sábado, 5 de março de 2011
quinta-feira, 3 de março de 2011
quarta-feira, 2 de março de 2011
[Real News] Relatos de Benghazi Livre, Libia
Transcrição
Jihan Hafiz, jornalista (narradora): Atravessando a fronteira do Egito há um novo país soberano governado pelos revolucionários. Após 42 anos sob o regime do presidente coronel Muammar al-Gaddafi, o povo líbio está em plena revolta e agora está firmemente no controle da parte oriental do país. Na cidade de Benghazi liberada, o reduto da oposição, as pessoas formaram um profundo senso de comunidade. Esta é uma revolução sem líderes e dezenas de milhares de voluntários. As pessoas recebem alimentos doados, alguns vindos dos vizinhos Egito e Tunísia, e os armazenam antes de distribuí-los gratuitamente para a população. As lojas e restaurantes que circundam a cidade agora servem como cozinhas comunitárias para a revolução.
NÃO IDENTIFICADO (tradução da legenda): Eu cozinho todos os dias, às vezes arroz, às vezes, macarrão, kiksou às vezes, às vezes feijão. O gosto é bom e todos estão bem alimentados, graças a Deus.
Hafiz: Jornalistas estrangeiros raramente eram vistos aqui. Agora eles são recebidos com braços abertos e informam livremente. O primeiro jornal independente em Benghazi liberada foi inaugurado após a revolta de 17 de fevereiro que levou à deposição do governo desta cidade.
NÃO IDENTIFICADO (tradução da legenda): Os jornais e revistas não podiam discutir o regime e a liberdade de imprensa era inexistente. Eles eram completamente banidos. Jornalistas que tentavam trabalhar livremente desapareciam. Não apenas eles, mas seus ajudantes e familiares sumiam.
Multidão (tradução da legenda): "Querido Deus!
Hafiz: Mas a libertação do leste da Líbia das garras do regime de Kadhafi pagou um preço pesado. Estima-se mais de 1.000 civis foram mortos quando o regime reagiu ao protesto pacífico com violência extrema. Algumas das imagens que adquirimos são demasiado horríveis para serem retransmitidas. Os hospitais ainda estão abarrotados com pacientes com ferimentos de bala.
Reporter: Depois da violenta batalha pelo controle da cidade oriental de Benghazi, não há mais volta para as pessoas aqui. Você está ouvindo os gritos: "Povo de Zawiyah juntem-se a nós". Eles estão contando com a outras cidades do Ocidente para se juntar a eles em uma luta contra um líder que governou o país durante 42 anos.
Hafiz: A segunda maior cidade da Líbia tornou-se a capital não oficial desta revolta, e milhares de manifestantes continuam se espalhando pelo entorno. Kadafi chamou os manifestantes pró-democracia de "extremistas" e de "membros da Al-Qaeda", mas as pessoas aqui refutam tais alegações como absurdas.
NÃO IDENTIFICADO: Não somos pessoas radicais. Nossos muçulmanos são moderados. Temos certeza de que tudo isso irá inspirar uma série de nações árabes. Tenho certeza que inspirará também as nações muçulmanas. A Líbia vai inspirar o mundo! Líbia vai inspirar o mundo! Líbia! Líbia!
IRMÃS (tradução da legenda): Deus é Grande!
Hafiz: Essas irmãs perderam seu pai quando ele dirigia seu carro no quartel militar de Khadafi. O acidente foi o ponto de viragem na batalha por Benghazi, quando milhares invadiram o prédio, a cidade foi libertada. Eles os chamam de mártires, e a memória de como e por que eles morreram é o combustível desta revolução. A celebração da libertação do leste da Líbia continuou até tarde da noite de sexta-feira, quando as pessoas estavam animadas para saber sobre a revolta dose líbios em outras partes do país. Muitos aqui acreditam que é uma questão de dias antes que a força do poder do povo faça história mais uma vez na última e mais sangrenta revolta árabe da região desde o início do ano. Jihan Hafiz para Real News em Benghazi, na Líbia.
Fim da transcrição
IMPORTANTE: Por favor note que as transcrições do The Real News Network são feitas a partir de um programa. TRNN não pode garantir sua exatidão.
Tradução (google tradutor e revisão) http://taborita.blogspot.com/
[Real News] Libia liberta rejeita intervenção estadunidense
Nas ruas da libertada Benghazi o povo diz NÃO a McCain, Lieberman e a qualquer intervenção dos EUA!
Locutor:
Jihan Hafiz, Benghazi, Líbia: Já se fala da intervenção militar dos EUA na Líbia. Aqui em Benghazi, Líbios rejeitam esmagadoramente esta possibilidade.
NÃO IDENTIFICADO: (tradução da legenda): Você precisa entender que há questões políticas em curso na Líbia agora. Toda a população da Líbia está insistindo contra a intervenção dos EUA ou de qualquer envolvimento de potências estrangeiras na Líbia.
Hafiz: Rebeldes em Benghazi também estão rejeitando pedidos de senadores dos EUA, John McCain e Joe Lieberman para enviar armas aos territórios libertados para combater as forças de Khadafi. Eles insistem que derrotarão as forças de segurança de Muammar al-Gaddafi em Benghazi sem o uso de armas e sem o apoio de um governo estrangeiro. Sua vitória na batalha sangrenta para Benghazi gerou um forte sentimento de unidade e de nação em um país conhecido por divisões tribais.
NÃO IDENTIFICADO: (tradução da legenda): Nem um europeu, nem um militar americano deve intervir no país, mas queremos fazer pressão sobre o regime de Khadafi até que caia. A juventude livre da Líbia, se Deus quiser, derrubará o ditador da Líbia. Nós só queremos que eles ajudem a gente a impedir Gaddafi de trazer mercenários procedentes de outros países Africanos.
Hafiz: Os moradores de Benghazi e líderes criticam aqueles (da Europa à América Latina)que mantiveram boas relações com Kadafi, mesmo após o derramamento de sangue.
TEXTO SOBRE TELA: Berlusconi, seu amigo é um ditador tirano.
NÃO IDENTIFICADO: A América do Sul realmente sabe provavelmente até mais do que o Oriente Médio e Norte da África sobre a ditadura, por isso, aconselho-os a serem realmente cautelosos sobre o que ouvirem de seu líder.
Hafiz: Enquanto isso, os rebeldes celebram uma unidade recém-descoberta com os países árabes. Eles levantaram as bandeiras do Egito, Tunísia e Palestina.
NÃO IDENTIFICADO: (tradução da legenda): Sinto-me orgulhoso. Tenho orgulho de ser egípcio, e eu estou orgulhoso de ser árabe. Levantem, ergam a cabeça! Somos árabes!
TEXTO SOBRE TELA: Apoiamos o povo líbio e a Revolução de 17 fevereiro. Viva a Líbia livre e independente!
Hafiz: Este caminhão proveniente do Egipto está carregado com alimentos doados, 16 toneladas de macarrão, arroz, óleo e açúcar. Inspirado pelas revoltas árabes vizinhas da Egito e da Tunísia, o povo líbio dá aqui as boas vindas a esse comboio de alimentos do Egito.
MULTIDÃO: Os egípcios chegaram!
Hafiz: A Secretária de Estado, Hillary Clinton, expressou preocupação com a escassez de alimentos, mas alimentos ainda estão sendo doados livremente nas ruas, as doações continuam chegando dos vizinhos da Líbia. De Jihan Hafiz para Real News em Benghazi, na Líbia.
Real News Network - v.: Exclusivo http://trnn.com - http://www.youtube.com/TheRealNews - http://www.facebook.com/therealnews
Locutor:
Jihan Hafiz, Benghazi, Líbia: Já se fala da intervenção militar dos EUA na Líbia. Aqui em Benghazi, Líbios rejeitam esmagadoramente esta possibilidade.
NÃO IDENTIFICADO: (tradução da legenda): Você precisa entender que há questões políticas em curso na Líbia agora. Toda a população da Líbia está insistindo contra a intervenção dos EUA ou de qualquer envolvimento de potências estrangeiras na Líbia.
Hafiz: Rebeldes em Benghazi também estão rejeitando pedidos de senadores dos EUA, John McCain e Joe Lieberman para enviar armas aos territórios libertados para combater as forças de Khadafi. Eles insistem que derrotarão as forças de segurança de Muammar al-Gaddafi em Benghazi sem o uso de armas e sem o apoio de um governo estrangeiro. Sua vitória na batalha sangrenta para Benghazi gerou um forte sentimento de unidade e de nação em um país conhecido por divisões tribais.
NÃO IDENTIFICADO: (tradução da legenda): Nem um europeu, nem um militar americano deve intervir no país, mas queremos fazer pressão sobre o regime de Khadafi até que caia. A juventude livre da Líbia, se Deus quiser, derrubará o ditador da Líbia. Nós só queremos que eles ajudem a gente a impedir Gaddafi de trazer mercenários procedentes de outros países Africanos.
Hafiz: Os moradores de Benghazi e líderes criticam aqueles (da Europa à América Latina)que mantiveram boas relações com Kadafi, mesmo após o derramamento de sangue.
TEXTO SOBRE TELA: Berlusconi, seu amigo é um ditador tirano.
NÃO IDENTIFICADO: A América do Sul realmente sabe provavelmente até mais do que o Oriente Médio e Norte da África sobre a ditadura, por isso, aconselho-os a serem realmente cautelosos sobre o que ouvirem de seu líder.
Hafiz: Enquanto isso, os rebeldes celebram uma unidade recém-descoberta com os países árabes. Eles levantaram as bandeiras do Egito, Tunísia e Palestina.
NÃO IDENTIFICADO: (tradução da legenda): Sinto-me orgulhoso. Tenho orgulho de ser egípcio, e eu estou orgulhoso de ser árabe. Levantem, ergam a cabeça! Somos árabes!
TEXTO SOBRE TELA: Apoiamos o povo líbio e a Revolução de 17 fevereiro. Viva a Líbia livre e independente!
Hafiz: Este caminhão proveniente do Egipto está carregado com alimentos doados, 16 toneladas de macarrão, arroz, óleo e açúcar. Inspirado pelas revoltas árabes vizinhas da Egito e da Tunísia, o povo líbio dá aqui as boas vindas a esse comboio de alimentos do Egito.
MULTIDÃO: Os egípcios chegaram!
Hafiz: A Secretária de Estado, Hillary Clinton, expressou preocupação com a escassez de alimentos, mas alimentos ainda estão sendo doados livremente nas ruas, as doações continuam chegando dos vizinhos da Líbia. De Jihan Hafiz para Real News em Benghazi, na Líbia.
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terça-feira, 1 de março de 2011
O Sentido da Vida
Para que agir? Para que empreender o que quer quer seja? E como amar os homens, nesta época conturbada na qual o amanhã não é senão uma ameaça!... Tudo isto que começamos, nossas ideias que amadurecem, nossas obras vislumbradas, aquele pouco de bem que teríamos podido fazer, não será carregado pela tempestade que se prepara?... Por toda parte o terreno treme sob nossos pés, e nosso horizonte vai-se cobrindo de nuvens que não nos serão benéficas.
Ah! Se não fosse preciso temer a revolução da qual se fez um espectro!... Incapaz de imaginar uma sociedade mais detestável do que a nossa, tenho pela que a sucederá mais desconfiança que temor. Se devesse sofrer com a transformação, consolar-me-ia pensando que os verdugos do dia são as vítimas da vigília e que a expectativa do melhor faria suportar o pior. Mas não é este perigo longínquo que me assombra: vejo um outro, mais perto e sobretudo mais cruel; mais cruel porque não tem qualquer desculpa, porque é absurdo, porque não pode resultar em bem algum: a cada dia pensam-se as probabilidades de guerra do amanhã, e elas, dia-a-dia, tornam-se mais cruéis.
O pensamento retrocede diante de uma catástrofe que aparece no pináculo do século como o término do progresso de nossa era e contudo, é preciso habituar-se: há vinte anos todas as forças do saber exaurem-se para inventar instrumentos de destruição e dentro em pouco bastarão alguns tipos de canhão para abater um exército; colocam-se em armas, não mais, como antes, milhares de pobres diabos cujo sangue era pago, mas povos inteiros que estão a ponto de se estrangularem mutuamente; rouba-se deles o tempo (obrigando-os a servir) para roubar-lhes mais seguramente a vida; a fim de prepará-los para o massacre, atiça-se seu ódio, persuadindo-os de que são odiados; e homens dóceis deixam-se lograr, e logo se verão atirando-se uns sobre os outros, com ferocidade de bestas, turbas furibundas de pacíficos cidadãos a quem uma ordem inábil colocará nas mãos o fuzil, sabe Deus por que ridículo incidente de fronteira ou por que mercantis interesses coloniais!...
