terça-feira, 7 de outubro de 2008

Quantos tipos de anarquismo existem?


 

Introdução 
A.3.1 Quais são as diferenças entre individualistas e anarquistas sociais?
 
A.3.2 Existem quantos tipos de anarquismo social?
 
A.33. Existem quantos tipos de anarquismo verde?
 
A.3.4 O anarquismo é pacifista?
 
A.3.5 Que é Anarcofeminismo?
 
A.3.6 Que é Anarquismo Cultural?
 
A.3.7 Existem anarquistas religiosos?
 
A.3.8 Que é "anarquismo sem adjetivos"?
 


  
 

Introdução

Anarquistas, em geral podem ser caracterizados por algumas idéias chave, podem ser agrupados em diversas categorias, dependendo da organização econômica a qual consideram ser a mais determinante para a liberdade humana. Contudo, todos os tipos de anarquistas possuem uma base comum. Segundo Rudolf Rocker:


"De acordo com os fundadores do socialismo, os anarquistas almejam a abolição de todos os monopólios econômicos, e a propriedade coletiva da terra e de todos os meios de produção, para que estejam à disposição de todos sem distinção; a liberdade pessoal e social é concebível apenas em uma base de igualdade econômica para todos.

Dentro do movimento socialista os anarquistas adotam o ponto de vista de que a guerra contra o capitalismo precisa ser ao mesmo tempo uma guerra contra todas as instituições que representam alguma forma de poder político, pois a história da exploração econômica sempre andou lado a lado com a opressão política e social. A exploração do homem pelo homem e a dominação do homem sobre o homem são inseparáveis, uma não existe sem a outra. " [Anarcho-Syndicalism, pp. 17-18]


Estes são os pontos em que os anarquistas concordam. As diferenças mais visíveis estão entre os anarquistas “individualistas” e “sociais"embora a idealização das concepções econômicas de cada um não sejam mutuamente exclusivas. Dos dois, os anarquistas sociais (comunistas-anarquistas, anarcossindicalistas e outros) sempre se constituíram na vasta maioria, sendo que o anarquismo individual ficou mais restrito aos Estados Unidos.

Nesta seção mostramos as diferenças que permeiam o movimento anarquista. Para deixar claro, tanto o anarquismo social como o anarquismo individual ambos se opõem ao estado e ao capitalismo, a discordância se situa na natureza da futura sociedade livre (e em como ela será alcançada)

Resumidamente, os anarquistas sociais preferem soluções comunais para os problemas sociais e visões comunais de uma sociedade ideal (isto é, uma sociedade que protege e encoraja a liberdade dos indivíduos). Anarquistas individualistas, como o nome sugere, preferem soluções individuais e tem uma visão mais individualista dessa sociedade. Contudo, precisamos não esquecer que tais diferenças de ambas as escolas não ocultam o que elas têm em comum, principalmente o desejo de maximizar a liberdade individual e acabar com a exploração, o domínio estatal e o capitalismo. 
 

Além dessa discordância, os anarquistas também discordam em assuntos como sindicalismo, pacifismo, "estilo de vida", direitos animais e outras idéias, mas estes pontos, embora importantes, são apenas diferentes aspectos do anarquismo.  Neste contexto de idéias chaves, o movimento anarquista (como a própria vida) está em constante estado de mudança, discussão e pensamento -- o que é de se esperar em um movimento cujo valor mais alto é a liberdade. 
 

Colocando nossas cartas na mesa, os escritores deste FAQ consideram-se a si mesmos como da parte "social" do anarquismo. Isto não significa que nós desprezamos as muitas importantes idéias associadas com anarquismo individualista, apenas achamos que o anarquismo social é mais apropriado para a sociedade moderna, e que ele cria uma forte base para a liberdade individual, e que mais reflete o tipo de sociedade que nós gostaríamos de viver. 
 

A.3.1 Quais são as diferenças entre individualistas e anarquistas sociais?

Existe uma tendência ao individualismo em ambos os campos uma vez que ambos rejeitam qualquer tipo de estado, as diferenças entre individualistas e anarquistas sociais não são muito grandes. Ambos são antiestado, antiautoritários e anticapitalistas. As maiores diferenças estão na forma.

A primeira linha de pensamento refere-se ao significado da ação no aqui e no agora (e quanto à maneira em que a anarquia será aplicada). 
Individualistas geralmente preferem educação e a criação de instituições alternativas, como fundos de ajuda mútua, sindicatos, comunas, etc. Geralmente defendem greves e outras formas não violentas de protesto social (como boicotes, não pagamento de impostos e coisas assim).

Tais atividades, argumentam, ajudarão a presente sociedade gradualmente a se afastar de qualquer sistema de governo em direção a um autogoverno anarquista. 


Inicialmente evolucionistas, não revolucionários, os anarquistas sociais passaram a adotar táticas de ação direta pra criar situações revolucionárias. Eles consideravam a revolução conflitante com os princípios anarquistas por envolver a expropriação da propriedade capitalista e, portanto, meios autoritários.

Depois dariam de volta à sociedade toda a riqueza subtraída dessa sociedade pela propriedade dos meios de produção em um novo e alternativo sistema econômico, baseado em fundos de apoio mútuo [mutual banks] e cooperativas. Dessa forma, seria efetuada uma "liquidação social" com o anarquismo sendo implantado pela reforma e não pela expropriação. 
 

A maioria dos anarquistas sociais reconhece a necessidade da educação e de criar alternativas (como sindicatos libertários), mas qualquer desacordo nesse campo por si só é suficiente. Eles não acreditam que o capitalismo possa ser reformado peça por peça até chegar ao anarquismo, embora eles não ignorem a importância das reformas para a luta social incremente as tendências sociais sobre o capitalismo.

Isso não significa que o pensamento revolucionário esteja em contradição com os princípios anarquistas, da mesma forma que não é autoritarismo destruir a autoridade (seja ela estatal ou capitalista). A expropriação da classe capitalista e a destruição do estado pela revolução social é um ato libertário, não autoritário, ato tão natural quanto se opor àqueles que governam e exploram a vasta maioria.

Com efeito, os anarquistas sociais são em geral evolucionistas e revolucionários, tentando fortalecer as tendências libertárias dentro do capitalismo ao mesmo tempo em que tentam aboli-lo pela revolução social. Embora alguns anarquistas sociais sejam exclusivamente evolucionistas, este fato não se constitui por si só na diferença mais importante entre anarquistas e individualistas. 
 

A segunda maior diferença relaciona-se à forma como a economia anarquista é proposta. Individualistas preferem um sistema de distribuição [com base no mercado] voltado para o sistema anarquista [com base na necessidade] social. 
Ambos concordam que o atual sistema de direitos de propriedade capitalista precisa ser abolido e o direito de uso precisa substituir os direitos de propriedade (isto é, a abolição do aluguel, do juro e dos lucros, da "usura", o termo preferido pelos anarquistas individualistas para esta maldita trindade).
 
 

Com efeito, ambas as escolas se baseiam na obra clássica de Proudhon Que é Propriedade? e argumentam que a posse substitui a propriedade em uma sociedade livre (veja seção B.3 para uma discussão de pontos de vista anarquistas sobre a propriedade).

Diante da bandeira dos direitos de uso, as duas escolas do anarquismo propõem sistemas diferentes. O anarquismo social em geral defende a autogestão comunal (ou social) e uso. Isto envolveria autogestão social dos meios de produção e distribuição, com possessões pessoais significando coisas de uso, mas não aquilo que foi usado para criá-las ("seu relógio é seu relógio, mas a fábrica de relógios pertence ao povo." [Alexander Berkman, The ABC of Anarchism, p. 68])

"O uso efetivo", argumenta Berkman, "será considerado o único documento -- não apenas para a autogestão mas também para a posse. A organização de carvão mineral, por exemplo, estará a cargo dos mineiros de carvão, não como proprietários mas como agentes operacionais [...] A posse coletiva, administrada cooperativamente no interesse da comunidade, tomará o lugar da gestão privada conduzida pelo lucro." [Op. Cit., p. 69]

Este sistema seria baseado em trabalhadores autogeridos em seu trabalho e (para a maioria dos anarquistas sociais) a livre distribuição do fruto do trabalho (isto é, um sistema econômico sem dinheiro). Alguns anarquistas sociais, como os mutualistas, são contra esse sistema de comunismo libertário (ou livre), mas, em geral, a grande maioria dos anarquistas sociais almeja o fim do dinheiro e, consequentemente, da compra e da venda.

Em contraste, os anarquistas individualistas acham que esse sistema de direitos de usufruto inclui o produto de seu trabalho. Defendendo uma gestão social, anarquistas individualistas propõem um sistema baseado no mercado em que trabalhadores possam dispor de seus próprios meios de produção e trocar o produto de seu trabalho livremente com outros trabalhadores. Eles argumentam que isto não se trata de capitalismo, mas do verdadeiro mercado livre.

Com o tempo, os capitalistas através do estado distorceram o mercado pra criar e proteger seu poder econômico e social (disciplina do mercado para as classes trabalhadoras, em outras palavras, ajuda estatal para as classes dominantes). Este estado criou monopólios (de dinheiro, terras, tarifas e patentes) e a proteção dos direitos de propriedade capitalista pelo estado que constituem o suporte das desigualdades econômicas e da exploração.

Com a abolição do governo, uma real livre competição resultaria e significaria o fim do capitalismo e da exploração capitalista (veja o ensaio de Benjamim tucker State Socialism and Anarchism como um excelente sumário deste argumento).

Os anarquistas individualistas argumentam que os meios de produção (terras trabalhadas) são o produto do trabalho individual e apenas eles estão habilitados a vender os meios de produção que eles usam se desejarem. Contudo, eles rejeitam o direito de propriedade capitalista e defendem um sistema de "ocupação pelo uso". Se os meios de produção, como a terra, não estão sendo usados, passarão a ser de propriedade comunal a disposição dos interessados para uso. Eles imaginam este sistema, chamado de mutualismo, como o consequencia do controle dos trabalhadores na produção e o fim da exploração capitalista e da usura.

Esta segunda diferença é a mais importante. Os individualistas temem ser forçados a participar de uma comunidade e com isso perder sua liberdade (incluindo a liberdade de trocar livremente seus produtos uns com os outros).

Max Stirner colocou sua posição com clareza quando argumentou que "O comunismo, pela abolição de toda propriedade pessoal, me tornará ainda mais dependente dos outros, tanto no geral como no coletivo [...]", uma condição que vai tolher a liberdade de meus movimentos, um poder invisível sobre mim. O comunismo revolta pela pressão que exerce contra a propriedade individual, mas muito mais horrível é este poder colocado nas mãos da coletividade. " [The Ego and Its Own, p. 257]

Proudhon também argumentou contra o comunismo, afirmando que a comunidade torna-se o proprietária sob o comunismo e que tanto o capitalismo como o comunismo são baseados na propriedade e, portanto, na autoridade (veja a seção “Características do comunismo e da propriedade" em Que é Propriedade?).

Também os anarquistas individualistas argumentam que a gestão social coloca a liberdade individual em perigo como uma forma de comunismo que submete o indivíduo à sociedade ou à comuna.

Eles temem que, através de uma forma de moralidade individual, a socialização neutralize o controle dos trabalhadores, passando essa "sociedade" a lhes dar ordens sobre o que produzir e o que fazer com o produto de seu trabalho. De qualquer forma, isso reforça o argumento de que o comunismo ou a gestão social em geral seria muito parecido com o capitalismo, através da exploração e da autoridade dos gestores repassados àquela "sociedade".

