voltar para casa.
Qualquer hora, seja lá onde estiver, qualquer dificuldade que enfrentar
Não importa onde esteve nem o que fez
se não tiver mais nada e estiver procurando descanso
Lembre-se filho, Você pode sempre voltar para casa"
Pródigos, imploro-Ihes. Não vão tão longe
Há um lugar onde você é amado como você é.
É o único lugar na terra
Onde você pode estar seguro de não se decepcionar
A porta é grande, a luz sempre esta acesa
"Filho nunca se esqueça, Você pode sempre voltar para casa.
Qualquer hora, seja lá onde estiver, qualquer dificuldade que enfrentar
Não importa onde esteve nem o que fez
se não tiver mais nada e estiver procurando descanso
Lembre-se filho, Você pode sempre voltar para casa
Lembre-se filho, Você pode sempre voltar para casa"
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Lula: O Grande Engodo
Nas rudes caatingas do nordeste, uma égua, cavalo, burro ou jumento, desacostumado ou incomodado pela montaria ou pela carga, às vezes pela própria natureza rebelde, recebe o nome de "animal de choto ruim". Só quem já montou sabe do desconforto em cima de um bicho desse. Mas mesmo que seja "de choto bom" é sempre um incômodo montar "em pêlo". Daí o uso do "pelego", uma pele de lã bem grossa e macia que abranda o atrito entre o lombo da montaria e as nádegas do cavaleiro.
Lula entrará para a história como o maior arquipelego da história do Brasil. Feito sob medida, por encomenda dos oligarcas do sul, dos coronéis do nordeste, dos latifundiários do norte, e dos chefes das forças armadas que 20 anos depois do golpe militar temiam pelo próprio pescoço.
A pressão para o fim da ditadura alcançava seu apogeu no início dos anos 80. A elite brasileira sentia o chão tremer e os trogloditas militares apavoraram-se diante da crescente e cada vez mais incontrolável organização popular que pipocava por toda parte. Um dos maiores barris de pólvora do mundo estava prestes a explodir. Algo precisava ser feito logo para conter as multidões organizadas de revoltosos nas periferias, no campo, na floresta, nos grandes centros urbanos.
Lula foi o grande achado. Em público sempre surgia com um discurso revolucionário, clamando por justiça, igualdade, crítica feroz à "burguesia". Um discurso convincente, impecável, emocionante, de provocar lágrimas. Discurso que mudava ao cair da noite, ao entrar nas "negociações", protegidas pelas quatro paredes, regadas com cachaça, reforçadas com malas recheadas de dinheiro, e muitas, muitas promessas de poder, glória e fama. Por ouro, glória, fama e poder, ele vendeu a alma ao diabo. Um dia a tampa da fossa será aberta pela história, então conheceremos o verdadeiro Luiz Inácio da Silva, o Dorian Gray da política e do movimento sindical brasileiro.
Um pelego monumental. Uma pele estofada de lã, deliciosamente macia. O cavalo, mesmo o mais reticente, sentia apenas o peso do cavaleiro, mas quase sem atrito. E o cavaleiro viu-se confortável. Podia sossegar. Os ossos e o balanço desengonçado do animal já não incomodava. Poderia percorrer longas viagens, tranquilo. O bicho estava finalmente domado, controlado e amansado.
O pelego perfeito. O remédio tão procurado. O cavalo poderia trotar por grandes distâncias, por caminhos diversos, e quase não sentiria a esfregação do cavaleiro. Que cavalo poderia reclamar? Que moral qualquer montaria teria de reclamar de sua situação? Antes recebia uma ração de R$1,00 por dia, agora recebe uma ração quatro vezes melhor! E Lula chora, se emociona, e chama a atenção pela sua grandiosidade. O cafageste!
E assim foi até o último sábado quando, aparentemente, esse arquipelego foi retirado e substituído por outro. Sobre a eficiência e a durabilidade do velho pelego, não há dúvidas. Está acima de qualquer crítica. O controle de qualidade foi impecável. Quanto ao novo pelego, dona Dilma, que no último sábado substituiu o velho, seu Lula, há comentários e perspectivas das mais diversas. Alguns dizem que pode durar 4 ou até mesmo 8 anos, funcionando ainda melhor do que o antigo. Outros dizem que não, que pode romper-se a curto prazo. Não é todo dia e em qualquer lugar que se encontra um pelego tão bom, tão durável, tão próximo da perfeição como o arquipelego Lula, ele pode voltar.
Lula entrará para a história como o maior arquipelego da história do Brasil. Feito sob medida, por encomenda dos oligarcas do sul, dos coronéis do nordeste, dos latifundiários do norte, e dos chefes das forças armadas que 20 anos depois do golpe militar temiam pelo próprio pescoço.
A pressão para o fim da ditadura alcançava seu apogeu no início dos anos 80. A elite brasileira sentia o chão tremer e os trogloditas militares apavoraram-se diante da crescente e cada vez mais incontrolável organização popular que pipocava por toda parte. Um dos maiores barris de pólvora do mundo estava prestes a explodir. Algo precisava ser feito logo para conter as multidões organizadas de revoltosos nas periferias, no campo, na floresta, nos grandes centros urbanos.
Lula foi o grande achado. Em público sempre surgia com um discurso revolucionário, clamando por justiça, igualdade, crítica feroz à "burguesia". Um discurso convincente, impecável, emocionante, de provocar lágrimas. Discurso que mudava ao cair da noite, ao entrar nas "negociações", protegidas pelas quatro paredes, regadas com cachaça, reforçadas com malas recheadas de dinheiro, e muitas, muitas promessas de poder, glória e fama. Por ouro, glória, fama e poder, ele vendeu a alma ao diabo. Um dia a tampa da fossa será aberta pela história, então conheceremos o verdadeiro Luiz Inácio da Silva, o Dorian Gray da política e do movimento sindical brasileiro.
Um pelego monumental. Uma pele estofada de lã, deliciosamente macia. O cavalo, mesmo o mais reticente, sentia apenas o peso do cavaleiro, mas quase sem atrito. E o cavaleiro viu-se confortável. Podia sossegar. Os ossos e o balanço desengonçado do animal já não incomodava. Poderia percorrer longas viagens, tranquilo. O bicho estava finalmente domado, controlado e amansado.
O pelego perfeito. O remédio tão procurado. O cavalo poderia trotar por grandes distâncias, por caminhos diversos, e quase não sentiria a esfregação do cavaleiro. Que cavalo poderia reclamar? Que moral qualquer montaria teria de reclamar de sua situação? Antes recebia uma ração de R$1,00 por dia, agora recebe uma ração quatro vezes melhor! E Lula chora, se emociona, e chama a atenção pela sua grandiosidade. O cafageste!
E assim foi até o último sábado quando, aparentemente, esse arquipelego foi retirado e substituído por outro. Sobre a eficiência e a durabilidade do velho pelego, não há dúvidas. Está acima de qualquer crítica. O controle de qualidade foi impecável. Quanto ao novo pelego, dona Dilma, que no último sábado substituiu o velho, seu Lula, há comentários e perspectivas das mais diversas. Alguns dizem que pode durar 4 ou até mesmo 8 anos, funcionando ainda melhor do que o antigo. Outros dizem que não, que pode romper-se a curto prazo. Não é todo dia e em qualquer lugar que se encontra um pelego tão bom, tão durável, tão próximo da perfeição como o arquipelego Lula, ele pode voltar.
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