Marcharão, como ovelhas ao matadouro, mas, sabendo aonde vão, sabendo que deixam suas mulheres, sabendo que seus filhos sofrerão fome, ansiosos e ébrios, pelas sonoras e mentirosas palavras trombetadas em seus ouvidos.
Marcharão sem se rebelar, passivos e resignados, enquanto são a massa e a força, e poderiam, se soubessem entender, estabelecer o bom senso e a fraternidade em lugar das selvagens práticas da diplomacia.
Marcharão, tão enganados, tão iludidos, que acreditarão ser o massacre um dever e pedirão a Deus para abençoar seus apetites sanguinários.
Marcharão, pisoteando as colheitas que semearam, incendiando as cidades que construíram, com cantos de entusiasmo, com gritos de alegria, com músicas de festa. E seus filhos erigirão estátuas àqueles que melhor tiverem massacrado!...
A sorte de toda uma geração depende da hora em que algum fúnebre homem político der o sinal, que será seguido. Sabemos que os melhores de nós serão forçados e que nossa obra será destruída. Sabemos e trememos de cólera, e nada podemos. Ficamos presos na rede dos gabinetes e das papeladas, cuja destruição provocaria uma agitação por demais violenta. Pertencemos às leis que fizemos para nos proteger e que nos oprimem. Nada somos além de coisas dessa contraditória abstração, o Estado, que torna cada indivíduo escravo em nome da vontade de todos, que tomados isoladamente, desejariam exatamente o oposto do que serão obrigados a fazer.
Se a geração que deverá ser sacrificada fosse ao menos apenas uma! Mas existem outros interesses em jogo.
Os oradores assalariados, os ambiciosos aproveitadores das más inclinações das multidões e os pobres de espírito, a quem a sonoridade das palavras engana, têm a tal ponto exacerbado os ódios nacionais que a guerra de amanhã colocará em perigo a existência de uma raça: um dos elementos que constituíram o mundo moderno está ameaçado, aquele que será vencido deverá moralmente desaparecer e, qualquer que seja este, ver-se-á uma força aniquilada — como se, para o bem, houvesse uma a mais! — ver-se-á formar-se uma Europa nova, sobre tais bases, tão injustas, tão brutais, tão sanguinolentas, embrutecida por tão monstruosa mancha, que não pode ser ainda pior do que a de hoje, mais iniqua, mais bárbara e mais violenta.
Assim, cada qual sente pesar sobre si um imenso desencorajamento. Agitamo-nos num caminho sem saída, com fuzis apontados para nós de todos os telhados. Nosso trabalho parece o dos marinheiros que executam a última manobra quando o navio começa a afundar. Nossos prazeres assemelham-se aos do condenado a quem se oferece uma iguaria de seu agrado, quinze minutos antes do suplício. A angústia paralisa nosso pensamento, e o mais belo esforço de que seja capaz de calcular, soletrando os vagos discursos dos ministros, alterando o sentido das palavras dos soberanos, mudando as palavras atribuídas aos diplomatas e que os jornais divulgam desordenadamente — se será amanhã ou depois de amanhã, este ano ou próximo que nos degolarão. De modo que em vão se buscaria na História uma época mais incerta e mais repleta de angústias... ("O Sentido da Vida", Edouard Rod, páginas 208-213)
Destas linhas resulta que a força está nas mãos daqueles que se perdem por si mesmos, nas mãos de indivíduos isolados que compõem a massa, e que a fonte do mal está no Estado. Parece evidente que a contradição entre a consciência e a vida tenha atingido limites que não poderiam ser ultrapassados, e nos quais a solução se impõe.
Mas o autor não é deste parecer. Ele vê o caráter trágico da vida humana e, após haver mostrado todo o horror da situação, conclui que a vida humana deve transcorrer neste erro.
Extrato de O Reino de Deus Está em Vós" de Leon Tolstoi
Ah! Se não fosse preciso temer a revolução da qual se fez um espectro!... Incapaz de imaginar uma sociedade mais detestável do que a nossa, tenho pela que a sucederá mais desconfiança que temor. Se devesse sofrer com a transformação, consolar-me-ia pensando que os verdugos do dia são as vítimas da vigília e que a expectativa do melhor faria suportar o pior. Mas não é este perigo longínquo que me assombra: vejo um outro, mais perto e sobretudo mais cruel; mais cruel porque não tem qualquer desculpa, porque é absurdo, porque não pode resultar em bem algum: a cada dia pensam-se as probabilidades de guerra do amanhã, e elas, dia-a-dia, tornam-se mais cruéis.
O pensamento retrocede diante de uma catástrofe que aparece no pináculo do século como o término do progresso de nossa era e contudo, é preciso habituar-se: há vinte anos todas as forças do saber exaurem-se para inventar instrumentos de destruição e dentro em pouco bastarão alguns tipos de canhão para abater um exército; colocam-se em armas, não mais, como antes, milhares de pobres diabos cujo sangue era pago, mas povos inteiros que estão a ponto de se estrangularem mutuamente; rouba-se deles o tempo (obrigando-os a servir) para roubar-lhes mais seguramente a vida; a fim de prepará-los para o massacre, atiça-se seu ódio, persuadindo-os de que são odiados; e homens dóceis deixam-se lograr, e logo se verão atirando-se uns sobre os outros, com ferocidade de bestas, turbas furibundas de pacíficos cidadãos a quem uma ordem inábil colocará nas mãos o fuzil, sabe Deus por que ridículo incidente de fronteira ou por que mercantis interesses coloniais!...
Marcharão, como ovelhas ao matadouro, mas, sabendo aonde vão, sabendo que deixam suas mulheres, sabendo que seus filhos sofrerão fome, ansiosos e ébrios, pelas sonoras e mentirosas palavras trombetadas em seus ouvidos.
Marcharão sem se rebelar, passivos e resignados, enquanto são a massa e a força, e poderiam, se soubessem entender, estabelecer o bom senso e a fraternidade em lugar das selvagens práticas da diplomacia.
Marcharão, tão enganados, tão iludidos, que acreditarão ser o massacre um dever e pedirão a Deus para abençoar seus apetites sanguinários.
Marcharão, pisoteando as colheitas que semearam, incendiando as cidades que construíram, com cantos de entusiasmo, com gritos de alegria, com músicas de festa. E seus filhos erigirão estátuas àqueles que melhor tiverem massacrado!...
A sorte de toda uma geração depende da hora em que algum fúnebre homem político der o sinal, que será seguido. Sabemos que os melhores de nós serão forçados e que nossa obra será destruída. Sabemos e trememos de cólera, e nada podemos. Ficamos presos na rede dos gabinetes e das papeladas, cuja destruição provocaria uma agitação por demais violenta. Pertencemos às leis que fizemos para nos proteger e que nos oprimem. Nada somos além de coisas dessa contraditória abstração, o Estado, que torna cada indivíduo escravo em nome da vontade de todos, que tomados isoladamente, desejariam exatamente o oposto do que serão obrigados a fazer.
Se a geração que deverá ser sacrificada fosse ao menos apenas uma! Mas existem outros interesses em jogo.
Os oradores assalariados, os ambiciosos aproveitadores das más inclinações das multidões e os pobres de espírito, a quem a sonoridade das palavras engana, têm a tal ponto exacerbado os ódios nacionais que a guerra de amanhã colocará em perigo a existência de uma raça: um dos elementos que constituíram o mundo moderno está ameaçado, aquele que será vencido deverá moralmente desaparecer e, qualquer que seja este, ver-se-á uma força aniquilada — como se, para o bem, houvesse uma a mais! — ver-se-á formar-se uma Europa nova, sobre tais bases, tão injustas, tão brutais, tão sanguinolentas, embrutecida por tão monstruosa mancha, que não pode ser ainda pior do que a de hoje, mais iniqua, mais bárbara e mais violenta.
Assim, cada qual sente pesar sobre si um imenso desencorajamento. Agitamo-nos num caminho sem saída, com fuzis apontados para nós de todos os telhados. Nosso trabalho parece o dos marinheiros que executam a última manobra quando o navio começa a afundar. Nossos prazeres assemelham-se aos do condenado a quem se oferece uma iguaria de seu agrado, quinze minutos antes do suplício. A angústia paralisa nosso pensamento, e o mais belo esforço de que seja capaz de calcular, soletrando os vagos discursos dos ministros, alterando o sentido das palavras dos soberanos, mudando as palavras atribuídas aos diplomatas e que os jornais divulgam desordenadamente — se será amanhã ou depois de amanhã, este ano ou próximo que nos degolarão. De modo que em vão se buscaria na História uma época mais incerta e mais repleta de angústias... ("O Sentido da Vida", Edouard Rod, páginas 208-213)
Destas linhas resulta que a força está nas mãos daqueles que se perdem por si mesmos, nas mãos de indivíduos isolados que compõem a massa, e que a fonte do mal está no Estado. Parece evidente que a contradição entre a consciência e a vida tenha atingido limites que não poderiam ser ultrapassados, e nos quais a solução se impõe.
Mas o autor não é deste parecer. Ele vê o caráter trágico da vida humana e, após haver mostrado todo o horror da situação, conclui que a vida humana deve transcorrer neste erro.
Extrato de O Reino de Deus Está em Vós" de Leon Tolstoi
A Líbia está unida numa revolução popular - favor não intervir
Por Muhammad min Libya
Congratulamo-nos com uma zona de exclusão aérea, mas o sangue dos mártires líbios será desperdiçado se o maldito ocidente se meter em nossa revolução.
Manifestantes líbios no pavilhão de Portugal na praça principal de Benghazi, em 28 de fevereiro de 2011. Foto: Tiago Petinga / EPA
"Dê um beijo de despedida em minha mãe por mim, e diga a ela que seu filho morreu como um herói", disse o meu amigo Ahmed, 26, para a primeira pessoa que oacudiu depois dele ser baleado em uma rua de Trípoli.
Dois dias depois, meu amigo Ahmed morreu no hospital.
Aquele cara alto, bonito, alegre, inteligente, jovem, intelectual, não existe mais. Nunca mais ele vai responder aos meus telefonemas. O tempo parou em sua conta no Facebook para sempre.
Uma hora antes de Ahmed ser baleado, falei com ele pelo telefone. Estava eufórico. Disse-me que estava na Praça Verde no centro de Trípoli, e que estávamos livres. A péssima qualidade das ligações telefônicas significava que eu não conseguiria comunicar-me outra vez com ele nos próximos dois dias.
Conversando com o melhor amigo de Ahmed, fiquei sabendo da notícia devastadora. Eles estavam prestes a enterrá-lo, disse-me. Eu corri para o cemitério, e cheguei lá logo após o enterro. Encontrei alguns dos nossos amigos. Eles apontaram para um ponto no chão dizendo-me que era onde o corpo de Ahmed estava. Todos se abraçaram e choraram muito.
Este é o tipo de história que você ouve em Tripoli nestes dias. Centenas delas, talvez mesmo milhares. O tipo de histórias que você nunca poderia imaginar em sua porta.
Quando você ouve a história de que uma criança com seis mêses de idade foi assassinada, você espera de todo seu coração que o que al-Islam Khadafi afirma é verdade, que há pouca violência aqui, que a Al-Jazeera inventou a história. Você espera que a tal criança esteja agora dormindo pacificamente nos braços de sua mãe. Quando você ouve que um cara de Tajura foi baleado na cabeça morrendo após dois dias, deixando esposa e filho em luto, você pede a Deus que esse pai de família esteja vivo a brincar com seu filho. Mas as fotos, os vídeos, mostram a verdade fria. Os gritos de horror não precisam de tradução: entes queridos são arrebatados pela morte. Todos os seres humanos compreendem o significado do grito de lamento.
Esta tem sido a vida de Trípoli há algum tempo. É por isso que a cidade é agora chamada de "Cidade Fantasma" por seus habitantes desesperados ao verem manifestantes fugindo da ação da polícia. A cidade sofre um revés, a grande maioria das lojas fecharam, escolas e universidades também fecharam. Apenas algumas lojas vendendo produtos básicos continuam abertas, e mesmo assim apenas por algumas horas por dia.