Desnecessário dizer que os anarquistas sociais não concordam com isso. Eles argumentam que os comentários de Stirner e Proudhon estão totalmente corretos --, mas apenas no que diz respeito ao comunismo autoritário.

Conforme Kropotkin argumenta, "antes e em 1848, a teoria [do comunismo] foi colocada em cheque por Proudhon no que diz respeito a seus efeitos sobre a liberdade. A velha idéia de Comunismo como sendo um amontoado de comunidades monásticas sob o governo de velhos ou de homens da ciência. O último vestígio de liberdade e da energia individual seria destruído, se a humanidade se tornasse esse tipo de comunismo." [Faça você mesmo, p. 98] Kropotkin sempre defendeu o anarco-comunismo tal qual despontou a partir de 1870, é importante destacar que Proudhon e Stirner não podem ser considerados frontalmente contra coisas às quais eles não tinham familiaridade.

Mesmo que se submetesse o individuo à comunidade, os anarquistas sociais argumentam que a autogestão comunal proveria as eventuais necessidades de proteção à liberdade individual em todos os aspectos da vida pela abolição do poder da propriedade privada, em todas suas formas e manifestações. Além do mais, mesmo que fosse abolida toda a "propriedade", o anarco-comunismo reconheceria a importância da posse e do espaço individual. Tanto que Kropotkin arguia contra formas de comunismo que

"Administrar uma comunidade sob o modelo de vida familiar... todos na mesma casa e ... forçar seus membros a encontrar-se continuamente com os mesmos 'irmãos e amigos'... é um erro fundamental pois impõe a todos a 'grande família' e não consegue garantir uma maior liberdade, nem um lar para cada indivíduo."[Small Comunal Experiments and Why They Fail, pp. 8-9O alvo do anarco-comunismo é, citando o próprio Kropotkin, um lugar onde "os frutos da produção estão a disposição de todos, tendo cada um a liberdade para consumi-los e disponibilizá-los em sua própria casa." [The Place of Anarchism in the Evolution of Socialist Thougtht, p. 7] -- Esse espaço para a expressão individual, tanto no consumo como na produção, tem sido amplamente apoiado por trabalhadores autogestionados.

Para o anarquista social, a oposição do anarquista individualista ao comunismo é válida apenas no que diz respeito ao Estado ou ao Comunismo autoritário e ignora a natureza fundamental do anarco-comunismo. Anarco-comunistas não sufocam a individualidade com a comunidade mas pelo contrário usam a comunidade para defender a individualidade. Em vez de a "sociedade" controlar o individuo, o anarcoindividualista a protege, o anarquismo social caracteriza-se pela importância que dá à individualidade e à expressão individual:


"O anarco-comunismo preserva a mais valorosa de todas as conquistas -- a liberdade individual -- e mais do que isso, a amplia e dá a ela uma base sólida -- liberdade econômica -- sem a qual a liberdade política é uma ilusão; ela não pede ao indivíduo para que rejeite deus, a tirania universal, o deus rei, o deus parlamento, para dar a si mesmo um deus mais terrível que seus predecessores -- o deus Comunidade, ou abdicar de sua própria independência, de seu futuro, de seus desejos. Pelo contrário, 'nenhuma sociedade é livre enquanto houver um indivíduo que não o seja! [...] '" [Op. Cit., pp. 14-15]

 

Acrescente-se a isto que os anarquistas sociais sempre reconheceram a necessidade da coletivização voluntária. Se as pessoas desejam trabalhar para si mesmas, isto não é visto como um problema (veja Kropotkin em A Conquista do Pão, p. 61 e Faça Você Mesmo, pp. 104-5 e Malatesta em Vida e Idéias, p. 99 e p. 103). Para os anarquistas sociais uma associação existe apenas o benefício dos indivíduos que a compõem; estes são os meios pelos quais as pessoas cooperam visando satisfazer as necessidades comuns. Portanto, todos os anarquistas enfatizam a importância da livre associação como a base de uma sociedade anarquista. Nisto todos concordam com Bakunin:

"Em uma comunidade livre, o coletivismo pode apenas surgir em função da pressão das circunstancias, não da imposição de cima, mas pela livre movimentação espontânea de baixo." [Bakunin e Anarquismo, p. 200]

Se individualistas desejam trabalhar para si mesmos e trocar seus bens uns com os outros, os anarquistas sociais não fazem nenhuma objeção. Uma vez que essas duas formas de anarquismo não são mutuamente exclusivas. Os anarquistas sociais apóiam o direito dos indivíduos não comungarem na comuna enquanto Anarquistas Individualistas e reconhecem o direito desses indivíduos se organizarem entre si em suas associações comunais.

Contudo, se, em nome da liberdade, um indivíduo exigir direitos de propriedade baseado na exploração do trabalho dos outros, os anarquistas sociais deverão rapidamente se opor a esta tentativa de recriação do estatismo em nome da "liberdade". Anarquistas não respeitam a "liberdade" de ser um governante! Nas palavras de Luigi Galleani: 
 

"No less sophistical is the tendency of those who, under the comfortable cloak of anarchist individualism, would welcome the idea of domination [...] But the heralds of domination presume to practice individualism in the name of their ego, over the obedient, resigned, or inert ego of others." [The End of Anarchism?, p. 40]

 

Para os anarquistas sociais, a idéia de que os meios de produção possam ser vendidos implica no risco de que a propriedade privada possa ser reintroduzida em uma sociedade anarquista. Em um livre mercado, alguns vingam outros falham. Se os competidores "fracassados" virarem desempregados eles poderiam vender seu trabalho para os "bem sucedidos" para poderem sobreviver. Isto criaria uma relação social de autoritarismo e de dominação via "livre contrato". A obrigatoriedade do cumprimento de tais contratos (ou coisa parecida), em todos seus aspectos, "abriria... o caminho para a reconstrução das bases daquilo que chamamos de Estado” [Peter Kropotkin, Kropotkin's Revolutionary Pamphlets, p. 297]

Benjamim Tucker, o anarquista mais influenciado pelas idéias do liberalismo e do livre mercado, também enfrentou os problemas associados com todas as escolas do individualismo abstrato -- particularmente, a aceitação das relações sociais autoritárias como uma expressão de "liberdade". Há certa semelhança disto com as relações entre a propriedade e o estado. Tucker argumentava que o estado se caracterizava por dois aspectos: a agressão e "a imposição da autoridade sobre uma determinada área e tudo que diz respeito a ela, é geralmente exercida com um duplo propósito: a mais completa opressão aos opositores e extensão de seus domínios". [Instead of a Book, p. 22]

Contudo, os produtores e os fazendeiros também tinham autoridade sobre uma determinada área (a propriedade em questão) e de tudo que estava sobre ela (trabalhadores e feitores), com a diferença que o controle formal das ações dos trabalhadores era regulado por leis estatais. Em outras palavras, a produção individual autogestionária em tais relações sociais é como se fosse um mini-estado, uma vez que se origina de uma mesma base (o monopólio do poder sobre uma determinada área e sobre aqueles que a utilizam)

Os anarquistas sociais argumentam que a aceitação do isolamento dos Anarquistas Individualistas e de suas concepções individualistas de liberdade individual pode desaguar num obstáculo à liberdade individual pela criação de relações sociais que são essencialmente autoritárias e estatistas por natureza. "Os individualistas, argumenta Malatesta, dão uma grande importância a um conceito abstrato de liberdade e erram quando não levam isso em consideração, esquecendo que o fato da real e concreta liberdade advêm da cooperação solidária e voluntária." [The Anarchist Revolution, p. 16] Esse procedimento coloca o trabalhador num nível e o administrador em outro, o cidadão num nível e o estado em outro, um sob o domínio  e sujeição do outro. Da mesma forma o capataz e o fazendeiro.

Esse tipo de relacionamento social não é em nada positivo e reproduz outros aspectos do estado. Conforme disse Albert Meltzer, isto pode parecer inócuo, mas tem sérias implicações, porque "a escola de Benjamim Tucker -- em função de seu individualismo -- aceita a necessidade da polícia para reprimir greves tanto quanto para garantir a "liberdade" dos empregados. Coisas como essas são aceitas pelos Individualistas confessos... a necessidade da força policial, de governo, só que a primeira definição de anarquismo é sem governo. [Anarchism: Arguments For and Against, p. 8] Isto explica em parte porque os anarquistas sociais defendem a gestão social como a melhor maneira de proteger a liberdade individual.

Aceitando a gestão individual este problema pode apenas ser "adiado" pela aceitação, como fez Proudhon (o suporte das idéias econômicas de Tucker), da necessidade de cooperativas para abrir espaços de trabalho que requer mais de um trabalhador. Isto naturalmente complementa seu apoio pela "ocupação e uso" da terra, que efetivamente aboliria os senhores da terra. Apenas quando as pessoas que usam um suporte próprio isto pode fazer com que a gestão individual não resulte em autoridade hierárquica (i.e. estatismo/capitalismo).

Esta solução, conforme indicado na seção G é uma das coisas que os Anarquistas Individualistas aprovam. Por exemplo, encontramos Joseph Labadie escrevendo para seu filho aconselhando-o a evitar qualquer forma de "dominação sobre os outros" [citado por Carlotta Abderson, All American Anarchist, p. 222] Como W. Gary Kline acertadamente observa os anarquistas individualistas dos US "fazem suas pontuações a partir de uma sociedade com pleno emprego e com nenhuma disparidade significante na distribuição da riqueza" [The Individualist Anarchists, p. 104] É nesta visão de uma sociedade de pleno emprego que tais idéias se tornam verdadeiramente anarquistas.

Quando os individualistas atacam a "usura", eles não levam em consideração o problema da acumulação do capital, que resulta em uma barreira natural que é a introdução do mercado, dessa forma recriam a usura em novas formas (veja seção C.4 "Por que o mercado foi dominado pelas grandes corporações?") ancorar um "livre mercado" em bancos, como defende Tucker e outros Anarquistas Individualistas, poderia resultar no domínio de alguns grandes bancos, cujo interesse econômico direto em apoiar capitalistas seria maior que simplesmente investir em cooperativas (que lhes dariam mais retorno que as cooperativas). A única solução real para esse problema seria através de uma comunidade autogestionária que administrasse os bancos, como originalmente desejou Proudhon.

É a percepção dessa semente de economia capitalista que faz com que os anarquistas sociais rejeitem o anarquismo individualista em favor do comunalismo, da descentralização, e da produção pela livre associação e trabalho cooperativo. (Para mais informações sobre as idéias dos anarquistas individualistas, veja seção G -  "O individualismo anarquista é capitalista?") 
 

A.3.2 Existem diferentes tipos de anarquistas sociais?

Sim. Os anarquistas sociais têm quatro vertentes maiores -- o mutualismo, o coletivismo, o comunismo e o sindicalismo. As diferenças não são grandes, pois dizem respeito apenas a diferenças estratégicas. Uma diferença que se destaca é entre os mutualistas e os outros tipos de anarquismo social. O mutualismo é baseado em uma forma de socialismo de mercado -- cooperativas de trabalhadores distribuem a produção via um sistema de bancos comunitários. Essa rede de bancos mútuos seria "formada por toda a comunidade, não para uma especial vantagem de algum indivíduo ou classe, mas para o benefício de todos [...] "[que] não tem outro objetivo [...] a não ser cobrir os riscos e bancar as despesas. [Charles A. Dana, Proudhon and his 'Bank of the People', pp. 44-45] Esse sistema poria um fim à exploração capitalista e à opressão "introduzindo o mutualismo no lugar do crédito, o trabalho assumiria um novo aspecto e se tornaria verdadeiramente democrático." [Op. Cit., p. 45]

A versão anarquista social do mutualismo difere da forma individualista pela comunidade local (ou comuna) ter seus próprios bancos mútuos independente de cooperativas. Isto significa que tais bancos provêem fundos de investimentos diretamente para os cooperados sem intermediários capitalistas. Outra diferença é que alguns anarquistas sociais mutualistas apóiam a criação do que Proudhon chamou de "Federação agro-industrial" como complemento da federação de comunidades libertárias (chamadas por Proudhon de comunas).

Esta "confederação [...]  teria como objetivo proporcionar segurança recíproca entre o comércio e a indústria" e desenvolvimento em larga escala como rodovias, ferrovias, etc. Com o propósito de "proteger os cidadãos dos estados federados [sic!] dos capitalistas e do feudalismo financeiro, interna e externamente". Isto porque"political right requires to be buttressed by economic right."  Dessa forma a federação agro-industrial seria uma ferramenta da natureza anarquista da sociedade contra os efeitos desestabilizantes das mudanças de mercado (que pode gerar variações inadequadas em riqueza e em poder).

Tal sistema seria um exemplo prático de solidariedade, como "as indústrias são como irmãs, elas são parte do mesmo corpo; nenhuma sofre sem que a outra sofra também. Seu conjunto forma uma federação, não para serem absorvidas e misturadas, mas para serem ordenadas no sentido de garantir mutuamente as condições necessárias para uma prosperidade comum [...] Uma harmonia que não menospreza sua condição de liberdade; pelo contrário, dá à liberdade mais segurança e força."  [The Principle of Federation, p. 70, p. 67 and p. 72]

As outras formas de anarquismo social não dariam este suporte mutualista para o mercado, mesmo as não capitalistas. Segundo eles, a liberdade seria mais servida pela produção comunal e pela troca de informações e produtos livremente entre as cooperativas. Em outras palavras, as outras formas de anarquismo social são baseadas na gestão (comum) ou social através de federações de associações de produtores e comunas em lugar do sistema mutualista de cooperativas individuais.

Nas palavras de Bakunin, a "futura organização social precisa ser construída em bases sólidas, por uma livre associação ou federação de trabalhadores, primeiro em seus sindicatos, depois em suas comunas, regiões, nações e finalmente em uma grande federação, internacional e universal" "a terra, os instrumentos de trabalho e todo e qualquer capital tornar-se-á propriedade coletiva a disposição da sociedade como um todo para ser utilizada apenas pelos trabalhadores, em outras palavras, pelas associações agrícolas e industriais." [Michael Bakunin: Selected Writings, p. 206 and p. 174] 

Apenas pela extensão destes princípios de cooperação entre os indivíduos em seus locais de trabalho é que se poderá maximizar a liberdade individual e proteger (veja seção I.1.3  porque a maioria dos anarquistas se opõe ao mercado). Essa era a idéia de Proudhon. As confederações industriais "garantiriam o uso mútuo dos meios de produção que seriam de propriedade de cada um desses grupos, ao mesmo tempo em que haveria um contrato recíproco tornando propriedade coletiva o conjunto... da federação. Dessa forma, os grupos federados seriam capazes de... regular o rateio da produção de forma a atender as flutuantes necessidades da sociedade." [James Guillaume, Bakunin on Anarchism, p. 376] 

Embora estes anarquistas apóiem os mutualistas enquanto trabalhadores autogeridos na produção cooperativa, vêem essas confederações e essas associações como sendo o ponto focal para a expressão do apoio mútuo, não o mercado. Autonomia local e autogestão seria a base de qualquer federação, a fim de que "os trabalhadores das mais variadas fábricas não troquem as mãos pelos pés assumindo o controle da produção como um poder superior e comecem a chamar-se a si mesmos de 'corporação'". [Op. Cit., p. 364] 

Em adição a essa federação industrial haveria também indústrias cruzadas e confederações de comunidades responsáveis por tarefas que não fossem da exclusiva jurisdição ou capacidade de alguma federação de indústria em particular ou de alguma área de natureza social. Novamente, aqui há similaridades com as idéias mutualistas de Proudhon. 

Os anarquistas sociais depositam uma grande confiança na gestão comum dos meios de produção (excluindo aqueles que são puramente individuais) e rejeitam a idéia individualista de que tais meios possam ser "vendidos" por aqueles que os utilizam. A razão (conforme observado anteriormente) é porque se isso for feito, o capitalismo e o estatismo poderiam voltar a tomar forma dentro da sociedade livre. Além do mais, outros anarquistas sociais não concordam com a idéia mutualista de que o capitalismo possa ser reformado em direção a um socialismo libertário pela introdução do banco mútuo. Para eles o capitalismo pode apenas ser substituído por uma sociedade livre através da revolução social. 

A maior diferença entre coletivistas e comunistas é sobre a questão do "dinheiro" após a revolução. Anarco-comunistas consideram a abolição do dinheiro como sendo essencial, enquanto os anarco-coletivistas consideram o fim da gestão privada dos meios de produção como sendo mais importante. Conforme relata Kropotkin, o anarquismo coletivista "expressa um estado de coisas em que tudo que for necessário para a produção estará disponível para todos através dos grupos de trabalho e das comunas livres, enquanto que as formas de retribuição do trabalho, comunistas ou outros, seriam determinadas por cada grupo envolvido." [Kropotkin's Revolutionary Pamphlets, p. 295] 

Dessa forma, tanto o coletivismo quanto o comunismo ambos organizariam a produção em comum via associação de produtores, eles diferem na forma como os bens produzidos seriam distribuídos. O comunismo é baseado no livre consumo de tudo enquanto que o coletivismo parece basear-se na distribuição de bens de acordo com trabalho efetuado. Por outro lado, os anarco-coletivistas pensam que, com o tempo, com o aumento da produtividade e com o fortalecimento do senso de comunidade, o dinheiro desaparecerá. Ambos concordam que, no final das contas, a sociedade funcionará de acordo com o que é sugerido pela máxima comunista: "Exigir de cada um conforme sua capacidade, e dar a cada um de acordo com suas necessidades". Eles apenas não concordam em como chegar rapidamente a esse ponto.

Os anarco-comunistas acham que depois da revolução "o comunismo - mesmo que parcial - tem mais chances de se estabelecer que o coletivismo”. [Op. Cit., p. 298] "Se abolirmos a gestão privada dos meios de produção, e em seguida voltarmos ao sistema de remuneração de acordo com o trabalho realizado, traremos de volta a desigualdade." [Alexander Berkman, The ABC of Anarchism, p. 80] Quanto mais rápido chegar-se ao comunismo, menores serão as chances do crescimento das desigualdades. 

O sindicalismo é a outra grande vertente do anarquismo social. Os anarcossindicalistas, como os outros sindicalistas, querem criar um movimento sindical industrial baseado em idéias anarquistas. Defendem a descentralização, sindicatos federados que usam a ação direta para se impor sobre o capitalismo até que estejam suficientemente fortes para aboli-lo. Sob os mais variados aspectos o anarcossindicalismo em muito se assemelha ao anarco-coletivismo. O anarcossindicalismo assume uma grande importância no que diz respeito ao trabalho anarquista dentro dos movimentos de trabalhadores e na criação de sindicatos que serão uma amostra do futuro livre da sociedade. 

Mesmo sob o capitalismo, os anarcossindicalistas procuram criar "livres associações de livres produtores." De forma que essas associações funcionariam como "uma escola prática de anarquismo" e levam muito a sério as palavras de Bakunin de que as organizações de trabalhadores precisam criar "não apenas idéias, mas também fatos do próprio futuro" neste período pré-revolucionário. 

Tanto os anarcossindicalistas, como todos os anarquistas sociais, "estão convencidos de que a ordem econômica socialista não pode ser criada por decretos e estatutos de um governo, mas apenas pela colaboração solidária dos trabalhadores com seus braços e cérebros voltados especialmente para a produção; isto é, que tudo funcione de tal forma que os produtores possam assumir o papel de gestores de todos os planos e que eles mesmos sejam os responsáveis pelos destinos das indústrias e pelas decisões dos organismos econômicos, direcionando sistematicamente a produção e a distribuição dos produtos no interesse das comunidades com base no livre acordo mútuo". [Rudolf Rocker, Anarcho-syndicalism, p. 55] 

As diferenças entre sindicalistas e outros anarquistas sociais revolucionários é mínima e gira em torno de questões relativas a sindicatos anarcossindicalistas. Os anarquistas coletivistas concordam que a construção de sindicatos libertários é importante e que um trabalho em meio ao movimento dos trabalhadores é essencial no sentido de "desenvolver e organizar [...] o poder social das massas de trabalhadores." [Bakunin, Michael Bakunin: Selected Writings, p. 197] 

Os comunistas anarquistas em geral têm conhecimento da importância do trabalho no meio operário, mas acreditam em organizações sindicalistas enquanto criadas por trabalhadores em luta, de tal forma que consideram o "espírito da revolta” como mais importante que a simples fundação de sindicatos e filiação de trabalhadores a eles. Também não dão muita importância ao local de trabalho, considerando que a luta travada ali dentro assume importância igual a qualquer outra luta contra a hierarquia e a dominação fora do posto de trabalho (a maioria dos anarcossindicalistas concorda com isso, todavia, trata-se apenas de uma questão de ênfase).

Alguns anarco-comunistas acham que o movimento operário é reformista por natureza e se recusam a colaborar com ele, mas são uma pequena minoria. 

Tanto comunistas quanto anarquistas coletivistas reconhecem a necessidade dos anarquistas juntos formarem uma organização anarquista. Eles acham essencial que os anarquistas trabalhem juntos como anarquistas para clarear e transmitir suas idéias aos outros. Os sindicalistas são de grande importância dentro dos grupos anarquistas e federações, defendendo que sindicatos industriais e comunitários são auto-suficientes. Os sindicalistas acreditam que os anarquistas e o movimento sindical podem se fundir em um só, embora a maior parte dos anarquistas não concordes. Os não-sindicalistas apontam para a natureza do sindicalismo e proclamam a necessidade de sindicatos revolucionários, e que os anarquistas precisam participar deles como parte de um grupo anarquista ou federação. A maior parte dos não sindicalistas considera a fusão do anarquismo e do sindicalismo um suporte potencial para a confusão que resulta em que nem um nem outro funcionem corretamente. 

Na prática, alguns anarcossindicalistas rejeitam totalmente a necessidade de uma federação anarquista, enquanto que outros anarquistas são totalmente anti-sindicalistas. Todavia, Bakunin foi o inspirador tanto das idéias anarco-comunistas como anarcossindicalistas, da mesma forma que Kropotkin, Malatesta, Berkman e Goldman, todos simpáticos às idéias dos movimentos anarcossindicalistas. 

Para consultas futuras sobre os mais variados tipos de anarquismo social, recomendaríamos o seguinte: o mutualismo é geralmente associado com as palavras de Proudhon, o coletivismo com Bakunin, o comunismo com Kropotkin, Malatesta, Goldman e Berkman. O sindicalismo difere no sentido de que é mais o produto da luta dos trabalhadores do que obra de nomes "famosos" (embora haja acadêmicos do naipe de um George Sorel considerado o pai do sindicalismo, embora tenha escrito sobre o movimento sindical quanto ele já existia). De qualquer forma, Rudolf Rocker é por muitos considerado como o principal teórico do anarcossindicalismo e as obras de Fernand Pelloutier e Emile Pouget são essenciais para a compreensão do anarcossindicalismo. A excelente antologia No Gods No Masters de Daniel Guerin faz uma abrangente explanação sobre o desenvolvimento do anarquismo social na forma de uma leitura bastante agradável. 
 