Mas, apesar deste quadro sombrio de Trípoli, as pessoas têm muita esperança e fé de que estamos a assistir os últimos momentos do regime de Khadafi. Este homem não governa mais a Líbia; é simplesmente um homem com armas voltadas contra o povo.
Seus dois discursos, e de seu filho, não foram mais que ameaças - todos sairam pela culatra e em favor da revolução líbia. tribos líbias de leste a oeste sairam para afirmar a unidade nacional.
No exterior, sua reputação não é melhor. Kadhafi queria assustar o mundo ocidental com uma suposta ameaça de um emirado islâmico. A comunidade internacional respondeu-lhe, impedindo-lhe exílio no estrangeiro, congelando seus bens e levando os crimes de seu regime para o Tribunal Internacional de Justiça, com uma (quase) unanimidade internacional sem precedentes.
Todos os líbios, mesmo a minoria pró-Kadhafi, acredita que é só uma questão de tempo antes que a Líbia recupere sua liberdade. Mas a questão continua a ser assustadora: quantos mártires ainda cairão até que Kadafi saia? Quantas almas ele vai tomar antes que a maldição seja quebrada?
Esse final feliz, porém, é marcado por um medo compartilhado por todos os libios, o temor de uma possível intervenção militar ocidental para acabar com a crise.
Não me interpretem mal. Eu, como a maioria dos líbios, acreditamos que impor uma zona de exclusão aérea, seria um duro golpe contra o regime em vários níveis, cortaria o percurso dos comboios mercenários convocados desde a África, impediria Gaddafi de acessar dinheiro de contrabando e outros ativos, e mais importante, impediria que o regime bombardeasse provas apontadas por muitas tesrtemunhas oculares, inclusive arsenais de armas químicas; algo que iria desencadear uma catástrofe inimaginável, isso sem mencionar a possibilidade de seus aviões efetivamente usarem tais armas.
No entanto, uma coisa parece ter unido os líbios de todos os matizes, qualquer intervenção militar no terreno, por qualquer força estrangeira resultaria - como Abud Al Mustafa Jeleil, o ministro da Justiça e ex-chefe do governo interino agora na oposição, disse - em um recrudecimento na luta ainda maior do que os mercenários tem desencadeado.
Também não sou a favor da possibilidade de um ataque aéreo limitado para alvos específicos. Esta é uma revolução totalmente popular, nosso combustível tem sido o sangue do povo líbio. Os líbios lutavam sozinhos quando os países ocidentais estavam ocupados com outras coisas ignorando a revolução deles, no início. Pois os países ocidentais queriam mesmo era o status quo visando seus interesses na Líbia. É por isso que eu gostaria que a revolução fosse concluída por aqueles que a começaram: o povo da Líbia.
Como os apelos para a intervenção estrangeira crescem, eu gostaria de enviar uma mensagem para os líderes ocidentais: Obama, Cameron, Sarkozy. Esta é uma oportunidade única que caiu em seu colo, é uma chance para vocês melhorarem sua imagem aos olhos dos árabes e muçulmanos. Não se mexam. Todos os seus programas anteriores para que o oriente e o ocidente falharam, e alguns deles fizeram as coisas ficarem ainda piores. Não comecem algo que vocês não podem terminar, não tornem uma revolução popular pura em uma maldição que cairá sobre todos. Não desperdice o sangue que o meu amigo Ahmed derramou por mim.
Vamos apenas viver como vizinhos no mesmo planeta. Quem sabe, eu, como seu vizinho, possa um dia aparecer na sua porta, para alegremente, apertar sua mão.
fonte: http://www.guardian.co.uk/commentisfree/cifamerica/2011/mar/01/libya-revolution-no-fly-zone
tradução: http://taborita.blogspot.com/
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
CIA manipula governos. Massas sedentas por liberdade são como tsuname: incontroláveis
Se houve um momento para sair às ruas contra todo tipo de tirania, social, econômica, política, sexista, racial, étnica, etc., o momento é agora. O pavio está aceso. Acendê-lo custou milhares de vidas, mantê-lo aceso pode custar muito mais. O mundo virou um barril de pólvora no traseiro dos governantes. Vamos explodi-lo. É agora ou nunca!
"Se vivemos, vivamos para arrancar a cabeça dos reis". (Shakespeare).
O analista mais consciente sobre imperialismo é Noan Chomsky que, inclusive, em 4 de fevereiro em seu texto publicado no The Guardian de Londres, acertava na mosca logo no título: "Não é o Islã radical que preocupa os EUA - é a independência", texto esse imediatamente traduzido publicado em meu blog no domingo.
Naquele momento apenas Ben Ali na Tunísia, a noroeste da Libia, havia caído e o povo egípcio ainda pedia a cabeça de seu próprio ditador. Kadafi imediatamente saiu em apoio ao seu colega ao leste, pois sabia que se Mubarak caisse, ele seria o próximo da lista.
Esse teatro de antagonismos no Oriente Próximo: Israel versus Palestina e outros países árabes; discursos "contra o terror" versus Al Qaeda de Bin Laden; a ONU e EEUU (com suas punições militares, econômicas e políticas) versus Iraque, Irã, ou outros supostos governantes produtores de "armas de destruição em massa", isso sem falar nas picuinhas entre ditaduras de esquerda e de direita, tudo isso vem vem servindo de desculpas para as intervenções imperialistas naquela região (e em outras) tão rica em recursos naturais.
Essa imprevista rebelião que ocorrre quase que simultaneamente em todo o mundo árabe vêm colocar uma pá de areia em toda engrenagem tática e estratégica imperialista. E é por isso que eles já começam a apontar suas máquinas de matar em direção à Líbia. O alvo não é o ditador. O alvo são os líbios que derrubam o grande aliado dos Europeus e dos EEUU: Kadafi.
Governos ditatoriais ou "democráticos" são absolutamente previsíveis e controláveis pelas forças capitalistas tanto de estado como privadas, mas as massas não. E é isso que as grandes corporações e os governos temem, como bem diz Chomsky em seu artigo.
Qualquer tentativa de sublevação por parte de um país isolado, e por mais revolucionária que ela seja, pode ser contida, sufocada, ou estancada, para que não se espalhe.
Ken Knabb cita em "A Alegria da Revolução" alguns dos exemplos mais notáveis de revoltas: "a Rússia de 1905, a Alemanha de 1918-19, a Itália de 1920, as Asturias de 1934, a Espanha de 1936-37, a Hungria de 1956, a França de 1968, a Checoslováquia de 1968, Portugal de 1974-75 e a Polônia de 1980-81; muitos outros movimentos, desde a revolução mexicana de 1910 até a recente luta anti-apartheid na África do Sul, contiveram também momentos exemplares de experimentação popular antes de caírem sob o controle burocrático".
Agora estamos diante de um quadro novo. Não se trata de um, dois ou três países revoltosos. O mundo árabe se levanta e quase que simultanteamente. Até mesmo o povo iraquiano, antes esmagado sob Sadan Hussein e agora sob os esquadrões da morte e mercenários armados até os dentes - como bem descreveu Shane Bauer em seu blog antes de ser preso com alguns amigos em 31 de julho de 2009, nas proximidades da fronteira do Irã com o Iraque - agora também sai às ruas reivindicando liberdade, autodeterminação e a destituição imediata dos títeres estadunidenses em seu país.
O que devemos fazer? Devemos nesse momento não apenas acompanhar esses acontecimentos, devemos sair às ruas em nossas cidades em toda América Latina, como já está acontecendo em várias cidades estadunidenses e européias, apoiando a luta árabe, exigindo do fim definitivo das intervenções dos EEUU, e, principalmente, saindo às ruas com a mesma bandeira árabe: fim (em nossos próprios países) da corrupção governamental ou instituição de autogoverno, liberdade, igualdade, enfim, participação nas decisões em todos os níveis, autogestão, democracia direta.
"Só podemos compreender este mundo questionando-o como um todo.... A raiz da ausência de imaginação dominante não pode ser compreendida a menos que sejamos capazes de imaginar o que falta, isto é, o desaparecido, o oculto, o proibido, e o possível na vida moderna." - Internacional Situacionista
Onde os homens e mulheres não levem as leis a sério,
Onde o escravo deixe de existir, e o amo dos escravos,
Onde o populacho se levante imediatamente contra a eterna audácia dos privilegiados,...
Onde as crianças aprendam a operar por conta própria, e a depender de si mesmos,
Onde a equanimidade se reflita em fatos,
Onde as especulações sobre a alma sejam estimuladas,
Onde as mulheres caminhem em procissão pública nas ruas da mesma forma que os homens,
Onde participem na assembléia pública e tomem seus lugares da mesma forma que os homens....
As formas primordiais surgem!
Formas da democracia total, resultado de séculos,
Formas que projetam inclusive outras formas,
Formas de turbulentas cidades masculinas,
Formas dos amigos e anfitriões do mundo,
Formas que abraçam a terra, e são abraçadas por toda a terra.
Whitman
"Se vivemos, vivamos para arrancar a cabeça dos reis". (Shakespeare).
O analista mais consciente sobre imperialismo é Noan Chomsky que, inclusive, em 4 de fevereiro em seu texto publicado no The Guardian de Londres, acertava na mosca logo no título: "Não é o Islã radical que preocupa os EUA - é a independência", texto esse imediatamente traduzido publicado em meu blog no domingo.
Naquele momento apenas Ben Ali na Tunísia, a noroeste da Libia, havia caído e o povo egípcio ainda pedia a cabeça de seu próprio ditador. Kadafi imediatamente saiu em apoio ao seu colega ao leste, pois sabia que se Mubarak caisse, ele seria o próximo da lista.
Esse teatro de antagonismos no Oriente Próximo: Israel versus Palestina e outros países árabes; discursos "contra o terror" versus Al Qaeda de Bin Laden; a ONU e EEUU (com suas punições militares, econômicas e políticas) versus Iraque, Irã, ou outros supostos governantes produtores de "armas de destruição em massa", isso sem falar nas picuinhas entre ditaduras de esquerda e de direita, tudo isso vem vem servindo de desculpas para as intervenções imperialistas naquela região (e em outras) tão rica em recursos naturais.
Essa imprevista rebelião que ocorrre quase que simultaneamente em todo o mundo árabe vêm colocar uma pá de areia em toda engrenagem tática e estratégica imperialista. E é por isso que eles já começam a apontar suas máquinas de matar em direção à Líbia. O alvo não é o ditador. O alvo são os líbios que derrubam o grande aliado dos Europeus e dos EEUU: Kadafi.
Governos ditatoriais ou "democráticos" são absolutamente previsíveis e controláveis pelas forças capitalistas tanto de estado como privadas, mas as massas não. E é isso que as grandes corporações e os governos temem, como bem diz Chomsky em seu artigo.
Qualquer tentativa de sublevação por parte de um país isolado, e por mais revolucionária que ela seja, pode ser contida, sufocada, ou estancada, para que não se espalhe.
Ken Knabb cita em "A Alegria da Revolução" alguns dos exemplos mais notáveis de revoltas: "a Rússia de 1905, a Alemanha de 1918-19, a Itália de 1920, as Asturias de 1934, a Espanha de 1936-37, a Hungria de 1956, a França de 1968, a Checoslováquia de 1968, Portugal de 1974-75 e a Polônia de 1980-81; muitos outros movimentos, desde a revolução mexicana de 1910 até a recente luta anti-apartheid na África do Sul, contiveram também momentos exemplares de experimentação popular antes de caírem sob o controle burocrático".
Agora estamos diante de um quadro novo. Não se trata de um, dois ou três países revoltosos. O mundo árabe se levanta e quase que simultanteamente. Até mesmo o povo iraquiano, antes esmagado sob Sadan Hussein e agora sob os esquadrões da morte e mercenários armados até os dentes - como bem descreveu Shane Bauer em seu blog antes de ser preso com alguns amigos em 31 de julho de 2009, nas proximidades da fronteira do Irã com o Iraque - agora também sai às ruas reivindicando liberdade, autodeterminação e a destituição imediata dos títeres estadunidenses em seu país.
O que devemos fazer? Devemos nesse momento não apenas acompanhar esses acontecimentos, devemos sair às ruas em nossas cidades em toda América Latina, como já está acontecendo em várias cidades estadunidenses e européias, apoiando a luta árabe, exigindo do fim definitivo das intervenções dos EEUU, e, principalmente, saindo às ruas com a mesma bandeira árabe: fim (em nossos próprios países) da corrupção governamental ou instituição de autogoverno, liberdade, igualdade, enfim, participação nas decisões em todos os níveis, autogestão, democracia direta.