 

A.33. Quantos tipos de anarquismo verde existem?

A ênfase em idéias anarquistas como caminho para solução das crises ecológicas é corriqueira na maior parte do pensamento anarquista de nossos dias. Peter Kropotkin já dizia que uma sociedade anarquista teria como base uma confederação de comunidades que integrariam o trabalho manual e intelectual da mesma forma que descentralizariam e integrariam a indústria e a agricultura (veja sua obra clássica, Fields, Factories, and Workshops). 
A idéia de uma economia em que "o pequeno é bonito" (para usar o título do clássico de E. F. Schumacher) foi proposto durante os anos 70 antes que fosse incorporado por aqueles que mais tarde formariam o movimento verde. Em adição, em Mutual Aid Kropotkin documentou como a cooperação com as espécies e entre elas juntamente com seu desenvolvimento é em geral mais benéfica que a competição. A obra de Kropotkin, combinada com a de William Morris, e a dos irmãos de Reclus (os quais, como Kropotkin, foram geógrafos mundialmente renomados), e muitos outros serviram de bases para o corrente interesse anarquista pelos assuntos ecológicos.
 

Contudo, embora haja muitos temas de natureza ecológica em meio aos anarquistas clássicos, apenas recentemente que as similaridades entre o pensamento ecológico e o anarquismo começaram a vir à tona (essencialmente a partir da publicação do ensaio clássico de Murray Bookchin "Ecologia e Pensamento Revolucionário" em 1965). Não há nenhum exagero em afirmar que foram as idéias e a obra de Murray Bookchim que colocaram os assuntos ecológicos e a ecologia no coração do anarquismo, dos ideais anarquistas e nas análises dos muitos aspectos do movimento verde. 

Antes de discutir os tipos de anarquismo verde (também chamados de eco-anarquismo) seria oportuno explanar exatamente o que anarquismo e ecologia têm em comum. Citando Murray Bookchin, "tanto o ecologista quanto o anarquista dão uma forte ênfase na espontaneidade" e "tanto o ecologista quanto o anarquista, constituem uma identidade única dentro de formações diferenciadas. A diversificação e o enriquecimento das partes dão origem a uma expansão.E acrescenta, "da mesma forma que o ecologista procura expandir o range de um eco-sistema e promove o livre intercâmbio entre as espécies, o anarquista por sua vez, procura expandir o range das experimentações sociais e remover todos os obstáculos ao seu desenvolvimento" [Post-Scarcity Anarchism, p. 72, p. 78] 

Esta preocupação dos anarquistas para com o livre desenvolvimento, a descentralização e a espontaneidade é refletida nas idéias ecológicas e concernentes. Hierarquia, centralização, estado e concentração de riqueza reduzem a diversidade e o livre desenvolvimento dos indivíduos e de suas comunidades, os desvia de sua verdadeira natureza, e enfraquece o eco-sistema social, pois as sociedades do atual eco-sistema social humano estão separadas. Conforme Bookchim afirma, "a mensagem reconstrutiva da ecologia [...] [é que] nós precisamos conservar e promover a variedade", mas fora da moderna sociedade capitalista "toda essa espontaneidade, criatividade e individualidade é destruída pela padronização, pela regulamentação e pela massificação." [Op. Cit., p. 76, p. 65] 

Portanto, de muitas maneiras, o anarquismo pode ser considerado a aplicação prática das idéias ecológicas na sociedade, as bandeiras anarquistas do fortalecimento dos indivíduos e das comunidades, da descentralização do poder político, social e econômico visam a potencialização dos indivíduos e do livre desenvolvimento de uma vida social rica e diversa em sua natureza. 
Quantos tipos de anarquismo verde existem? Os eco-anarquistas destacam dois pontos focais. Ecologia Social e anarquismo"primitivista". Em adição, alguns anarquistas influenciados pela Deep Ecology, em pequeno número. Sem qualquer sombra de dúvida a Ecologia Social é a corrente mais forte. A Ecologia Social é associada com as idéias e obra de Murray Bookchim, relacionando assuntos ecológicos desde os anos 50 e, a partir dos anos 60, e combinando tais assuntos com o anarquismo social revolucionário. Sua obra inclui Post-Scarcity AnarchismToward an Ecological SocietyThe Ecology of Freedom e uma série de outros autores.
 

Os Ecologistas Sociais associam as raízes da crise ecológica com as relações de domínio entre as pessoas. O domínio da natureza é visto como um produto do domínio dentro da sociedade, mas esse domínio apenas aumenta as proporções da crise sob o capitalismo. Nas palavras de Murray Bookchim:

 

"A noção de que o homem precisa dominar a natureza emerge diretamente da dominação do homem pelo homem [...]" Mas não se trata apenas de relações comunais orgânicas [...] dissolvidas dentro de relações de mercado, o planeta em si mesmo foi reduzido a um mero suporte à exploração. Essa tendência ao longo dos séculos encontrou seu mais exacerbado desenvolvimento no moderno capitalismo. Argumentando que a natureza é inerentemente competitiva, a sociedade burguesa não apenas lançou homens contra outros homens, como também lançou a massa da humanidade contra o mundo natural. Da mesma forma como o homem é convertido em commodities, muitos aspectos da natureza humana é convertida para a commodity, um suporte a ser manufaturado e como uma mercadoria qualquer. " [Op. Cit., p. 63] 
"A valorização do mercado em detrimento do espírito humano é paralela à valorização do capital em detrimento da terra."  [Ibid., p. 65]

 

Boa parte dos ecologistas sociais considera essencial atacar a hierarquia e o capitalismo, não a civilização como sendo a causa raiz dos problemas ecológicos. Esta é uma área chave em que eles discordam dos anarquistas "primitivistas", que tendem a ser os mais críticos com relação a todos os aspectos da vida moderna, tanto que alguns chegam ao ponto de pregar o "fim da civilização" incluindo, aparentemente, todas as formas de tecnologia e organização em larga escala. [Vide A SOCIEDADE INDUSTRIAL E SEU FUTURO - Manifesto de "Unabomber"].

Indo mais longe, os anarquistas "Primitivistas" defendem o retorno às formas "Hunter-Gatherer" da sociedade humana, opondo-se à tecnologia como sendo hierárquica por natureza. O magazine britânico "Green Anarchist" dá suporte vocal a esta idéia. 

Contudo, poucos anarquistas vão tão longe. Aparentemente, a maioria dos anarquistas atualmente defende que tal "Primitivismo" não é anarquista de todo, pois o tal retorno à sociedade do "Hunter-Gatherer" resultaria em uma paralisação na maioria dos países com o colapso das infraestruturas sociais. Pelo fato da maioria das pessoas não serem simpáticas às idéias de tais "Primitivistas", elas jamais seriam aceitas nos meios libertários (i.e. pela livre escolha dos indivíduos) e não seriam os anarquistas os únicos a rechaçar essas idéias, poucos abraçariam voluntariamente essa proposta. 

Isto provocou o desenvolvimento por parte de algumas facções de "Anarquistas Verdes" de uma forma de eco-vanguardismo de maneira a, como disse Rousseau, "forçar o povo a ser livre" (como pode ser visto em artigos publicados em 1998 na celebração de atos terroristas). Em adição, a posição de "atrasar o relógio" é pouco convincente, quando afirma que as sociedades aborígenes em geral foram anárquicas, quando se sabe que tais sociedades desenvolveram-se formas de estatismo e de propriedade o que revela que tais sistemas "anarquistas primitivos" não são a resposta. 

Contudo, poucos eco-anarquistas assumem essas posições tão extremas. A maior parte dos anarquistas "primitivistas", mesmo aqueles que são antitecnologia e anticivilização, como bem expressa David Watson, crêem que a melhor maneira de lidar com isso é o "reconhecimento do modo de vida dos aborígenes" e desenvolver uma aproximação crítica de tudo que se refere à tecnologia, racionalismo e progresso em relação à Ecologia Social. Esses eco-anarquistas rejeitam "um primitivismo dogmático que prega um simples retorno linear aos nossos primórdios”. 

Para esses eco-anarquistas, o primitivismo "reflete não apenas um período de vida antes do estado, mas também legitima respostas sobre as reais condições de vida sob a civilização" temos que respeitar e aprender com as "tradições paleolíticas e neolíticas" (associadas com as tribos Nativas Americanas e outros povos aborígenes). Mas isso não significa que "devamos abandonar os modos de pensar que se desenvolveram através dos séculos [...] não podemos reduzir a experiência da vida, e das inevitáveis questões fundamentais do porque vivemos, e do como vivemos [...] embora, a diferença entre o espiritual e o secular não seja tão clara. O entendimento dialético de que somos nossa história seria uma inspirada razão para que honrássemos não apenas os ateísticos revolucionários espanhóis que morreram por um ideal, mas também os pacifistas religiosos prisioneiros de sua consciência. Os espíritos dançarinos dos Lakotas, dos ermitãos taoístas e dos místicos sufis executados." [David Watson, Beyond Bookchin: Preface for a future social ecology, p. 240, p. 103, p. 240, pp. 66-67] 

Tal anarquismo "Primitivista" associa-se a um range de magazines, a maior parte oriunda dos Estados Unidos, como o Fifth Estate. Em uma questão referente à tecnologia, os eco-anarquistas defendem que "o mercado capitalista que deu início ao processo e que permanece como o núcleo do complexo, é apenas parte de algo maior: uma adaptação forçada dos organismos da sociedade humana para serem instrumentos econômicos da civilização e de suas técnicas massivas, não apenas hierárquica e externa, mas inerentemente 'celular' e interna." [David Watson, Op. Cit., pp. 127-8] 

Por esta razão os anarquistas "Primitivistas" são mais críticos em todos os aspectos da tecnologia, que inclui a chamada aos anarquistas sociais para o uso de uma tecnologia essencial apropriada de forma a libertar a humanidade e o planeta. 

Não é o uso da tecnologia que determina seus efeitos, os efeitos da tecnologia são determinados em larga escala pela sociedade que a cria. Em outras palavras, a tecnologia é escolhida com uma tendência a reforçar o poder hierárquico por parte daqueles que a detém, são essas pessoas que escolhem qual tecnologia será introduzida dentro da sociedade (é bom lembrar que os povos oprimidos possuem o excelente hábito de devolver a tecnologia contra os poderosos de tal forma que as mudanças tecnológicas e as lutas sociais estão inter-relacionadas --  veja seção D.10). 

O uso de tecnologia apropriada envolve mais que uma seleção no range de tecnologias disponíveis, uma vez que a tecnologia acaba influenciando aqueles que as utilizam. Na verdade trata-se de uma avaliação crítica em todos os aspectos da tecnologia e modificá-la ou rejeitá-la visando maximizar a liberdade individual, o fortalecimento e a felicidade. Poucos Ecologistas Sociais discordam dessa avaliação, todavia, algumas diferenças são mais questões de ênfase do que divergências de cunho político. Finalmente, os anarquistas "Primitivistas" como a maioria dos anarquistas, são completamente contra o apoio da Ecologia Social a candidatos em eleições municipais, estaduais ou nacionais. Alguns Ecologistas Sociais defendem a participação nesses fóruns políticos como um meio para desenvolver assembléias populares democráticas visando criar um contra poder ao estado, mas poucos anarquistas concordam com isso. A grande maioria vê esse procedimento como inerentemente reformista por esperar que o uso de eleições trará algum tipo de mudança social. (Veja seção J.5.14 para uma completa discussão sobre isso). 