"Só podemos compreender este mundo questionando-o como um todo.... A raiz da ausência de imaginação dominante não pode ser compreendida a menos que sejamos capazes de imaginar o que falta, isto é, o desaparecido, o oculto, o proibido, e o possível na vida moderna." - Internacional Situacionista
Onde os homens e mulheres não levem as leis a sério,
Onde o escravo deixe de existir, e o amo dos escravos,
Onde o populacho se levante imediatamente contra a eterna audácia dos privilegiados,...
Onde as crianças aprendam a operar por conta própria, e a depender de si mesmos,
Onde a equanimidade se reflita em fatos,
Onde as especulações sobre a alma sejam estimuladas,
Onde as mulheres caminhem em procissão pública nas ruas da mesma forma que os homens,
Onde participem na assembléia pública e tomem seus lugares da mesma forma que os homens....
As formas primordiais surgem!
Formas da democracia total, resultado de séculos,
Formas que projetam inclusive outras formas,
Formas de turbulentas cidades masculinas,
Formas dos amigos e anfitriões do mundo,
Formas que abraçam a terra, e são abraçadas por toda a terra.
Whitman
domingo, 27 de fevereiro de 2011
sábado, 26 de fevereiro de 2011
O que é que tá acontecendo na Líbia? Do mundo árabe à América Latina
Por Santiago Alba Rico e Alma Allende 26/02/2011 às 15:10
Temos a impressão de que um grande processo emancipatório mundial pode ser abortado pela implacável ferocidade de Gadafi, a intervenção estadounidense e a pouca clarividência na América Latina
Temos a impressão de que um grande processo de emancipação mundial pode ser abortado pela ferocidade implacável de Kadafi, a intervenção dos EUA e a pouca clarividência na América Latina. Poderia descrever a situação: há uma zona no mundo religada por um forte sentimento de solidariedade interna. Dessa zona, onde há pouco tempo atrás só se esperava letargia ou fanatismo, surge uma onda de levantes populares que ameaça derrubar, um após outro, todos os aliados das potências ocidentais na região. Passando por cima das muitas diferenças locais, estes levantes tem algo em comum que certamente os distingue radicalmente das "revoluções" vermelhas e amarelas promovidas pelo capitalismo da órbita da ex-urss soviética: exigem democracia, sim, mas - longe de estarem fascinadas pela Europa e pelos EEUU - são detentores de uma radical, longa e enraigada tradição anti-imperialista, forjada em torno da Palestina e do Iraque. Não há nos levantes populares árabes ranço de socialismo, islamismo, e nem mesmo - o mais importante - de sedução eurocêntrica: trata-se ao mesmo tempo de revolta econômica misturada com revolução democrática, nacionalista e anticolonialista, o que abre de cara, quarenta anos depois de sua derrota, uma inesperada oportunidade para as esquerdas socialistas e panarabistas da região.
A América Latina progressista, cujos pioneiros processos emancipatórios constituiram a esperança do antiimperialismo mundial, deveria apoiar neste momento o mundo árabe, e sem reservas, adiantando-se à estratégia das potências ocidentais. Na esteira dos acontecimentos tais potências querem se aproveitar das ações tresloucadas de Gadafi para implementar um retrocesso - militar talvez, mas sobretudo propagandístico - como paladinas dos direitos humanos e da democracia. Este discurso é pouco confiável naquela zona do mundo, donde Fidel e Chaves gozam de enorme crédito popular, mas se a América Latina se alinha, ativa ou passivamente, com o tirano, não apenas os contagiosos avanços populares, que sopram da Europa a Wisconsin, se verão inevitavelmente contidos, como também haverá uma nova fratura no campo anti-imperialista dos EUA, sempre vigilantes, como relojoeiro do mundo, que usarão tudo isso para recuperar o terreno perdido. Algo assim pode estar já ocorrendo como resultado de uma combinação de ignorância e de anti-imperialismo esquemático e sumário. Os povos árabes, que voltam aos palcos da história, precisam do apoio dos seus irmãos latinoamericanos. O mais importante agora é que a relação de forças no mundo não pode pagar por uma hesitação de Cuba e da Venezuela, sem que Cuba e Venezuela sofram também as consequencias, sofrendo com eles a América Latina e as esperanças de transformação a nível planetário.
Podemos alegar que sabemos pouco do que ocorre na Líbia e suspeitar da condenação ocidental, midiática e institucional, dos últimos dias. Podemos deixar por isso mesmo. Os imperialistas são muito espertos. Eles têm muitos interesses específicos na área, tem defendido até o fim seus ditadores, mas quando eles percebem que não tem mais jeito, os deixam cair e escolhem outra estratégia: apoiar processos democráticos de controle remoto, selecionar minorias pósmodernas como motor de mudança limitada para implantar, sem nenhuma vergonha - sabendo que a memória é curta e os reflexos da esquerda muito imediatos - um novo arco-íris da retórica democrática. Temos que nos opor a qualquer interferência ocidental, mas eu sinceramente não acredito que a NATO invadirá a Líbia; o que nós acreditamos é que esta ameaça, apenas sugerida, tem o efeito de desfocar e confundir o campo anti-imperialista, e isso ao ponto de nos fazer esquecer algo que deveríamos saber sempre: quem é Kaddafi. Esquecê-lo pode produzir pelo menos três efeitos terríveis: romper os laços com os movimentos árabes, dar legitimidade às acusações contra a Venezuela e Cuba e "dar novo prestígio" ao danoso discurso democrático imperialista. Um triunfo, sem dúvida, para os interesses imperialistas na região.
Gaddafi foi durante os últimos dez anos um grande amigo da UE e dos EUA e de seus ditadores aliados na região. Basta recordar as inflamadas declarações de apoio do Calígula líbio ao deposto Ben Alí, cujas milícias provavelmente forneceram forneceram armas e dinheiro nos dias posteriores a 14 de janeiro. Acrescente-se a isso a dócil colaboração de Gadafi aos EEUU no marco da "guerra ao terror". A colaboração política foi acompanhada de estreitos vínculos econômicos com a UE, inclusive a Espanha: a venda de petróleo à Alemanha, Itália, França e EEUU ocorreu paralelamente com a entrada na Líbia das grandes companhias ocidentais (a empresa espanhola Repsol, a British Petroleum, a francesa Total, a italiana ENI ou a austríaca OM), isso sem mencionar os suculentos contratos das construtoras européias, [brasileiras (Queirós Galvão, etc)] e espanholas, em Tripoli. Além disso, a França e os EEUU não deixaram de vender armas para que agora a matança venha de cima, por helicópteros e caças, contra seu próprio povo, seguindo o exemplo da Itália imperial desde 1911. Em 2008, a ex-secretária de Estado, Condoleeza Rice, deixou bem claro: "A Líbia e os Estados Unidos compartilham de interesses permanentes: a cooperação na luta contra o terrorismo, o comércio, a proliferação nuclear, África, os direitos humanos e a democracia".
Quando Gadafi visitou a França em dezembro de 2007, Ayman El-Kayman resumiu a situação em um parágrafo que reproduzo aqui: "Quase dez anos atrás, Gadafi deixou de ser para o Ocidente democrático um indivíduo pouco recomendável. Para ter seu nome retirado da lista estadunidense de Estados terroristas, ele reconheceu a responsabilidade pelo atentado de Lockerbie. Para normalizar suas relações com o Reino Unido, deu os nomes de todos os republicanos irlandeses que haviam sido treinados na Líbia. Para limpar a barra com os Estados Unidos, deu todas as informações que tinha sobre os líbios suspeitos de participação na jirad junto a Bin Laden e renunciou a suas "armas de destruição em massa", além de pedir à Síria que fizesse o mesmo. Para normalizar as relações com a União Européia, transformou-se no guardião dos campos de concentração, donde estão encarcerados milhares de africanos que se dirigiam à Europa. Para normalizar suas relações com seu sinistro vizinho Ben Alí, entregou-lhe os opositores do regime refugiados na Líbia".
Como se vê, Gadafi não é nem revolucionário nem aliado - nem mesmo do ponto de vista tático - dos revolucionários do mundo. Em 2008, Fidel e Chávez (com o Mercosul) justamente denunciaram a "diretiva vergonhosa" européia que reforçava já há muito tempo a severa perseguição na Europa da humanidade desnuda nos barcos e nos abrigos. De todos os crimes de Gaddafi talvez o mais sério e o menos conhecido é a sua cumplicidade com a política de imigração da UE, especialmente na Itália, como o carrasco dos migrantes africanos. Quem quiser ricas informações sobre o assunto pode ler Il Mare di Mezzo, do bravo jornalista Gabriele Del Grande ou visitar seu site Fortresseurope, que revela alguns documentos assustadores. Desde 2006, a Human Rights Watch e AFVIC vem denunciando detenções arbitrárias e tortura em prisões líbias financiadas pela Itália. O acordo Berlusconi-Gadafi de 2003 pode ser lido em sua íntegra na página de Gabriele del Grande e suas consequencias se resumem sucinta e dolorosamente no grito de Farah Anam, fugitiva somali dos campos da morte líbios: "Prefiro morrer no mar a regressar à Líbia". Apesar das denúncias que falam de verdadeiras páticas de extermínio - ou precisamente por causa delas, que demonstram a eficácia de Gadafi como guardião da Europa - a Comissão Européia firmou em outubro uma "agenda de cooperação" para a "gestão dos fluxos migratórios" e o "controle das fronteiras", válido até 2013 e acompanhado da entrega à Líbia de 50 milhões de euros.
A relação da Europa com Gadafi beira à submissão. Berlusconi, Sarkozy, Zapatero e Blair o receberam com abraços em 2007 e o próprio Zapatero o visitou em Trípoli em 2010. Até mesmo o rei Juan Carlos foi a Trípoli em janeiro de 2009 para promover as empresas espanholas. Por outro lado, a UE não hesitou em humilhar-se e desculpar-se publicamente em 27 março de 2010 através do então chanceler espanhol, Miguel Angel Moratinos, por haver proibido 188 líbios cidadãos líbios de entrarem na Europa, a raiz do conflito entre Suiça e Líbia pela detenção de um filho de Gadafi em Genebra, acusado de maltratar seus empregados domésticos. E tem mais: a UE não emitiu o menor protesto quando o Gadhafi adotou represálias econômicas, comerciais e humanas contra a Suiça, nem mesmo quando efetuou um chamamento à guerra santa contra este país, nem mesmo quando declarou publicamente seu desejo de que a Suiça fosse varrida do mapa.
E se agora esses amigos imperialistas de Kadhafi - que vêem o mundo árabe se virar contra ele sem sua intervenção - condenam a ditadura líbia e falam em democracia, então nós vacilamos. Aplicamos as planilhas universais da luta antiimperialista, com suas teorias conspiratórias, com sua paradóxica desconfiança para com os povos, e pedimos tempo para que se dissolva a nuvem de pó levantada pelas bombas lançadas desde o ar - a fim de estar seguros de que embaixo não haja um cadáver da CIA. Isso quando não apoiamos diretamente, como o governo da Nicarágua, a um criminoso cujo mais leve contato só pode manchar para sempre qualquer um que se posicione como de esquerda ou progressista. Não é a OTAN que está bombardeando aos líbios, é Gadafi. "Misseis contra civis" é algo que não podemos aceitar. Mesmo antes de fazer perguntas, temos de condenar isso com toda energia e indignação. Mas vamos também fazer perguntas. Porque se perguntamos, as respostas que temos - por poucas que sejam - também devem mostrar de que lado devem estar agora os revolucionários do mundo. Oxalá Gadafi caia hoje, em vez de amanhã. Oxalá a América Latina compreenda que o que ocorre nesses momentos no mundo árabe tem a ver, não com planos maquiavélicos da UE e dos EEUU (que sem dúvida manobram nas sombras), mas com os processos abertos em Nossa América, a de todos, da ALBA e da dignidade, desde o princípio dos anos 90, seguindo a estrela de Cuba de 1958. A oportunidade é grande e pode ser a última para reverter definitivamente a atual relação de forças e isolar as potências imperialistas em um novo marco global. Não caiamos em armadilhas tão facilmente. Não desprezemos os árabes. Eles não são socialistas, não, mas nos últimos dois meses, de forma inesperada, colocaram a nu a hipocrisia da UE e dos EUA. Manifestaram seu desejo por uma verdadeira democracia, longe de qualquer tutela colonial, e abriram um espaço para pôr em dificuldades desde a esquerda, as tentativas de reconversão, também territorial, do capitalismo. É a América Latina da Alba, de Che e Playa Girón, cujo prestígio nessa zona estava intacto até ontem, que deve apoiar o processo antes que o relojoeiro do mundo gire a história para trás e a manipule a seu favor. Os países capitalistas têm "interesses", os socialistas só "limites". Muitos destes "interesses" estavam com Gadhafi, mas nenhum desses limites têm nada a ver com ele. É um criminoso e também um obstáculo. Por favor, companheiros revolucionários da América Latina, os camaradas revolucionários no mundo árabe estão pedindo que não apóiem Gadafi.
fonte: http://www.kaosenlared.net/noticia/pasa-libia-mundo-arabe-america-latina
tradução: Railton - http://taborita.blogspot.com/
Temos a impressão de que um grande processo emancipatório mundial pode ser abortado pela implacável ferocidade de Gadafi, a intervenção estadounidense e a pouca clarividência na América Latina
Temos a impressão de que um grande processo de emancipação mundial pode ser abortado pela ferocidade implacável de Kadafi, a intervenção dos EUA e a pouca clarividência na América Latina. Poderia descrever a situação: há uma zona no mundo religada por um forte sentimento de solidariedade interna. Dessa zona, onde há pouco tempo atrás só se esperava letargia ou fanatismo, surge uma onda de levantes populares que ameaça derrubar, um após outro, todos os aliados das potências ocidentais na região. Passando por cima das muitas diferenças locais, estes levantes tem algo em comum que certamente os distingue radicalmente das "revoluções" vermelhas e amarelas promovidas pelo capitalismo da órbita da ex-urss soviética: exigem democracia, sim, mas - longe de estarem fascinadas pela Europa e pelos EEUU - são detentores de uma radical, longa e enraigada tradição anti-imperialista, forjada em torno da Palestina e do Iraque. Não há nos levantes populares árabes ranço de socialismo, islamismo, e nem mesmo - o mais importante - de sedução eurocêntrica: trata-se ao mesmo tempo de revolta econômica misturada com revolução democrática, nacionalista e anticolonialista, o que abre de cara, quarenta anos depois de sua derrota, uma inesperada oportunidade para as esquerdas socialistas e panarabistas da região.
A América Latina progressista, cujos pioneiros processos emancipatórios constituiram a esperança do antiimperialismo mundial, deveria apoiar neste momento o mundo árabe, e sem reservas, adiantando-se à estratégia das potências ocidentais. Na esteira dos acontecimentos tais potências querem se aproveitar das ações tresloucadas de Gadafi para implementar um retrocesso - militar talvez, mas sobretudo propagandístico - como paladinas dos direitos humanos e da democracia. Este discurso é pouco confiável naquela zona do mundo, donde Fidel e Chaves gozam de enorme crédito popular, mas se a América Latina se alinha, ativa ou passivamente, com o tirano, não apenas os contagiosos avanços populares, que sopram da Europa a Wisconsin, se verão inevitavelmente contidos, como também haverá uma nova fratura no campo anti-imperialista dos EUA, sempre vigilantes, como relojoeiro do mundo, que usarão tudo isso para recuperar o terreno perdido. Algo assim pode estar já ocorrendo como resultado de uma combinação de ignorância e de anti-imperialismo esquemático e sumário. Os povos árabes, que voltam aos palcos da história, precisam do apoio dos seus irmãos latinoamericanos. O mais importante agora é que a relação de forças no mundo não pode pagar por uma hesitação de Cuba e da Venezuela, sem que Cuba e Venezuela sofram também as consequencias, sofrendo com eles a América Latina e as esperanças de transformação a nível planetário.
Podemos alegar que sabemos pouco do que ocorre na Líbia e suspeitar da condenação ocidental, midiática e institucional, dos últimos dias. Podemos deixar por isso mesmo. Os imperialistas são muito espertos. Eles têm muitos interesses específicos na área, tem defendido até o fim seus ditadores, mas quando eles percebem que não tem mais jeito, os deixam cair e escolhem outra estratégia: apoiar processos democráticos de controle remoto, selecionar minorias pósmodernas como motor de mudança limitada para implantar, sem nenhuma vergonha - sabendo que a memória é curta e os reflexos da esquerda muito imediatos - um novo arco-íris da retórica democrática. Temos que nos opor a qualquer interferência ocidental, mas eu sinceramente não acredito que a NATO invadirá a Líbia; o que nós acreditamos é que esta ameaça, apenas sugerida, tem o efeito de desfocar e confundir o campo anti-imperialista, e isso ao ponto de nos fazer esquecer algo que deveríamos saber sempre: quem é Kaddafi. Esquecê-lo pode produzir pelo menos três efeitos terríveis: romper os laços com os movimentos árabes, dar legitimidade às acusações contra a Venezuela e Cuba e "dar novo prestígio" ao danoso discurso democrático imperialista. Um triunfo, sem dúvida, para os interesses imperialistas na região.
Gaddafi foi durante os últimos dez anos um grande amigo da UE e dos EUA e de seus ditadores aliados na região. Basta recordar as inflamadas declarações de apoio do Calígula líbio ao deposto Ben Alí, cujas milícias provavelmente forneceram forneceram armas e dinheiro nos dias posteriores a 14 de janeiro. Acrescente-se a isso a dócil colaboração de Gadafi aos EEUU no marco da "guerra ao terror". A colaboração política foi acompanhada de estreitos vínculos econômicos com a UE, inclusive a Espanha: a venda de petróleo à Alemanha, Itália, França e EEUU ocorreu paralelamente com a entrada na Líbia das grandes companhias ocidentais (a empresa espanhola Repsol, a British Petroleum, a francesa Total, a italiana ENI ou a austríaca OM), isso sem mencionar os suculentos contratos das construtoras européias, [brasileiras (Queirós Galvão, etc)] e espanholas, em Tripoli. Além disso, a França e os EEUU não deixaram de vender armas para que agora a matança venha de cima, por helicópteros e caças, contra seu próprio povo, seguindo o exemplo da Itália imperial desde 1911. Em 2008, a ex-secretária de Estado, Condoleeza Rice, deixou bem claro: "A Líbia e os Estados Unidos compartilham de interesses permanentes: a cooperação na luta contra o terrorismo, o comércio, a proliferação nuclear, África, os direitos humanos e a democracia".
Quando Gadafi visitou a França em dezembro de 2007, Ayman El-Kayman resumiu a situação em um parágrafo que reproduzo aqui: "Quase dez anos atrás, Gadafi deixou de ser para o Ocidente democrático um indivíduo pouco recomendável. Para ter seu nome retirado da lista estadunidense de Estados terroristas, ele reconheceu a responsabilidade pelo atentado de Lockerbie. Para normalizar suas relações com o Reino Unido, deu os nomes de todos os republicanos irlandeses que haviam sido treinados na Líbia. Para limpar a barra com os Estados Unidos, deu todas as informações que tinha sobre os líbios suspeitos de participação na jirad junto a Bin Laden e renunciou a suas "armas de destruição em massa", além de pedir à Síria que fizesse o mesmo. Para normalizar as relações com a União Européia, transformou-se no guardião dos campos de concentração, donde estão encarcerados milhares de africanos que se dirigiam à Europa. Para normalizar suas relações com seu sinistro vizinho Ben Alí, entregou-lhe os opositores do regime refugiados na Líbia".
Como se vê, Gadafi não é nem revolucionário nem aliado - nem mesmo do ponto de vista tático - dos revolucionários do mundo. Em 2008, Fidel e Chávez (com o Mercosul) justamente denunciaram a "diretiva vergonhosa" européia que reforçava já há muito tempo a severa perseguição na Europa da humanidade desnuda nos barcos e nos abrigos. De todos os crimes de Gaddafi talvez o mais sério e o menos conhecido é a sua cumplicidade com a política de imigração da UE, especialmente na Itália, como o carrasco dos migrantes africanos. Quem quiser ricas informações sobre o assunto pode ler Il Mare di Mezzo, do bravo jornalista Gabriele Del Grande ou visitar seu site Fortresseurope, que revela alguns documentos assustadores. Desde 2006, a Human Rights Watch e AFVIC vem denunciando detenções arbitrárias e tortura em prisões líbias financiadas pela Itália. O acordo Berlusconi-Gadafi de 2003 pode ser lido em sua íntegra na página de Gabriele del Grande e suas consequencias se resumem sucinta e dolorosamente no grito de Farah Anam, fugitiva somali dos campos da morte líbios: "Prefiro morrer no mar a regressar à Líbia". Apesar das denúncias que falam de verdadeiras páticas de extermínio - ou precisamente por causa delas, que demonstram a eficácia de Gadafi como guardião da Europa - a Comissão Européia firmou em outubro uma "agenda de cooperação" para a "gestão dos fluxos migratórios" e o "controle das fronteiras", válido até 2013 e acompanhado da entrega à Líbia de 50 milhões de euros.
A relação da Europa com Gadafi beira à submissão. Berlusconi, Sarkozy, Zapatero e Blair o receberam com abraços em 2007 e o próprio Zapatero o visitou em Trípoli em 2010. Até mesmo o rei Juan Carlos foi a Trípoli em janeiro de 2009 para promover as empresas espanholas. Por outro lado, a UE não hesitou em humilhar-se e desculpar-se publicamente em 27 março de 2010 através do então chanceler espanhol, Miguel Angel Moratinos, por haver proibido 188 líbios cidadãos líbios de entrarem na Europa, a raiz do conflito entre Suiça e Líbia pela detenção de um filho de Gadafi em Genebra, acusado de maltratar seus empregados domésticos. E tem mais: a UE não emitiu o menor protesto quando o Gadhafi adotou represálias econômicas, comerciais e humanas contra a Suiça, nem mesmo quando efetuou um chamamento à guerra santa contra este país, nem mesmo quando declarou publicamente seu desejo de que a Suiça fosse varrida do mapa.
E se agora esses amigos imperialistas de Kadhafi - que vêem o mundo árabe se virar contra ele sem sua intervenção - condenam a ditadura líbia e falam em democracia, então nós vacilamos. Aplicamos as planilhas universais da luta antiimperialista, com suas teorias conspiratórias, com sua paradóxica desconfiança para com os povos, e pedimos tempo para que se dissolva a nuvem de pó levantada pelas bombas lançadas desde o ar - a fim de estar seguros de que embaixo não haja um cadáver da CIA. Isso quando não apoiamos diretamente, como o governo da Nicarágua, a um criminoso cujo mais leve contato só pode manchar para sempre qualquer um que se posicione como de esquerda ou progressista. Não é a OTAN que está bombardeando aos líbios, é Gadafi. "Misseis contra civis" é algo que não podemos aceitar. Mesmo antes de fazer perguntas, temos de condenar isso com toda energia e indignação. Mas vamos também fazer perguntas. Porque se perguntamos, as respostas que temos - por poucas que sejam - também devem mostrar de que lado devem estar agora os revolucionários do mundo. Oxalá Gadafi caia hoje, em vez de amanhã. Oxalá a América Latina compreenda que o que ocorre nesses momentos no mundo árabe tem a ver, não com planos maquiavélicos da UE e dos EEUU (que sem dúvida manobram nas sombras), mas com os processos abertos em Nossa América, a de todos, da ALBA e da dignidade, desde o princípio dos anos 90, seguindo a estrela de Cuba de 1958. A oportunidade é grande e pode ser a última para reverter definitivamente a atual relação de forças e isolar as potências imperialistas em um novo marco global. Não caiamos em armadilhas tão facilmente. Não desprezemos os árabes. Eles não são socialistas, não, mas nos últimos dois meses, de forma inesperada, colocaram a nu a hipocrisia da UE e dos EUA. Manifestaram seu desejo por uma verdadeira democracia, longe de qualquer tutela colonial, e abriram um espaço para pôr em dificuldades desde a esquerda, as tentativas de reconversão, também territorial, do capitalismo. É a América Latina da Alba, de Che e Playa Girón, cujo prestígio nessa zona estava intacto até ontem, que deve apoiar o processo antes que o relojoeiro do mundo gire a história para trás e a manipule a seu favor. Os países capitalistas têm "interesses", os socialistas só "limites". Muitos destes "interesses" estavam com Gadhafi, mas nenhum desses limites têm nada a ver com ele. É um criminoso e também um obstáculo. Por favor, companheiros revolucionários da América Latina, os camaradas revolucionários no mundo árabe estão pedindo que não apóiem Gadafi.
fonte: http://www.kaosenlared.net/noticia/pasa-libia-mundo-arabe-america-latina
tradução: Railton - http://taborita.blogspot.com/
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
O Descaminho da Era Kadafi
Por Carlos Carvalho Cavalheiro 24/02/2011 às 22:27
Artigo discute o desvio dos ideais da Revolução Líbia de 1969, a qual, no discurso ideológico, pregava a soberania popular
Há algum tempo não se ouvia falar em Muamar Kadafi, o coronel líbio que, aos 27 anos liderou uma revolução de caráter socialista-islâmico pondo fim ao reinado absolutista e corrupto do rei Idris I.