Em vez disso eles propõem o uso da ação direta como meio divulgar as idéias anarquistas e ecológicas, rejeitando o eleitoralismo como um peso morto que em 100% das vezes procura destruir as idéias radicais e corromper as pessoas envolvidas (veja seção J.2 -- Que é Ação Direta?) Para mais informações sobre o Anarquismo "Primitivista" veja o Future Primitive  e o excelente Elements of Refusal de John Zerzan, como também Beyond Bookchin and Against the Mega-Machine de David Watson. Finalmente, há a "deep ecology" que, em função de sua natureza biocêntrica, muitos anarquistas a rejeitam como sendo anti-humana. Existem poucos anarquistas que acham que o povo, como povo, são a causa das crises ecológicas, conforme muitos "deep ecologists" parecem sugerir. 

Murray Bookchin, por exemplo, não poupou críticas à "deep ecology" e as idéias anti-humanas que estão associadas a ela (veja Which Way for the Ecology Movement?, por exemplo). 

David Watson também atacou a "deep ecology" (veja How Deep is Deep Ecology?, escrita por George Bradford). A maior parte dos anarquistas também concorda que o problema não está no povo, mas no atual sistema, e que apenas o povo pode mudar isso, Nas palavras de Murray Bookchin:

 

"[O problema da Deep Ecology] está em percorrer os caminhos autoritários de um biologismo cru que usa 'leis naturais' para diminuir o senso de humanidade e ignorar a realidade do fato de que é o capitalismo o responsável, não uma abstração chamada 'Humanidade' e 'Sociedade'" [The Philosophy of Social Ecology, p. 160]

 

Resumir a crítica e a análise ecológica em um protesto simplista contra a raça humana ignora a verdadeira causa e a dinâmica da destruição ecológica, nesta direção não será encontrado o caminho para estancar essa destruição. Torna-se um erro grosseiro colocar as coisas em termos de que o "povo" é o responsável quando sabemos que a vasta maioria sequer tem conhecimento das decisões que afetam suas vidas, comunidades, indústrias e ecossistemas.

 

A verdade é que o que está em jogo é um sistema social que coloca os lucros e o poder acima do povo e do planeta. Focar a "humanidade" (falhando em distinguir entre o rico e o pobre, o homem e a mulher, os brancos e as pessoas de cor, os explorados e exploradores, opressores e oprimidos) como a responsável pelo sistema que nós vivemos significa de fato ignorar as causas institucionais dos problemas ecológicos. Diante das constantes críticas anarquistas aos seus porta-vozes, muitos Deep Ecologists tem recuado em aceitar idéias anti-humanas como o seu movimento. 

Deep Ecology, particularmente a organização Earth First! (EF!), tem mudado consideravelmente com o transcorrer do tempo, e EF! atualmente mantém um estreito relacionamento com o sindicato Industrial Workers of the World (IWW). 

deep ecology não faz parte do eco-anarquismo, ela compartilha muitas idéias e grupos como o EF! estão começando a ter mais aceitação entre os anarquistas, pois começaram a rejeitam idéias misantrópicas e ver que a hierarquia, não a raça humana, é o problema (para uma discussão entre Murray Bookchin e o líder Earth First! Dave Foreman veja o livro Defending the Earth). 
 

 

A.3.4 O anarquismo é pacifista?

A vertente pacifista existe há muito tempo entre os anarquistas, com Leo Tolstoi sendo uma de suas maiores figuras. Essa vertente é usualmente chamada de "anarco-pacifismo" (o termo "anarquismo não-violento" é muitas vezes usado, mas tal terminologia é inadequada porque implica em que o restante do movimento é "violento", que não é o caso!). A união entre pacifismo e anarquismo não surpreende diante dos ideais e argumentos fundamentais do anarquismo. 

A violência, ou as formas ocultas de violência ou constrangimento, é um dos meios chave pela qual a liberdade individual é destruída. 

Conforme Peter Marshall observou, "a forma com que os anarquistas proporcionam respeito às particularidades do indivíduo ao longo de sua existência é uma forma de não violência e um estilo não violento que tem sido ampliado pelos valores anarquistas." [Demanding the Impossible, p.637] 
Malatesta é ainda mais explícito quando escreve que "a essência do anarquismo é remover a violência das relações humanas" e que os anarquistas "se opõem à violência." [Life and Ideas, p. 53]. Contudo, embora muitos anarquistas rejeitem a violência e proclamem o pacifismo, o movimento, em geral, não é essencialmente pacifista (no sentido de se opor a todas as formas de violência em todo o tempo).
 

Mesmo sendo anti-militarista, ao se posicionar contra a violência organizada do estado, reconhece que existem importantes diferenças entre a violência do opressor e a violência do oprimido. Estas coisas explicam porque o movimento anarquista sempre teve que dedicar uma boa parte do tempo e de energia se opondo à máquina do militarismo e das guerras capitalistas, enquanto que ao mesmo tempo, apoiava e organizava uma resistência armada contra a opressão (como foi o caso do exército Makhnovista durante a Revolução Russa que resistiu ao mesmo tempo ao Exército Vermelho e ao Exército Branco, e como foi o caso das milícias organizadas pelos anarquistas para resistir aos fascistas durante a Revolução Espanhola -- veja seções A.5.4 e A.5.6, respectivamente).

 

Em questão de não-violência, como uma regra eterna, o movimento divide-se ao longo das linhagens Individualista e Social. A maioria dos anarquistas Individualistas simplesmente apóia as táticas não-violentas para a mudança social, como fazem os Mutualistas. Contudo, o anarquismo Individualista não é pacifista como eles, tanto que muitos apóiam a idéia da violência como forma legítima de autodefesa contra a agressão. A maior parte dos anarquistas sociais, por outro lado, apóiam o uso da violência revolucionária, pela utilização da força física quando ela for requerida tanto para demolir o poder como para resistir à agressão do estado e do capitalismo (o mesmo sucede com o anarcossindicalismo, consulte Bart de Ligt, que escreveu o clássico pacifista, The Conquest of Violence).

 

Malatesta descreveu a violência como sendo: "um mal em si mesma", e que é "justificada apenas quando ela é necessária para defender-se a si mesmo e aos outros da violência” e que o "escravo está em todo o tempo em estado de legítima defesa, consequentemente, sua violência contra o dominador, contra o opressor, é sempre moralmente justificável." [Op. Cit., p. 55, pp. 53-54]. Alguns alegam que as palavras de Bakunin dizem respeito à opressão social "um ataque dirigido menos aos indivíduos e mais à organização das coisas e à posição social", bandeiras anarquistas como "basicamente destruir posições e coisas" mais do que pessoas, aparece como a bandeira de uma revolução anarquista cujo alvo é o fim das classes privilegiadas "não como indivíduos, mas como classe.” [citado por Richard B. Saltman, The Social and Political Thought of Michael Bakunin p. 121, p. 124 e p. 122].

 

A questão da violência é relativamente importante para a maioria dos anarquistas, embora não a glorifiquem e pensem que deveria haver um esforço para que houvesse o mínimo possível durante uma luta social ou revolução. Todos anarquistas concordam com o pacifista anarcossindicalista alemão Bart de Ligt quando ele afirma que "a violência e a guerra que são as condições características do mundo capitalista não tem nada a ver com a liberdade do indivíduo, que é a missão histórica das classes trabalhadoras. O fim da violência só acontecerá quando toda violência for deliberadamente colocada a serviço da revolução." [The Conquest of Violence, p. 75].

 

De forma similar, todos anarquistas concordariam com de Ligt, no que diz respeito ao nome de um dos capítulos de seu livro, "o absurdo do pacifismo burguês". Para de Ligt, e para todos os anarquistas, a violência é inerente ao sistema capitalista e qualquer tentativa de fazer um capitalismo pacifista está condenado ao fracasso. É por isso que, de um lado, a guerra significa apenas uma faceta da competição econômica quando esta fracassa por outros meios. As nações vão à guerra quando elas enfrentam uma crise econômica, quando elas não conseguem ganhar uma luta econômica elas apelam para o conflito.

 

Por outro lado, "a violência é indispensável nesta moderna sociedade [...] [porque] sem ela as classes dominantes seriam completamente incapazes de manter suas posições de privilégios na manutenção das massas exploradas em cada país." O exército é usado principalmente (e acima de tudo) em função dos trabalhadores [...] quando eles se tornam descontentes." [Bart de Ligt, Op. Cit., p. 62].

 

Tão antiga quanto o estado e o capitalismo, a violência é inevitável e, portanto, para os anarco-pacifistas, um pacifismo consistente precisa ser anarquista da mesma forma que o anarquismo consistente precisa ser pacifista. Para aqueles anarquistas que são não-pacifistas, a violência aparece como inevitável e desgraçadamente resulta da opressão e exploração dos meios de produção pelas classes privilegiadas. O uso da violência será inevitável para que renunciem seu poder e riqueza. Aqueles que detêm a autoridade raramente cedem seu poder a não ser pela força. A necessidade de uma violência "provisória para por um fim à generalização e perpetuação da violência é inevitável àqueles que pretendem sair da condição de servidão." [Malatesta, Op. Cit., p. 55]. Polarizar no assunto violência versus não-violência é ignorar o assunto principal, em como é que mudaremos a sociedade para melhor. 

"It's the same as if rolling up your sleeves for work should be considered the work itself [...] the fighting part of revolution is merely rolling up your sleeves. The real, actual task is ahead." [ABC of Anarchism, p. 40]

 

A maioria das lutas sociais e revoluções começam relativamente pacíficas (via greves, ocupações e coisas parecidas) e apenas degenera para a violência quando aqueles que estão no poder tentam manter suas posições (um clássico exemplo ocorreu na Itália, em 1920, quando a ocupação de fábricas pelos trabalhadores foi seguida pelo terror fascista -- veja seção A.5.5).

 

Conforme já foi dito, todos os anarquistas são anti-militaristas e se opõem tanto à máquina militar (mesmo à "indústria" da defesa) quanto à guerra estatista/capitalista (embora alguns anarquistas como Rudolf Rocker e Sam Dolgoff, tenham apoiado a facção capitalista anti-fascista durante a segunda grande guerra como um mal menor). A mensagem anti-guerra dos anarquistas e dos anarcossindicalistas foi propagada antes mesmo de começar a primeira guerra mundial, pela ação de sindicalistas e anarquistas na Inglaterra e na América do Norte apoiados pela esquerdista CGT francesa conclamando os soldados para que não obedecessem a ordens de atacar companheiros trabalhadores de outros países.

 

Emma Goldman e Alexander Berkman ambos foram presos e deportados da América por organizarem a "No-Conscription League" em 1917, ocasião em que muitos anarquistas na Europa foram presos por recusarem-se a participar das forças armadas durante a primeira e a segunda guerra mundial. A influência anarcossindicalista da IWW foi esmagada pela repressão governamental dirigida contra essas organizações em função das mensagens anti-bélicas que apontavam as poderosas elites como as beneficiárias. Mais recentemente, anarquistas, (incluindo gente como Noam Chomsky e Paul Goodman) tem participado ativamente em movimentos pela paz da mesma forma que contribuem na resistência pela objeção de consciência onde quer que exista. Os anarquistas participaram ativamente na oposição a guerras como a Guerra do Vietnam, a guerra das Falklands da mesma forma que a Guerra do Golfo (incluindo, na Itália, a ajuda na organização de greves de protestos contra ela).