Desde 1951, Idris comandava o país que, a despeito de possuir petróleo, contava com uma população extremamente pobre e uma economia frágil. A renda per capita era estimada, naquela época, em 40 dólares. Liderando um grupo de soldados e oficiais rebeldes, em setembro de 1969, Kadafi liderou uma revolução que mudou os rumos do país e acabou com o reinado de 18 anos de Idris.
Na década de 1970, o mesmo Muamar Kadafi lança "O Livro Verde", no qual expõe suas ideias para a reconstrução de um país baseado em valores como a Democracia direta (sem representantes políticos), o socialismo islâmico e uma nova sociedade pautada pela organização tradicional.
Hoje vemos toda essa História entrando numa espiral de descaminho, se contradizendo e desmentindo sua própria consciência. O mesmo homem que disse: "Nada pode substituir o povo" e que "A democracia é o poder do povo pelo povo"; é o mesmo que autoriza e ordena ataques genocidas a esse mesmo povo quando este ousa exercer o que lhe é mais legítimo: o direito de escolher seu próprio destino!
O sonho da República Livre e soberana se desfaz com a triste realidade que se imprime nos jornais: centenas de pessoas estão sendo mortas na Líbia e já não há como distinguir o atual regime com aquele derrubado na década de 1950.
Através dos ideais da revolução líbia criou-se uma organização intitulada Mathaba, cujo um dos princípios é "prestar solidariedade aos povos que lutam pela sua emancipação".
É o caso de se perguntar: Não passou da hora da Mathaba ajudar a própria Líbia?
Como no livro "A Revolução dos Bichos", de George Orwel, nos deparamos com a cena em que homens e porcos se juntam e o povo, que a tudo assiste, cria a consciência de que, assim juntos, não há como distingui-los.
22.02.2011.
Carlos Carvalho Cavalheiro
Email:: carlosccavalheiro@yahoo.com.br
extraído de: http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2011/02/487222.shtml
Artigo discute o desvio dos ideais da Revolução Líbia de 1969, a qual, no discurso ideológico, pregava a soberania popular
Há algum tempo não se ouvia falar em Muamar Kadafi, o coronel líbio que, aos 27 anos liderou uma revolução de caráter socialista-islâmico pondo fim ao reinado absolutista e corrupto do rei Idris I.
Desde 1951, Idris comandava o país que, a despeito de possuir petróleo, contava com uma população extremamente pobre e uma economia frágil. A renda per capita era estimada, naquela época, em 40 dólares. Liderando um grupo de soldados e oficiais rebeldes, em setembro de 1969, Kadafi liderou uma revolução que mudou os rumos do país e acabou com o reinado de 18 anos de Idris.
Na década de 1970, o mesmo Muamar Kadafi lança "O Livro Verde", no qual expõe suas ideias para a reconstrução de um país baseado em valores como a Democracia direta (sem representantes políticos), o socialismo islâmico e uma nova sociedade pautada pela organização tradicional.
Hoje vemos toda essa História entrando numa espiral de descaminho, se contradizendo e desmentindo sua própria consciência. O mesmo homem que disse: "Nada pode substituir o povo" e que "A democracia é o poder do povo pelo povo"; é o mesmo que autoriza e ordena ataques genocidas a esse mesmo povo quando este ousa exercer o que lhe é mais legítimo: o direito de escolher seu próprio destino!
O sonho da República Livre e soberana se desfaz com a triste realidade que se imprime nos jornais: centenas de pessoas estão sendo mortas na Líbia e já não há como distinguir o atual regime com aquele derrubado na década de 1950.
Através dos ideais da revolução líbia criou-se uma organização intitulada Mathaba, cujo um dos princípios é "prestar solidariedade aos povos que lutam pela sua emancipação".
É o caso de se perguntar: Não passou da hora da Mathaba ajudar a própria Líbia?
Como no livro "A Revolução dos Bichos", de George Orwel, nos deparamos com a cena em que homens e porcos se juntam e o povo, que a tudo assiste, cria a consciência de que, assim juntos, não há como distingui-los.
22.02.2011.
Carlos Carvalho Cavalheiro
Email:: carlosccavalheiro@yahoo.com.br
extraído de: http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2011/02/487222.shtml
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
A Tradição Libertária no Oriente Próximo e Rússia
Para uma melhor compreensão desse imenso barril de pólvora (para não dizer de petróleo) econômico, político e social, em que se converteu, principalmente o Oriente Próximo, segue o texto abaixo
Por Kenneth Rexroth
No Oriente Próximo, onde apareceu pela primeira vez, a vida comunal da aldeia neolítica tem sido desvirtuada e inviabilizada pelas invasões do Estado e da economia externa até os dias presentes. Até a Segunda Guerra Mundial ou até a descoberta do petróleo nos arredores, a vida em uma aldeia isolada do Oriente Médio era em muitos aspectos semelhante a que teve durante oito mil anos. Assim, não é surpreendente o entra e sai de movimentos comunalistas no mesmo local do nascimento do Estado centralizado, nem o porque deles terem falhado, com uma larga economia baseada na irrigação, silos regionais, e planejamento racional da agricultura, tudo isso exigiu um aparato administrativo centralizado.
A religião persa oficial, o zoroastrianismo, poderia ser considerada um reflexo do Estado centralizado do Oriente Próximo, com seu sistema de palácio e monarca absoluto. O yasnas de ZendAvesta contêm muitas máximas dirigidas contra o comunismo, contra o desrespeito aos nobres, contra o pacifismo, e contra a comunidade pirata nômade, contudo, contem também algumas tendências comunalistas, funcionando secretamente, para emergir na religião de Mazdak nos anos posteriores da dinastia sassaniana.
Mazdak nasceu no final do século V e os seus discípulos esparramaram sua doutrina tão rapidamente sobre a Pérsia que eles logo converteram um grande número de pessoas importantes e eventualmente, o próprio Rei Kawaz.
Para Mazdak a fonte de todo mal era devido à ação malévola dos diabos, Inveja, Ira, Ganância, que tinham destruído a igualdade primitiva e a comunidade do homem. Os discípulos de Mazdak mantinham todas as coisas em comum incluindo, de acordo com seus inimigos, as mulheres. Como a maioria dos hereges eles foram acusados de serem viciados em orgias sexuais. Por outro lado eles também foram acusados de extremo ascetiscismo, vegetarianismo, e a recusa em matar sob qualquer circunstancia. O comunismo não era incidental para o mazdaismo, mas central. Os grandes pecados mortais eram relacionados a possessividade e violência, e as maiores virtudes eram aquelas da comunidade do amor.
Temos informações incompletas sobre o que aconteceu depois da conversão do rei, mas os efeitos sociais parecem ter sido drásticos e supostamente devem ter conduzido à sua deposição temporária pelo seu irmão Jamasp. Em sua restauração seu filho, Khusraw I (Chosroes I), enganou Mazdak cortejando todos seus discípulos, recebendo a submissão formal de Khusraw e a pública profissão da nova religião. Quando os mazdaitas entraram nos jardins reais para participar de um grande banquete, cada grupo foi agarrado e enterrado de cabeça para baixo com os pés para fora. Khusraw conduziu Mazdak pelo jardim e disse, "veja a colheita que sua má doutrina produziu", e enterrou-o, de cabeça para baixo, entre seus seguidores.
O massacre, que aconteceu em A.D. 528, não exterminou a seita. Na ascensão de Khusraw três anos depois começou uma nova perseguição e os mazdaitas foram caçados ao longo da Pérsia. Porém, um remanescente parece ter continuado agindo secretamente, passando suas doutrinas e práticas às seitas estrangeiras que surgiram dos ismaelitas e haxixins, cismáticos do corpo principal do Islã. Por seus esforços em defender o zoroastrianismo foi dado a Khusraw o título de Nushirwan-Anushak-Ruban — "espírito imortal" — e ainda é venerado pelos persas como um herói religioso.
Infelizmente não sabemos praticamente nada dos detalhes desse fato, que no final das contas foi o episódio histórico principal. Algumas das fontes do zoroastianismo, islamismo e cristianismo, vieram através de testemunhas oculares, substituídas abusivamente por economistas e sociólogos. Sabemos menos ainda sobre o comunismo atribuido ao círculo interno dos primitivos manichaeanos, cujos oponentes se chamavam zandiques, que correspondem com os cathari entre os últimos albigenses europeus descendentes dos manichaeanos. O comunismo entre os zandiques aparentemente foi praticado por uma minoria que escolheu seguir conselhos de perfeição semelhante aos monges cristãos. Muito mais que o mazdaismo, que floresceu dentro dos limites do império sassaniano, o manichaeanismo, e depois o agnosticismo, influenciou profundamente o desenvolvimento da heresia islâmica. Desde então, mais especialmente em seus primeiros dias, o islã participou especialmente no caráter de uma imenso bando de nômades conduzidos por caravanas mercantes, invadindo sociedades estabelecidas dentro de seu perímetro de expansão — a guerra do estepe contra a areia — sempre havia um elemento de comunalismo pirata em sua ética social e em menor grau em sua prática. Embora Maomé fosse um comerciante e falasse para as comunidades mercantis de Meca e Medina, a distinção entre invasores beduinos e comerciantes mercadores é bem nebulosa. O posterior evoluiu do anterior e permaneceu dependente dele. A diferença essencial estava entre pilhagem e lucro. O bando nômade compartilhava a pilhagem, o comerciante guardava seu lucro para si. Assim essas comunidades islâmicas de hereges que praticaram o comunismo normalmente eram os piratas do deserto e da estepe, como os haxixins, uma sociedade secreta de extorcionistas.
A fonte da maior heresia islâmica não está no corpo principal do mohammedanismo, o sunnism, a religião da maioria dos árabes e dos habitantes das terras conquistadas e mantidas, mas no chia, a religião da Pérsia. Os chutas rejeitam a noção de um califa eleito e de um clero que sempre funciona como um tipo de rabinato com um corpo legislativo sujeito à discussão — como no Talmud — a favor de um califa hereditário descendente do profeta Ali, o genro de Maomé, que por uma linha de divindade ordenava sete ou doze sucessores, dependendo da seita, imams que adquiriam o caráter de emanações diretas da deidade. Na Pérsia essa linhagem também descende do último dos reis sassanianos pela filha Yazdigird, Harar, a gazela, esposa do mártir Husayn, e mãe de Ali Asghar. Assim, combinado a uma linha hereditária, ocorre uma mística encarnação divina no Rei Persa, (o helenístico Basileus ó Sotef) e em Ahura Mazda. O iman final é oculto, para ressurgir apenas no fim do mundo na forma de um Salvador ou Mahdi, normalmente inacessível, mas representado diante das pessoas através de missionários, ou dais, que o revelam clandestinamente. As vezes mahdi e imam são identificados ou, como na dinastia Fatimid do Egito, funcionam como verdadeiros governantes. Entre os ismaelitas o último desaparecido é Sete que reaparecerá, como na Segunda Vinda de Cristo, no fim do mundo. Na maioria das seitas ismaelitas ele é a emanação final da série de sete, não confundir com os sete imams que são todos espiritualmente idênticos, mas de um caráter metafísico, gnóstico, similar aos aions dos valentinianos gnósticos ou aos sephiroth da kabala judia. Nós estamos lidando aqui com emanacionismo, soteriologia, e um apocalipticismo que remonta ao amanhecer da religião no Oriente Próximo — por exemplo, a egípcia "teologia de Memphite", encontra analogia na mahayana budista. A semelhança com a forma prevalecente do zoroastrianismo, uma religião que se pronunciou amplamente nos haxixins antes da conquista muçulmana, como uma de suas expressões mais hereges. O chiísmo tem sido qualificado como a revolta da Pérsia contra o sunismo árabe, embora o chiísmo tenha florescido por um tempo no Egito, e até mesmo em lugares distantes como Espanha e Indonésia. É a atual religião na Pérsia, e dos ismaelitas na índia cujo mahdi é Aga Khan.