 

O mesmo aconteceu durante o último conflito quando muitos anarquistas levantaram o slogan "Nenhuma guerra exceto a guerra de classes" que marcou a oposição anarquista à guerra -- decididamente um mal consequente do sistema de classes, no qual as classes opressoras de diferentes países matam-se uns aos outros pelo poder, pelo lucro e em proveito de seus governantes. Em vez de participarem nessas organizações, os anarquistas proclamam às classes trabalhadoras lutar pelos seus próprios interesses e não pelos interesses de seus opressores:

 

"Mais do que nunca precisamos evitar compromisso; entre capitalistas e escravos, entre governantes e governados; pregue a expropriação da propriedade privada e a destruição dos estados como o único meio de garantir a fraternidade entre os povos e a Justiça e a Liberdade para todos" [Malatesta, Op. Cit., p. 251]

 

Notamos aqui que as palavras de Malatesta foram em parte escritas contra Peter Kropotkin que, por razões que ninguém conhecia melhor que ele, rejeitou tudo que ele defendeu por décadas e apoiou os aliados na Primeira Grande Guerra como um mal menor contra o autoritarismo e o Imperialismo alemão. Naturalmente, conforme apontado por Malatesta, "todo governo e toda classe capitalista" cria "divisões [...] entre os trabalhadores e rebeldes de seus próprios países." [Op. Cit., p. 246]).

 

A aproximação entre o pacifismo e os anarquistas é evidente. A violência é autoritária e coercitiva, e o uso dela entra em contradição com os princípios anarquistas. Por isso que os anarquistas concordam com Malatesta quando ele diz que "somos em princípio contra a violência e por essa razão acreditamos que a luta social deve ser conduzida tão humanamente quanto possível." [Op. Cit., p. 57].

 

A maior parte, senão todos, dos anarquistas que não são estritamente pacifistas concordam com os pacifistas-anarquistas quando eles defendem que a violência pode muitas vezes ser contraprodutiva, alienando as pessoas e dando ao estado uma desculpa para poder reprimir tanto o movimento anarquista como os movimentos populares por mudança social. Todos anarquistas apóiam a ação direta não-violenta e a desobediência civil, que na maior parte das vezes se apresenta como o melhor caminho para uma mudança radical. Dessa forma, pelo apresentado, é raro encontrar anarquistas que sejam puramente pacifistas. A maioria aceita o uso da violência como um mal necessário e advogam seu uso mínimo. Todos concordam que a revolução que institucionaliza a violência apenas recriará o estado em uma nova versão.

 

Eles defendem que não é necessário ser autoritário para destruir o autoritarismo ou usar a violência pra resistir à violência. Embora a maioria dos anarquistas não seja pacifista, a maioria deles rejeita a violência exceto em casos de autodefesa e ainda assim minimizada.

 

A.3.5 Que é Anarcofeminismo?

Uma contínua oposição ao estado e a todas as formas de autoritarismo tiveram expressão entre as primeiras feministas do século 19, e mais recentemente no movimento feminista dos anos 60, fundados com base na prática anarquista. 
Esta é a origem do termo anarcofeminismo, referindo-se a mulheres anarquistas que atuam entre as mulheres e os movimentos anarquistas para lembrar-lhes seus princípios. Anarquismo e feminismo sempre estiveram estreitamente ligados entre si.

 

Muitas feministas de destaque foram também anarquistas, incluindo a pioneira Mary Wollstonecraft (autora de A Vindication of the Rights of Woman), Communard Louise Michel, Voltairine de Cleyre e a campeã das liberdades femininas, Emma Goldman (veja seus famosos ensaios "The Traffic in Women""Woman Suffrage""The Tragedy of Woman's Emancipation""Marriage and Love" e "Victims of Morality", por exemplo). Freedom, o mais antigo jornal anarquista do mundo, foi fundado por Charlotte Wilson em 1886. Em adição, todos os maiores pensadores anarquistas (inclusive Proudhon) defenderam a igualdade da mulher.

 

O movimento "Mulheres Livres" na Espanha durante a revolução espanhola é um exemplo clássico de mulheres anarquistas organizando a si mesmas para defender suas liberdades básicas e criar uma sociedade baseada na liberdade da mulher e na igualdade (veja Free Women of Spain por Martha Ackelsberg para mais detalhes a respeito dessa importante organização). Tanto anarquistas como feministas tem compartilhado muitas histórias comuns e uma preocupação com a liberdade individual, igualdade e dignidade para membros do sexo feminino (embora, conforme explanaremos com mais detalhes abaixo, os anarquistas tenham sempre sido muito críticos do feminismo por não ter avançado suficientemente). 

Entretanto, não foi nenhuma surpresa que uma nova vertente de feminismo nos anos 60 expressasse uma maneira anarquista própria inspirada em personalidades anarquistas como Emma Goldman. Cathy Levine revela que nessa época, "grupos independentes de mulheres começaram a funcionar sem estrutura, líderes, ou outros suportes da esquerda feminina, criando, de forma independente e espontânea, organizações similares às formadas por muitas décadas e regiões. Contudo, nada aconteceu por acaso" [citado por Clifford Harper, Anarchy: A Graphic Guide, p. 182]. Nada disso aconteceu por acaso porque (como a escola feminista percebeu) as mulheres foram ao longo do tempo as primeiras vítimas da hierarquia social, fato que remonta à subida do patriarcado e às ideologias de dominação durante a era Neolítica. Marilyn French (em Beyond Power) defende que a primeira maior estratificação da raça humana ocorreu quando os homens começaram a dominar as mulheres, relegando às mulheres a uma classe social "subalterna" e "inferior". Peggy Kornegger destaca a forte conexão entre feminismo e anarquismo, tanto em teoria quanto em prática. 

"A perspectiva radical feminina é o anarquismo em toda sua pureza", escreveu ela. "Os postulados de teoria básica da família nuclear [revelam-se] como a base de todo o sistema autoritário. A lição que a criança aprende, do pai que ensina a obediência a deus, é [direcionada] para a obediência à grande e anônima voz da Autoridade. Passar da infância para a idade adulta é tornar-se um autômato, incapaz de questionar ou mesmo pensar com clareza" [Ibid.]. De forma semelhante, o Zero Collective defende que o anarcofeminismo "consiste em reconhecer o anarquismo do feminismo e a consciência de seu desenvolvimento."  [The Raven, no. 21, p. 6]. 

 

O anarcofeminismo destaca a prática autoritária e seus valores de dominação, exploração, agressividade, competitividade, insensibilidade, etc., todos altamente valorizados em civilizações hierárquicas e tradicionalmente reconhecidas como "masculinos". Em contraste, a prática não-autoritária e valores como cooperação, cuidado, compaixão, sensibilidade, carinho, etc., são tradicionalmente tidos como "femininos" e desvalorizados. Segundo a escola feminista tais fenômenos remontam do surgimento das sociedades patriarcais durante a idade do Bronze e suas conquistas das cooperativas fundamentadas em sociedades "orgânicas"  em que a prática "feminina" e valores prevaleciam e eram respeitados. Seguindo-se a estas conquistas, contudo, tais valores vieram a ser tidos como "inferiores", especialmente pelo homem, até mesmo os homens foram submetidos à dominação e exploração sob o patriarcado. (Veja e.g. Riane Eisler,The Chalice and the Blade; Elise Boulding, The Underside of History). 

As anarco-feministas fazem referência à criação de uma sociedade não-autoritária, uma sociedade anarquista baseada na cooperação, no cuidado, no apoio mútuo, etc., uma "femininalização da sociedade". As Anarco-feministas têm notado que esta “femininalização" da sociedade não pode ocorrer sem a autogestão e a descentralização. Isto porque os valores patriarcais-autoritários e suas tradições trariam de volta seus vícios e reproduziriam as hierarquias. Tal feminismo implica em descentralização, que por seu turno implica em auto-gestão. Muitas feministas reconhecem isto, como o reflexo de seus experimentos com formas coletivas de organizações feministas que eliminam a estrutura hierárquica e as formas competitivas de tomada de decisões.

Algumas feministas argumentam que as organizações de democracia direta assumem formas políticas marcadamente femininas [veja e.g. Nancy Hartsock "Feminist Theory and the Development of Revolutionary Strategy," em Zeila Eisenstein, ed., Capitalist Patriarchy and the Case for Socialist Feminism, pp. 56-77]. Como todos os anarquistas, as anarco-feministas reconhecem que a auto-libertação é a chave para que a igualdade da mulher e, portanto, a liberdade. Segundo Emma Goldman:

 

"Seu desenvolvimento, sua liberdade, sua independência, precisa vir de si própria. Primeiro pelo reconhecimento de si própria como uma personalidade, e não como um objeto sexual. Segundo, pela recusa do direito de alguém sobre seu corpo; pela recusa em gerar crianças, a menos que queira, pela recusa em ser uma serva de Deus, do Estado, da sociedade, do marido, da família, etc., por tornar sua vida simples, mas profunda e rica. Em suma, pela tentativa de aprender os princípios e a substancia da vida em todas suas complexidades; pela libertação pessoal do medo da opinião e da condenação pública.” [Anarchism and Other Essays, p. 211].

 

O anarcofeminismo tenta manter o feminismo diante das influências e do domínio das ideologias autoritárias tanto da direita quanto da esquerda. E propõem ações diretas e instâncias de auto-ajuda em oposição às campanhas reformistas de massa amparadas pelo movimento feminista "oficial", movimentos criados em torno de organizações hierárquicas e centralistas que com suas ilusões acabam por tornar as mulheres opressoras, políticas, e soldadas, sob a alegação de que estão em direção à "igualdade". As anarco-feministas destacam que as que se denominam "gestoras da ciência" que são mulheres que tem que aprender de forma a tornar-se gestoras em empresas capitalistas é essencialmente um instrumento das técnicas para o controle e a exploração do conjunto de trabalhadores em hierarquias corporativas, uma sociedade "femininalizada" requer a eliminação do capitalismo e da escravidão e o fim de todos os tipos de dominação. As anarco-feministas acreditam que aprender como tornar-se um efetivo explorador ou opressor não é um indicativo de igualdade (conforme disse uma componente do Mujures Libres, "não queremos substituir a hierarquia masculina por uma hierarquia feminina" [citado por Martha A. Ackelsberg, Free Women of Spain. p.2] -- veja também a seção B.1.4 para uma futura discussão sobre patriarcado e hierarquia).

 

As tradicionais hostilidades entre o anarquismo tradicional e o feminismo liberal, se revelaram na luta por libertação e igualdade das mulheres. Frederica Montseny (figura destacada no movimento anarquista espanhol) defendia que tal feminismo advoga a igualdade com os homens, mas não muda em nada as instituições existentes. Ela criticou o feminismo liberal (mainstream) "é apenas ambição dar para uma mulher de uma determinada classe a oportunidade de uma participação mais integral em um sistema de privilégios" e se estas instituições "são injustas quando os homens tomam partido delas, elas também serão injustas quando as mulheres tomarem partido delas". [citado por Martha A. Ackelsberg, Op. Cit., pp. 90-91, p. 91]. 