Tanto em estrutura como em doutrina a maioria das formas avançadas de chiísmo se assemelha aos boxes chineses, um governo hierárquico inacessível, uma religião oculta, uma série inclusiva de mistérios cujo segredo final é que não há mistério algum. A atração de tal religião e sociedade secreta é grande, especialmente quando associada com o poder mundano atual.
Contemporaneamente, ao estabelecimento da dinastia fatimida em Trípoli no final do século IX e à conquista do Egito em 972 A.D. uma seita estreitamente relacionada com os carmathianos desenvolveu-se na parte mais baixa do vale mesopotâmico e ao longo da costa noroeste do Golfo Persa.. O califado do sunita ortodoxo Abbasid em Bagdá ficou preocupado com uma grande revolta de escravos negros, a insurreição de Zanj. Os carmathianos tentaram uma aliança com os líderes de Zanj. Isso provou ser impossível, mas eles puderam estabelecer uma oposição paralela, depois da supressão da revolta de Zanj os carmathianos não apenas controlaram secretamente a costa norte do Golfo Persa, como também organizaram a subversão no lêmem, na Síria, e na própria Bagdá. Em 900 A.D. as tropas do califado foram derrotadas em Basra e dali em diante os carmathianos passaram a controlar Bahrayn, eventualmente Basra, e muitas outras cidades entre a Mesopotâmia e a Arábia, cortando as rotas de peregrinagem para Meca, e normalmente as conexões marítimas de Bagdá. Aqui eles estabeleceram o que provavelmente foi a única sociedade comunista a controlar um grande território, mantendo esse controle por mais de uma geração, antes do século XX.
Os carmathianos também atacavam as caravanas de peregrinos para Meca, muitas vezes matando milhares de pessoas, atacaram cidades tão longínquas quanto Damascus, onde eles parecem ter estabelecido um considerável corpo de seguidores secretos. Finalmente eles atacaram a própria Meca e levaram a Pedra Preta sagrada, o objeto mais santo do Islã, junto com uma imensa pilhagem (928 A.D.). Dentro do próprio bahrayn havia um completo e absoluto comunismo. Os cidadãos não pagavam nenhum tributo ou imposto; seu bem-estar estava garantido desde o nascimento até a morte, na doença ou na saúde. Todo trabalho duro, servil, ou desagradável era executado por escravos negros que parecem ter sido os remanescentes derrotados da revolta de Zanj que fugiram para seus semi-aliados e voluntariamente preferiram a escravidão com os carmathianos do que o extermínio com os sunitas. Os ortodoxos acusaram os carmathianos de comunidade de mulheres (as mulheres eram de todos) e de todas as formas de orgias. Na verdade eles eram estritamente monógamos, uma casta militar um pouco parecida com os guardiães de Platão ou os Cavaleiros Teutônicos, conduzindo uma vida severamente rígida, pura e regulada. O uso de vinho e todos os vícios secundários eram estritamente proibidos. As mulheres não usavam véus, circulavam livremente em público e exerciam uma influência considerável. Os carmathianos não eram obrigados a cumprir as ordenanças específicas do Islã, nem mesmo encontros de sexta-feira, orações diárias, ou comer alimentos sagrados. As práticas esotéricas do mohammedanismo foram substituídas pelo culto à Luz, um misticismo contemplativo relacionado ao sufismo, bem parecido com o do maior teólogo sufi, Ibn ei Arabi. Como os sufis os carmathianos se vestiam exclusivamente de branco e colocavam grande ênfase na moral e na pureza física. Nós ainda estamos no mundo dos essênios, do therapeutae, e da luz pela emanação da luz dos philo judaeus. Se algumas acusações de seus perseguidores ou algumas tradições secretas de ocultismo dos cavaleiros templares forem verdadeiras, esta é a fonte.
Em 1084 A.D. Bahrayn foi subvertida, mas surgiu um outro domínio ismaelita, uma nova irmandade de mistério e aventura, os haxixins, que se estendeu ao longo do Norte da Síria e no Mar Cáspio. Baseado em uma série de comunidades-fortalezas no remoto deserto ou em áreas montanhosas das quais Alamut foi a mais famosa e a que mais tempo durou, os haxixins estiveram ativos durante todo o período das Cruzadas como uma irmandade secreta de extorcionistas — e haxixins — que espalhou o terror por todo o Oriente Próximo. Eles pilhavam, influenciavam politicamente, e impunham respeito tanto em cristãos como em muçulmanos. O comunismo autoritário dos carmathianos abriu caminho para um puro autoritarismo. Seus adeptos eram provavelmente controlados por uma espécie de hipnose de massa induzida pelo excessivo uso do haxixe, daí seu nome, haxixins. Suas fortalezas foram destruídas e eles foram exterminados quase que completamente pelos mongóis sob o comando de Hulagu, que aparentemente nutria um ódio especial contra eles. Depois de capturarem o grande mestre de Alamut, o enviaram para Hulagu, mas escapou, eles sobreviveram como seguidores de Aga Khan.
Os carmathianos e os haxixins são os primeiros claros exemplos de uma sociedade comunal de mútuo-benefício vivendo da pilhagem de outras comunidades. Tal organismo pode ser apenas intersticial e funciona nos pontos divisórios entre as classes de um Estado altamente organizado, nas brechas entre dois Estados antagônicos, ou na periferia das sociedades altamente organizadas. Este é o comunismo da gangue urbana ou bando pirata de ladrões em tempos de desorganização social — como o bando imortalizado pela novela chinesa, The Water Margin (Ali Men Are Brothers), e naturalmente, nos contos de Robin Hood. Os carmathianos floresceram do antagonismo entre fundamentalistas árabes e civilizações persas. Os haxixins, a mais famosa das muitas comunidades similares que praticava um esoterismo religioso, sobreviveram saqueando seus vizinhos ao longo das fronteiras ao Norte da Pérsia, no Cáucaso, ao longo do Mar Cáspio, e por todo Oxus, o atual Afeganistão.
Antes das Cruzadas, a civilização islâmica era incomparavelmente mais adiantada e rica do que a Europa Ocidental. As Cruzadas em si eram uma espécie de brigada religiosa, da mesma maneira que o islã tinha sido, quando os beduínos e mercadores da Arábia pilharam o império bizantino. Assim não é extraordinário que o tipo de organização inventada pelos carmathianos e haxixins acabou sendo adotada pelos cruzados. Os cavaleiros templares e outras ordens militares eram no princípio sociedades similares, autoritárias, comunistas, de bandidos religiosos, só distinguidos pelos seus votos de celibato.
Se aceitarmos qualquer uma das acusações feitas contra os templários quando foram suprimidos por Filipe, o Belo, em 1307, veremos que eles não apenas copiaram a estrutura organizacional dos haxixins como também sua classificação esotérica, que conduzia a um deísmo céptico, acompanhado por ritos e práticas que os ortodoxos consideraram blasfemas e obscenas. Os templários foram acusados de cuspir na cruz em sua iniciação, de pederastia institucionalizada, e de orgias noturnas, mas eles foram suprimidos porque haviam se tornado a organização mais rica da Europa e um estado dentro do estado, independente de reis e do papado, como também uma imensa corporação de "banqueiros internacionais".
Nas costas do Báltico e no interior, os cavaleiros teutônicos tinham uma organização semelhante à dos militares ordenados cruzados exceto quando se fixavam em um território específico. Da mesma forma que os templários sucederam aos haxixins e carmathianos, os cavaleiros teutônicos foram os sucessores das comunidades pagas varangianas que povoavam as vias fluviais desde o Báltico até o Mar Negro, comunidades fortificadas de mercadores-guerreiros escandinavos consideradas parte das populações mais bárbaras entre os Finns, Letts, e eslavos. Aparentemente eles praticaram uma economia de bando de ladrões, compartilhando a riqueza, mas com a maior parte do roubo indo para seus chefes. Eles não eram celibatários como os cavaleiros teutônicos. Suas mulheres eram escravas concubinas tomadas de povos circunvizinhos, e em alguns casos aparentemente eram imoladas quando seu chefe ou senhor morria. Uma das principais mercadorias de comércio dos impérios bizantino e persa era o tráfico de escravos loiros. As colônias varangianas da grande Rússia nunca conseguiram se unir para formar um único estado escandinavo, embora estabelecessem as fundações da monarquia kievan, e até mesmo os Romanovs reivindicavam ser descendentes deles. Porém, durante algum tempo, no período viking, osjomsvikings da cidade-fortaleza de Jomsburg, em algum lugar na costa do sudoeste do Báltico (o local nunca foi identificado com certeza) funcionou como um estado comparável à Noruega, Suécia, e Dinamarca.
A conquista dos mongóis destruiu o poder escandinavo na Rússia e arrasou a região do Báltico. Da mesma forma que os mongóis subjugaram o interior e destruíram os domínios eslavos e varangianos no princípio do século XIII, os cavaleiros teutônicos mudaram suas atividades da Terra Santa para a Prússia paga sujeitando a população finlandesa e eslava numa guerra de genocídio, e eventualmente chegaram a controlar toda costa ao sul do Báltico.
Este tipo predatório, parasítico, de associação em mútuo benefício, gradualmente abandonou suas características comunistas e religiosas para, no começo da era capitalista, emergir nas grandes companhias de comércio orientais, nas companhias holandesas e nas companhias inglesas da índia oriental e corporações semelhantes, tomando a forma de algo parecido com uma mistura de brigadas militares com mercadores.
Em tais sociedades as relações contratuais jurídicas ou implícitas que prevalecem entre os sócios e que são escassamente sentidas, são trocadas por uma calorosa fraternidade de homens unidos pelo constante perigo e pela esperança de riqueza sem trabalho duro. Obediência, lealdade até a morte, completa devoção pela causa, ajuda sacrificatória para irmãos em angústia, coisas como estas florescem muito mais em sociedades de bandidos do que entre cidadãos refinados de uma comunidade estável. Como um corpo que cresce em antagonismo aos valores das sociedades às quais não pertence, sejam mais civilizadas ou mais bárbaras. Essa relação ganhou força apresentando uma face misteriosa a todos os estranhos, desenvolvendo onerosos ritos de iniciação e de graduação progressiva. Nos círculos mais altos que deliberadamente treinam e manipulam os graus mais inferiores, normalmente prevalece um completo ceticismo e quando alguém é admitido ao governo, ao alto conselho, o último segredo a ser revelado é que não há segredo algum. Outra característica de tal sociedade foi a impiedosa purgação de todos os sócios desde a base até o topo que não conseguiam se adaptar a mudanças rápidas no governo ou na política. Tais comunidades dependeram de obediência absoluta e da mais perfeita forma de autoridade que se estreita continuamente até que desaparece no topo de um pináculo, o princípio metafórico da própria autoridade. Tais sociedades, como os templares, os jesuítas, os bolcheviques, sempre encheram as grandes sociedades circunvizinhas de terror, sendo tema de lendas horrorizantes, e de cruéis perseguições.
Historiadores científicos dedicados a uma ponderação não-emocional das evidências, e normalmente comprometidos pelo evangelho social do neoliberalismo, quase sempre negaram as acusações de conduta ultrajante e obscena lançadas contra sociedades secretas, grupos heréticos, e movimentos ocultos, como produtos das mentes doentias de seus acusadores. Isso se deve em parte a um compromisso anterior com a doutrina da bondade inerente do homem.
Foram dedicadas muitas páginas para provar que os carthaginianos não sacrificavam bebês a Moloch, que nunca houve pederastia no Monte Athos, ou que as bruxas não passavam de mulheres loucas ou velhas. Se desejar, alguém pode rejeitar uma evidência, mas certamente há um monte de outras evidências apontando para o lado oposto. As bruxas da Europa e da Nova Inglaterra podem ter confessado debaixo de tortura coisas que nunca fizeram, mas no mundo inteiro, na Ásia, África, e na América primitiva as bruxas e chamans faziam precisamente as mesmas coisas.