Na história do movimento anarquista, conforme as anotações de Martha Ackelsberg, o feminismo liberal/mainstream foi considerado como sendo "exclusivamente focado na estratégia da emancipação da mulher; a luta dos sexos não poderia estar separada da luta de classes ou do projeto anarquista como um todo." [Op. Cit., p. 91]. O anarcofeminismo continua sua tradição em revelar que todas as formas de hierarquia estão erradas, não apenas o patriarcado, e que o feminismo está em conflito com seus próprios ideais se seu alvo é ter as mesmas chances que um homem tem para ser um chefe. O anarcofeminismo, portanto, como todos os anarquistas se opõe ao capitalismo como um impedimento a liberdade. O ideal de "iguais oportunidades" dentro do sistema capitalista levará mulheres livres a ignorar o fato de que qualquer sistema onde houver mulheres da classe trabalhadora sendo oprimidas por chefes (sejam eles machos ou fêmeas) é nocivo. Para as anarco-feministas, a luta pela libertação da mulher não está separada da luta contra a hierarquia como tal. Conforme L. Susan Brown destacou:

 

"O anarcofeminismo, como expressão da sensibilidade anarquista aplicada às preocupações femininas, toma o indivíduo como seu ponto inicial, e se opõe às relações de domínio e subordinação, com base em formas econômicas não instrumentais que preservem a liberdade da existência humana, tanto de homens como de mulheres." [The Politics of Individualism, p. 144]

 

As anarco-feministas têm muito a contribuir para nosso entendimento acerca das origens da crise ecológica nos valores autoritários da civilização hierárquica. Por exemplo, uma componente da escola feminista defendeu que a dominação da natureza tem só tem paralelo na dominação da mulher, a qual se identifica com a natureza através da história (Veja, por exemplo, Carline Merchant, The Death of Nature, 1980). Tanto as mulheres como a natureza são vítimas da obsessão pelo controle que caracteriza a personalidade autoritária. Por esta razão, um crescente número de ecologistas radicais e de feministas está reconhecendo que a hierarquia precisa ser desmantelada de forma a alcançar suas respectivas metas.

 

Em adição a isto, o anarcofeminismo lembra-nos da importância de tratar mulheres igualmente como os homens, e ao mesmo tempo, respeitar as diferenças das mulheres com os homens. Em outras palavras, que a diversidade no reconhecimento e no respeito inclui tanto homens como mulheres. Os anarquistas homens assumem que, por se oporem (em teoria) ao sexismo, eles não são sexistas na prática. Tal presunção é falsa. O anarcofeminismo exige consistência entre teoria e prática diante do ativismo social e lembra-nos todos que nós podemos lutar não apenas no plano externo, mas também no plano interno. 
 

A.3.6 Que é Anarquismo Cultural?

No que nos diz respeito, definimos anarquismo cultural como a promoção de valores anti-autoritários dentro daquilo que a sociedade tradicionalmente define como "cultura" -- por exemplo, arte, música, drama, literatura, educação, moralidade sexual, tecnologia, diversões infantis, e por aí afora. 

As expressões culturais se caracterizam como anarquistas quando entendidas como um ataque deliberado, direto, ou quando subverte tendências mais tradicionais das formas de cultura que promovem valores e atitudes autoritárias, particularmente de dominação e de exploração. 

Uma novela que retrata o mal do militarismo pode ser considerada como anarquismo cultural se retrata o modelo de que "guerra é inferno" e mostra aos leitores como o militarismo se conecta com as instituições autoritárias (p.e. capitalismo e estatismo) ou métodos de condicionamento autoritários (i.e. baseados em valores das tradicionais famílias patriarcais). Ou, conforme John Clark expressou, o anarquismo cultural "implica no desenvolvimento das artes, media, e outras simbólicas formas de expressão que expõem os mais variados aspectos do sistema de dominação contrastando com um sistema de valores baseado na liberdade e na comunidade."  [The Anarchist Moment: Reflections on Culture, Nature and Power] 

O anarquismo cultural é importante -- senão essencial -- por causa dos valores autoritários que permeiam todo o sistema de dominação que vai da política à economia. Esses valores jamais serão erradicados mesmo em processos combinados de revolução política e econômica se não forem também acompanhados por profundas mudanças psicológicas na maioria da população. 

A aquiescência maciça no corrente sistema tem raiz na estrutura psíquica do ser humano (sua "estrutura de caráter", para usar a expressão de Wilhelm Reich), que é produzida por muitas formas de condicionamento e socialização que tem se desenvolvido na civilização autoritária-patriarcal durante os últimos cinco ou seis mil anos. Em outras palavras, mesmo se o capitalismo e o estado acabassem amanhã, as pessoas se empenhariam logo em seguida em criar novas formas de autoridade para substituí-los. Através da autoridade -- um forte líder, um comandante, alguém que desse ordens e que nomeasse alguém para a responsabilidade de pensar pelos outros -- personalidades submissas/autoritárias se sentem mais confortáveis. Infelizmente, a maioria dos seres humanos teme a real liberdade, e consequentemente, não sabem o que fazer com ela -- a prova disso é a longa lista de revoluções e de movimentos libertários que fracassaram quando os ideais revolucionários de liberdade, democracia, e igualdade foram desprezados rapidamente, dando lugar a uma nova hierarquia juntamente com novas classes governantes.

 

Esses fracassos são geralmente atribuídos às maquinações de políticos e capitalistas reacionários, e também às vacilações dos líderes revolucionários; mas os políticos reacionários atraem seguidores pelo simples fato de que acham um solo favorável para fazer crescer seus ideais autoritários na estrutura do caráter das pessoas ordinárias. Como pré requisito de uma revolução anarquista é necessário um período de elevação do nível de conscientização em que as pessoas gradualmente tornem-se avessas à prática submissa/autoritária em seu meio, veja como tais práticas são reproduzidas pelo condicionamento, e compreenda como elas podem ser mitigadas ou eliminadas através de novas formas de cultura, particularmente novos métodos de educação e de cuidados para com as crianças. Falaremos deste assunto mais profundamente na seção B.1.5 (Qual a base da psicologia de massas da civilização autoritária?), J.6 (Qual método de ensino para as crianças os anarquistas defendem?), e J.5.13 (Que é Escola Moderna?) 

As idéias culturais anarquistas são apresentadas por quase todas as escolas do pensamento anarquista e a conscientização é considerada como parte essencial de qualquer movimento anarquista. Para os anarquistas, é importante "construir um  novo mundo no lugar do velho" em todos os aspectos de nossas vidas e criar uma cultura anarquista faz parte dessa atividade. Alguns anarquistas, contudo, consideram a conscientização como insuficiente em si mesma e procuram combinar atividades de cultura anarquista com organização, usando a ação direta e a construção de alternativas libertárias em oposição à sociedade capitalista. O movimento anarquista caracteriza-se por combinar práticas de auto-atividade com trabalho cultural, com ambas as atividades apoiando-se e ajudando-se mutuamente. 
 

 

A.3.7 Existem anarquistas religiosos?

Sim, existem. A maior parte dos anarquistas se opõe à religião e à idéia de Deus como uma invenção anti-humana e uma justificação para o autoritarismo e escravidão, porém, muitos crentes em religião têm pautado suas idéias em conclusões anarquistas. Como todos anarquistas, esses religiosos anarquistas combinam a oposição ao Estado com uma oposição crítica à propriedade privada e à desigualdade. Em outras palavras, o anarquismo não é necessariamente ateísta. De acordo com Jacques Ellul, "de acordo com os pensadores cristãos, o pensamento bíblico conduz diretamente ao anarquismo, a única posição "política anti-política”. “[citado por Peter Marshall, Demanding the Impossible, p. 75]

Existem variados tipos de anarquismo inspirados por idéias religiosas. Conforme Peter Marshall relata, a "primeira  expressão clara de uma sensibilidade anarquista pode ser encontrada nos taoístas da velha China por volta do sexto século AC" e no "Budismo, particularmente em sua forma Zen,... teve... um forte espírito libertário." [Op. Cit., p. 53, p. 65] Alguns combinam idéias anarquistas com influências pagãs e espiritualistas. Contudo, o anarquismo religioso atualmente tomou a forma de anarquismo cristão, no qual vamos nos concentrar aqui.

Os cristãos anarquistas levam a sério as palavras de Jesus a seus seguidores de que "os reis e os homens importantes da terra dominam sobre o povo. Porém entre vocês é diferente" (Marcos 10:42, 43). De forma similar, o dístico de Paulo de que "não há nenhuma autoridade exceto Deus" é obviamente associada à autoridade estatal sobre a sociedade. Isto significa, para um verdadeiro cristão, que o Estado além de usurpar a autoridade de Deus tira de cada indivíduo a chance de se governar a si mesmo e de descobrir que (conforme o título do famoso livro de Tolstoi) o Reino de Deus está dentro de você.

De forma similar, a pobreza voluntária de Jesus, seus comentários sobre os efeitos corruptores da riqueza e o clamor bíblico de que o mundo foi criado para a humanidade viver em comunhão, tem tudo a ver com a base da crítica socialista à propriedade privada e ao capitalismo. Somando-se a isto, a primitiva igreja cristã (que poderia ser considerada como um movimento de libertação de escravos, embora mais tarde tenha sido cooptada como religião de Estado) baseava-se na divisão em comum (comunista) dos bens materiais, um tema que continuamente aparece em movimentos radicais cristãos (suspeita-se que a Bíblia teria sido usada para expressar as aspirações radicais libertárias dos oprimidos, e que, com o tempo, foi tomando a forma da terminologia anarquista e marxista). Veja o comentário de John Ball durante a Revolta Camponesa em 1381 na Inglaterra:

"When Adam delved and Eve span, Who was then a gentleman?" [Quando Adão plantava e Eva tecia, quem era o patrão?]

A história do anarquismo cristão inclui a Heresia do Espírito Livre na Idade Média, quando muitos se levantaram em revolta como os Anabatistas no século XVI. Depois disto, a tradição libertária dentro da cristandade surge novamente nos escritos de Willian Blake no século XVIII e depois na obra do americano Adam Ballou produzida em 1854: Practical Christian Socialism, plena de conclusões anarquistas. Contudo, o anarquismo cristão só se tornou claramente reconhecido no movimento anarquista com a obra do famoso escritor russo Leon Tolstoi.

Tolstoi levou a sério a mensagem da Bíblia e considerou que o verdadeiro cristão precisa se opor ao Estado. Com esta leitura da Bíblia, Tolstoi chegou a conclusões anarquistas:

"governar significa usar a força, e usar a força significa fazer para o outro o que certamente não gostaríamos que fosse feito para nós. Consequentemente, governar significa fazer ao outro o que não gostaríamos que os outros fizessem para nós, isto é, fazer o mal." [The Kingdom of God is Within You, p. 242]

 

Um verdadeiro cristão deve ser avesso a governar os outros. A partir dessa posição anti-estatista ele naturalmente passou a defender uma sociedade auto-organizada:

 

"Porque pensar que pessoas comuns não são capazes de auto-organizar suas vidas, e que governantes o farão não em proveito próprio, mas em proveito dos outros?" [The Anarchist Reader, p. 306]

 

Tolstoi proclamava ação não-violenta contra a opressão, e via a transformação espiritual dos indivíduos como a chave para a criação de uma sociedade anarquista. Conforme Max Nettlau argumentava, a "grande verdade expressa por Tolstoi é que o reconhecimento do poder do bem, da bondade, da solidariedade - e de tudo que se chama amor - está dentro de nós mesmos, e que isto pode e precisa brotar desenvolver-se e exercitar-se em nossa própria existência."  [A Short History of Anarchism, pp. 251-2]

Como todos os anarquistas, Tolstoi criticava a propriedade privada e o capitalismo. Da mesma forma que Henry George (cujas idéias, tanto quanto as de Proudhon, tiveram um forte impacto sobre ele) ele se opunha à propriedade da terra, arguindo que “não há nada que justifique a propriedade da terra, e sua consequente valorização, as pessoas não foram criadas para viver em espaços restritos, mas para ocupar a terra livre tão abundante no mundo". Contudo, "nesta luta [pela propriedade da terra] não são aqueles que trabalham na terra, mas aqueles que participam em um governo violento que saem ganhando." [Op. Cit., p. 307] Segundo Tolstoi os direitos de propriedade de qualquer meio de produção requer a violência do Estado para protegê-lo (a possessão é "sempre protegida pelos costumes, opinião pública, pelo senso de justiça e reciprocidade, nunca precisa ser protegida pela violência." [Ibid.]). Acrescentando, ele argumenta que:

"Dezenas de milhares de acres de terras cobertas por florestas pertencem a um único proprietário - enquanto que milhares de pessoas... precisam ser contidas pela violência. Criam-se fábricas e ofícios onde muitas gerações de trabalhadores são fraudadas. Enquanto que centenas de milhares de sacas de grãos, pertencentes a um só dono, aguardam os tempos de fome para serem vendidas pelo triplo do preço." [Ibid.]