* * *
A relação social que prevaleceu na comunidade da aldeia neolítica nas férteis regiões agrícolas desde os estepes da grande Eurásia até as planícies do Danúbio através da Ucrânica e da Sibéria — que o ecólogo americano chamaria de clímax da pradaria de grama extensa — suportou por milênios, de certo modo até o século XX. O ambiente era tal que permitia um excedente agrícola sumamente estável, baseado em pequenos grãos e na domestificação sedentária de animais domésticos para a obtenção de carne e leite. Tais comunidades estavam continuamente sujeitas à invasão de pastores nômades que vagavam ao longo do grande mar de estepe que se estendia diante deles. A maioria dos estados centralizados penetravam nessas comunidades de pastores através de nômades, que por muitas gerações iam e vinham, infiltrando-se cada vez mais dentro dessas comunidades.
Até a imposição da servidão na era moderna, o modo de vida adotado em uma típica aldeia ucraniana ou na Grande Rússia remonta de um tempo tão longínquo que é necessário seguir seus rastros arqueológicos, tal modo de vida provou ser singularmente resistente tanto ao estilo eslavo de feudalismo como a sua servidão posterior. A comunidade camponesa eslava sobreviveu à abolição da servidão e as únicas tentativas parcialmente bem sucedidas de estado e as novas classes altas até mesmo para "libertar os servos" e estabelecer um trabalho assalariado e uma agricultura de semeadura — que permitiria a acumulação primitiva necessária ao desenvolvimento capitalista. Até mesmo a longa luta dos bolcheviques para industrializar a agricultura, as pequenas comunidades, e substituir cidades agrícolas por vastas fazendas e coletivos estatais nunca foi completamente bem sucedida. A agricultura coletivizada da moderna Rússia, embora altamente racionalizada e comunalista (talvez na teoria), fica bem aquém na produtividade per capita por acre da Europa Ocidental, bem menor que a americana em termos de agricultura em larga escala, e há muito provou ser menos produtiva que nos velhos tempos das fazendas mistas de duzentos acres do meio oeste americano. Isto é verdade não apenas nas terras eslavas, como também especialmente na Ucrânia, considerada uma das terras mais férteis do mundo.
Milhares de anos atrás, quando o primeiro homem entrou nessa região, ele desenvolveu um modo de vida e uma espécie de comunidade, quase perfeitamente ajustada àquele meio ambiente especial. Qualquer tentativa de alterá-lo trouxe apenas desordem, ineficiência e desmoralização. Durante cinqüenta anos todo congresso do Partido Comunista ou Soviético se deparou com uma crise agrícola permanente, porém os fatos sempre foram disfarçados pela oratória.
A literatura russa e a teoria revolucionária, com exceção do marxismo, é pontilhada pelo misticismo da comunidade camponesa russa. Tipicamente, os socialistas revolucionários, em sua maioria partidários da Revolução Russa, esperavam reorganizar a sociedade russa tendo como modelo a sociedade camponesa, a mir, ou até mesmo a unidade administrativa da classe alta, a zemstvo — em outras palavras eles pretendiam realizar uma espécie de camponesação de toda estrutura industrial e cívica. Na realidade, os primitivos sovietes eram compostos por trabalhadores, cidadãos comuns, soldados, marinheiros, em sua maioria vindos, durante uma ou duas gerações, de aldeias camponesas. Estes sovietes cresceram espontaneamente na revolução de 1905.
Não há dúvida de que a comunidade camponesa foi altamente influenciada pelo movimento populista revolucionário Narodnaya Volya — "a vontade do povo" do século dezenove — dos revolucionários socialistas. Milhares de homens e mulheres jovens bem educados "iam até o povo" acreditando que se o camponês fosse educado ele reproduziria espontaneamente um comunismo eslavo especial que resgataria a sociedade industrial — eventualmente em todo o mundo. Os fatos brutais da vida camponesa são bem retratados nas narrativas de Chekhov, e é provável que os revolucionários sociais esquerdistas encontraram dificuldades em introduzir em aldeias neolíticas a ética da modernidade fabril e bancária pela qual os bolcheviques pretendiam industrializar a agricultura. Some-se a isso o fato de que formas comunais com origem na mais remota antigüidade, reaparecem naturalmente, se bem que brevemente, na Revolução de 1905, e na Revolução de 1917 até que os sovietes e as fazendas comunais fossem suprimidas pelos bolcheviques dois anos após o ataque implementado pelo poder.
Nos tempos modernos, naturalmente, as aldeias e comunidades não eram comunistas. Estavam bem distantes de compartilhar as coisas em comum. A pobreza e o grau de exploração tornava o camponês desesperadamente avarento. Porém, a dissensão russa é caracterizada por uma tendência global voltada para o comunismo. O anabatismo russo aparece na história ao mesmo tempo que no Ocidente — durante o século XVI — mas, como no Ocidente, há indicações de que adotou uma existência oculta e clandestina que remonta aos primeiros séculos do cristianismo na Rússia. As duas principais seitas batistas, a doukhobors e a molokani, brotaram continuamente fora dos grupos comunalistas que usualmente eram radicalmente suprimidos, porém inofensivas e insignificantes. Este processo teve seqüência nas comunidades imigrantes no Canada, América do Sul, e Estados Unidos, mas nenhum dos movimentos cismáticos durou muito tempo. Há um certo número de seitas extremadas que se assemelham um pouco com os gnósticos e manichaeans, e que podem ser relacionadas com o movimento paulican-bogomile-cathari-albigensian que se espalhou na Idade Média desde a Ásia Menor até o sul da França. Outros grupos como os shlisti e os skoptsi, que embora praticassem cultos orgiásticos e extáticos, eram celibatários ao ponto de se castrar, semelhantes aos mandeanos dos pântanos da Mesopotamia, ou a alguns dos cultos mais extremados que se desenvolveram fora do Islã xiíta, como ocorreu no cristianismo. A base camponesa e a selvagem perseguição sofrida criou freqüentemente a prática de um comunismo forçado entre eles, mas nunca estabeleceram comunidades permanentes onde todas as coisas eram possuídas em comum.
Depois que os huteritas e menonitas se instalaram na Rússia eles exerceram uma certa influência na sociedade camponesa ao seu redor. Lá ainda existem anabatistas que falam o russo e os que são essencialmente menonitas, mas não há notícia de comunidades puramente russas que seguem o modo de vida estrito do comunalismo huterita.
Nos primeiros anos que se seguiram após os bolcheviques tomarem o poder, estes esperavam usar o comunalismo inerente à dissensão russa no desenvolvimento de um programa de fazendas comunais, distintas das fazendas coletivas. Durante algum tempo tais fazendas, lideradas por dissidentes e seculares, floresceram a despeito da intromissão burocrática. Com a ordem de Stalin para a coletivização da agricultura, o Plano Qüinqüenal, e a supressão de toda dissidência política, como a "trotskysta", tanto as fazendas comunais como as fazendas dissidentes foram suprimidas, e oficialmente liquidadas. É provável que durante as grandes purgações foram exterminados cinqüenta por cento de todos os dissidentes russos, especialmente aqueles cujo modo de vida pudesse ser interpretado como heresia política.
Entre todos aqueles que idealizaram a comunidade camponesa eslava e o comunalismo inerente aos dissidentes russos, sem dúvida o mais influente, enquanto pessoa única não como partidário populista, foi Leo Tolstoi. Sob sua inspiração muitas pequenas comunidades de intelectuais se dedicaram ao comunismo, pacifismo, vegetarianismo, e à disseminação de uma religião mística e secularizada que se espalhou pela Rússia e por todo mundo principalmente nos finais do século XIX e no princípio do século XX. Freqüentemente, como os anabatistas poloneses, os proprietários de terras transformavam suas propriedades em comunidades, convidavam seus amigos boêmios da cidade, e "seus" camponeses para compartilhar na edificação do núcleo de uma sociedade nova no útero da velha. Como era de se esperar, poucas delas duraram mais que um par de anos e as histórias tragicômicas a respeito delas chegaram até nossos dias. Embora se saiba que houve muitas comunidades desse tipo, algumas delas exitosas, não há nenhum registro delas em nenhum idioma do Oeste Europeu, a menos que o checo seja classificado como tal. Os iugoslavos e os checos durante o breve período de sua história de liberdade intelectual mostraram um grande interesse por todos os aspectos da história, religiosa e secular, camponesa e industrial, dos grupos e movimentos comunistas.
Uma característica especial do desenvolvimento russo no final do século XIX e começo do século XX foi o estabelecimento de industriais ricos, que também eram grandes proprietários de terras, que subsidiavam em algo grau várias comunidades de artistas. Estes, naturalmente, embora fortalecidos em suas comunidades, estavam longe de ser agrupamentos econômicos comunistas. Entre eles estavam alguns dos principais artistas da Rússia pre-revolucionária, os quais exerceram uma profunda influência na arte russa e indiretamente nos primeiros conceitos dos baileis russes. Na medida que seus membros emigravam, sua influência se estendeu também até o Ocidente. No famoso bauhau, quase todos seus líderes eram comunistas livres e muitos deles estiveram na Rússia nos primeiros e excitantes dias pré-revolucionários, e passaram sua breve existência na República de Weimar, numa tentativa de realizar suas esperanças destroçadas enquanto construtivistas, confuturistas e outros modernistas na forma de uma comunidade de artistas que dedicaria seu trabalho e ensino revolucionando a mente da sociedade capitalista. Aliás, Hitler destruiu o bauhaus e dispersou os artistas, a maioria deles se tornaram completos capitalistas atuando em projetos de desenho industrial e de arquitetura nos Estados Unidos.
Considerações sobre os levantes populares no Norte da África
O que está acontecendo hoje no Norte da África é o seguinte: de cada 3 barris de petróleo produzidos no mundo 2 saem dali, e essa riqueza toda tá concentrada nas mãos de meia dúzia de famílias. Essa situação não poderia sustentar-se eternamente, daí o levante. Toda essa rebeldia tornou-se possível devido à uma nova tecnologia de comunicação. Pessoas comuns com um mínimo de recursos, conhecimento e condições, podem comunicar-se entre si a partir de qualquer lugar do mundo. Isso nunca aconteceu na história da humanidade.
Ao mesmo tempo em que essa tecnologia de comunicação horizontal avança ela progressivamente toma o lugar das velhas formas de comunicação verticais, monopolizadas pelos detentores do poder político, militar e econômico.
Enquanto uma câmera fixa da TV Estatal de Mubarak apontava para ruas desertas, sugerindo calma e estabilidade no Cairo, no mesmo momento, milhares de celulares e microfilmadoras colhiam imagens da Praça Tharir, sugerindo exatamente o contrário da emissora Governamental, e as enviavam para emissoras de TV como a Al Jazeera, twitter, facebook, para quem quisesse ver.
A cada dia fica mais claro para o homem comum que esses grandes meios de comunicação de massa têm como objetivos principais ganhar dinheiro satisfazendo a sanha pela satisfação de desejos criados artificialmente por essas próprias mídias e ou manter o status quo político e econômico, para resguardar os interesses daqueles que detém esses poderes.
Essas revoltas que eclodem no Norte da África estão diretamente relacionadas com a má distribuição de renda, com a má distribuição de riqueza.
Em minhas viagens pelo Egito e Marrocos pude testemunhar ofertas de pernoite que variavam de 20 a 2.000 dólares a diária em hotéis. Coisas assim despertam a consciência nas pessoas. Há algo de muito errado nesse mundo. E não é preciso ler Marx nem Bakunin para saber disso.
Esse quadro não é exclusivo do Norte da África, ele está presente em toda Europa, Ásia, Américas, em toda parte.
Os egípcios, líbios, Tunisianos, abriram um rombo num muro que parecia intransponível. Essas revoltas podem chegar a qualquer lugar da terra, pois em toda parte, hoje e como nunca, há grandes concentrações de riquezas e poder nas mãos de poucas pessoas.
Nossos irmãos árabes estão mostrando o caminho: Coragem, determinação e disposição de oferecer a própria vida, se preciso for, por justiça e liberdade. Quem se habilita?
Pichações na Líbia
"Não tenha medo do seu opressor", diz pichação do "Soug Aljoumaa de Trípoli". Grupo composto de jovens manifestantes que queimam estabelecimentos governamentais e delegacias de polícia, mas poupam escolas e bancos. Não são jovens drogados, como Gadafi os acusa.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
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