 

Tolstoi argumenta que o capitalismo conduz o indivíduo tanto à ruína moral como física, e que os capitalistas são "condutores de escravos." Ele considera impossível para um verdadeiro Cristão ser um capitalista, pois o "patrão é um homem cujo ganho consiste na supressão de valores pertencentes a trabalhadores cuja ocupação principal baseia-se em trabalhos forçados, contra a natureza humana"  portanto, "ele [patrão] arruína vidas humanas em proveito próprio." [The Kingdom Of God is Within You, p. 338, p. 339] Tolstoi qualifica as cooperativas como "atividade social onde a moral e o auto-respeito impedem pessoas que não querem fazer parte da violência, tomem parte nela." [citado por Peter Marshall, Op. Cit., p. 378]

A partir de sua oposição à violência, Tolstoi rejeita tanto o Estado como a propriedade privada e defende táticas pacifistas para dar um fim à violência dentro da sociedade e criar uma sociedade justa. Nas palavras de Nettlau, ele "defendia a [...] resistência ao mal; e à forma de resistência - pela força ativa - ele acrescentou outro caminho: a resistência pela desobediência, a força passiva." [Op. Cit., p. 251] Em suas idéias sobre uma sociedade livre, Tolstoi foi claramente influenciado pela vida rural russa e pelas obras de Peter Kropotkin (como Fields, Factories and Workshops), J. P. Proudhon e do não anarquista Henry George.

As idéias de Tolstoi tiveram uma forte influência em Gandhi, que inspirou muita gente em seu país ao uso da resistência não-violenta para acabar com o domínio britânico da Índia. Aparentemente, a visão de Gandhi de uma Índia livre enquanto uma federação de comunas é similar à visão anarquista de Tolstoi de uma sociedade livre (embora tenhamos clareza de que Gandhi não foi um anarquista). O Catholic Worker Group nos Estados Unidos foi também fortemente influenciado por Tolstoi (e Proudhon), assim como por Dorothy Day, uma destacada anarquista e pacifista Cristã fundadora do jornal Catholic Workerem 1933. A influência de Tolstoi e do anarquismo religioso em geral pode também ser encontrado nos movimentos ligados à Teologia da Libertação nos países latinos e na América do Sul que combinam idéias cristãs com ativismo social em meio às classes trabalhadoras e marginalizadas (embora não haja dúvida que a Teologia da Libertação em geral inspira-se mais em um Estado socialista que em idéias anarquistas).

Em países onde a Igreja controla de fato o poder político, como a Irlanda, partes da América do Sul, e Espanha, que exerceu grande influência em todo século XIX e no começo do século XX, os anarquistas foram fortemente anti-religiosos porque a Igreja tinha o poder de reprimir a dissidência e a luta de classes. Tanto que, quase todos anarquistas eram ateístas (e concordavam com Bakunin que se Deus existisse seria necessário, para a liberdade e dignidade humana, aboli-lo), existe uma tradição minoritária dentro do anarquismo que desvincula conclusões anarquistas da religião. Nesta mesma direção, muitos anarquistas sociais consideram o pacifismo tolstoiano como dogmático e extremo, vendo a necessidade (algumas vezes) do uso da violência para resistir a um grande mal. Contudo, muitos anarquistas concordam com tolstoianos no que se refere à necessidade de uma transformação dos valores individuais como o aspecto chave para a criação de uma sociedade anarquista, e da importância da não-violência enquanto tática geral (embora, convenhamos, seja raro o anarquista que rejeite totalmente o uso da violência na autodefesa, quando não restar alternativa). 
 

 

A.3.8 Que é "anarquismo sem adjetivos"?

Nas palavras do historiador George Richard Esenwein, "anarquismo sem adjetivos" em seu sentido lato "refere-se a uma indiscutível forma de anarquismo, uma doutrina sem qualquer etiqueta de qualificação como comunista, coletivista, mutualista, ou individualista. Para outros, [...]  isto simplesmente significa uma atitude de tolerância e de coexistência diante das diferentes escolas anarquistas." [Anarchist Ideology and the Working Class Movement in Spain, 1868-1898, p. 135].

 

O criador dessa expressão foi o cubano Fernando Tarrida del Marmol que a utilizou em novembro de 1889 em Barcelona. Ele dirigiu suas palavras aos anarquistas comunistas e coletivistas na Espanha os quais a cada dia que passava acirravam cada vez mais os debates sobre os méritos de suas respectivas teorias. 

"Anarquismo sem adjetivos" era uma tentativa de mostrar grande tolerância entre as tendências anarquistas e deixar claro que os anarquistas não imporiam um plano econômico preconcebido em cima de ninguém -- mesmo em teoria. Essas preferências econômicas dos anarquistas seriam de uma "importância secundária" diante da abolição do capitalismo e do estado, e através da livre experimentação com base em uma sociedade livre. Esta perspectiva teórica conhecida como "anarquismo sin adjetives" foi produto de um intenso debate no meio do próprio movimento. As raízes deste argumento podem ser encontradas no desenvolvimento do Anarco-comunismo depois da morte de Bakunin em 1876. De forma não muito diferente dos anarco-coletivistas (como pode ser visto na famosa obra de James Guillaume "On Building the New Social Order" na referência a Bakunin on Anarchism, os coletivistas não concebiam seu sistema econômico envolvido com um livre comunismo), os anarco-comunistas desenvolveram, produziram e enriqueceram a obra de Bakunin, da mesma forma que Bakunin desenvolveu, produziu e enriqueceu a obra de Proudhon.

 

Os Anarco-comunistas se associaram com anarquistas como Elisee Reclus, Carlo Cafiero, Errico Malatesta e (o mais famoso) Peter Kropotkin. Rapidamente, as idéias anarco-comunistas se espalharam entre os anarco-coletivistas como a mais forte tendência na Europa, exceto na Espanha. Aqui o assunto principal não foi a questão do comunismo (Ricardo Mella é um caso a parte), mas uma questão de modificação da estratégia e da tática influenciada pelos anarco-comunistas.

 

Nessa época (1880 e anos seguintes), os anarco-comunistas se dedicaram a estabelecer células locais de militantes anarquistas, geralmente em oposição ao sindicalismo (embora Kropotkin não tenha sido um desses, pois reconhecia a importância dos trabalhadores nessas organizações) quando não adotavam uma postura anti-organização. Como era de se esperar, após muitas discussões mudaram de estratégia e de tática diante dos coletivistas espanhóis que apoiavam vigorosamente a organização e a luta da classe trabalhadora.

 

Este conflito logo se espalhou para fora da Espanha e a discussão encontrou seu caminho nas páginas do La Revolte em Paris. Isto fez com que muitos anarquistas concordassem com os argumentos de Malatesta que "não cabe a nós a palavra final, tudo não passaria de uma mera hipótese."  [quoted by Max Nettlau, A Short History of Anarchism, pp. 198-9]. Com o passar do tempo, a maioria dos anarquistas concordaram (usando as palavras de Nettlau) que "não podemos prever o desenvolvimento econômico do futuro" [Op. Cit., p. 201] e chegaram à conclusão de que aquilo que tinham em comum (oposição ao capitalismo e ao estado) era mais importante que suas diferentes visões de como uma sociedade livre deveria funcionar.

 

Com o passar do tempo, a maioria dos anarco-comunistas viram que ignorar o movimento operário não enriqueceria a classe trabalhadora e que embora divergindo dos anarco-coletivistas, todos estariam juntos, lado a lado, após a revolução. De forma semelhante, nos Estados Unidos o debate foi ainda mais intenso entre os anarco-comunistas e os individualistas. Benjamin Turcker chegou a dizer que os anarco-comunistas não eram anarquistas enquanto que John Most dizia quase a mesma coisa sobre as idéias de Tucker. Apenas pessoas como Mella e Tarrida defendiam a idéia da tolerância entre os grupos anarquistas, segundo Voltairine de Cleyre “chame a você mesmo apenas de 'anarquista' e procure como Malatesta por um 'anarquismo sem adjetivos', mesmo na ausência de governo muitos diferentes projetos experimentais provavelmente serão implementados nas mais variadas localidades até que se encontre o caminho mais apropriado." [Peter Marshall, Demanding the Impossible, p. 393]

Tais debates tiveram um profundo impacto no movimento anarquista, conforme pode ser verificado em anarquistas como Cleyre, Malatesta, Nettlau e Reclus que adotaram a perspectiva da tolerância incorporada na expressão "anarquismo sem adjetivos" (veja A Short History of Anarchism de Nettlau, pags. 195 a 201, um excelente resumo deste tema). 

Importante destacar também, a posição dominante dentro do movimento anarquista hoje é de que a maioria dos anarquistas reconhece o direito das outras tendências ao nome "anarquista" tendo, obviamente, suas próprias preferências para com relação a tipos específicos de teoria anarquista e seus próprios argumentos que as justifiquem. Contudo, é importante lembrar que as diferentes formas de anarquismo (comunismo, sindicalismo, religioso, etc.) não são mutuamente exclusivas e você não é obrigado a apoiar nem a combater ninguém. Esta tolerância se reflete na expressão "anarquismo sem adjetivos".

Para finalizar, alguns "anarco"-capitalistas estão tentando usar a tolerância associada com "anarquismo sem adjetivos" para justificar que sua ideologia seria aceita como parte do movimento anarquista. Ora, eles afirmam, anarquismo é apenas e tão somente se opor ao estado, questões econômicas são questões secundárias. Contudo, o uso de "anarquismo sem adjetivos" é válido desde que o tipo de economia a ser alcançada seja anticapitalista (i.e. socialista). Em outras palavras, o fato é que o capitalismo tem que ser abolido tanto quanto o estado e uma vez feito isso o próximo passo será desenvolver a livre experimentação. Explicando melhor, a luta contra o estado é apenas uma parte da dura luta pelo fim da opressão e da exploração e não pode ser isolada delas. Como os "anarco"-capitalistas não desejam a abolição do capitalismo tanto quanto o estado eles não são nem anarquistas nem "anarquistas sem adjetivos" nem tampouco podem se proclamar "anarquistas" capitalistas (veja seção F sobre porque o "anarco"-capitalismo não é anarquismo).

 

Um comentário:

Anônimo disse...

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