sábado, 11 de abril de 2009

O G20 em 10 pontos, segundo Robert Kurz


Robert Kurz, sociólogo alemão, autor de "O Colapso da Modernização", em 10 questões, descreve, no jornal Folha de S. Paulo, 29-03-2009, o que esteve em jogo na reunião do G20.

1. Renovação
Nos tempos da economia das bolhas financeiras e da conjuntura global de déficits, as instituições econômicas internacionais, sobretudo o Fundo Monetário Internacional, eram consideradas quase supérfluas. O dinheiro parecia existir em abundância, desde que se estivesse em condições de participar do jogo. Agora o jogo acabou. Sob a impressão da devastadora crise financeira global, a cúpula do G20 pretende renovar na íntegra a arquitetura do sistema financeiro internacional e, mais especificamente, revivificar o FMI. Mas, a rigor, já é tarde demais. De onde o FMI receberá seus recursos? Em uma situação de "perplexidade desorganizada", bons conselhos ameaçam tornar-se proibitivamente caros.

2. Poder institucional
Já antes da realização da cúpula, brigava-se pelas competências institucionais. A China propõe que o FMI controle, no futuro, o sistema financeiro internacional, reservando ao Banco para Pagamentos Internacionais, na Basiléia [Suíça], o papel de definir as novas regras. Isso, porém, provoca a reação dos EUA, que não aceitam quem lhes prescreva regras. Além disso a distribuição do poder institucional refere-se a um futuro que talvez nem se concretizará. Se, de certo modo, nada mais há para controlar, a única tarefa remanescente será a gestão da crise. E aqui é de pouquíssima serventia regatear em torno de competências futuras.

3. Beco sem saída
Na situação emergencial momentânea, numerosos "Estados cadentes" ("falling states"), nos quais a falência do Estado deveria ser evitada, ameaçam entrar em cena, da Islândia à Romênia. Nesses países, o FMI não mais deve impor exigências discriminadoras quando da concessão de créditos. Apesar disso, a ajuda do fundo nesses mercados está vinculada a um estigma, que tende a piorar a situação. Por isso, por exemplo, a Coreia do Sul não pretende lançar mão de recursos, embora deles necessite. Tal situação configura um beco sem saída.

4. Financiamentos
Para superar a crise, o FMI pretende inventar um novo programa de créditos, denominado Linha de Crédito Flexível. Mas esse nome bonito não diz nada sobre a origem do dinheiro com que o programa deve ser financiado e, tampouco especifica sua destinação. Não existe mais nenhuma cornucópia cujas benesses possam ser derramadas. Os espaços monetários centrais já precisam enfrentar suas crises internas.

5. Potência inflacionária
A médio prazo, todos os programas de crédito do FMI só podem ser implementados com base no dólar. Mas são justamente os EUA que agora acionam a máquina de imprimir cédulas. Neste ano, o endividamento deverá aumentar no mínimo em 15% do Produto Interno Bruto. A mesma tendência já se entremostra no Japão e na União Europeia. A potência inflacionária que ela contém e que, de qualquer modo, já é global só pode se reforçar, em razão dos créditos adicionais concedidos pelo FMI.

6. China e Índia
Países como a China e a Índia reivindicam uma cota mais elevada de direitos especiais de saque no FMI. De momento, a China detém apenas uma cota de 3,7%. Afirma-se que isso já não mais corresponde ao peso da economia chinesa. Mas uma cota mais elevada para a China afetaria outros países, como a Suíça, que naturalmente resistem contra essa medida. Além disso, a China e a Índia se transformarão, logo mais, de pesos pesados em pesos leves no decurso da crise econômica global. A redistribuição das cotas refere-se ao passado.

7. Crise do dólar
Outro tema do G20 será a substituição do dólar como moeda mundial, naturalmente às expensas dos EUA. O primeiro-ministro russo Vladimir Putin pretende "minar" a posição do dólar. Mas ele é uma toupeira incompetente, pois o próprio rublo [moeda russa] está despencando. O iene e o euro também não podem substituir o dólar. Todas as moedas centrais sofrem os efeitos da mesma crise financeira. Trata-se de uma crise generalizada da moeda enquanto "equivalente geral", não apenas de uma mera debilidade da moeda de reserva na concorrência normal entre as moedas nacionais.

8. Moeda fictícia
Com boas razões, a China vê com ceticismo os objetivos de Putin, mas a ideia chinesa de substituir o dólar como moeda de reserva justamente pelos direitos especiais de saque junto ao FMI não é, em nada, melhor. Essa moeda fictícia não tem nenhum fundamento na economia real e deve fracassar enquanto moeda de aplicação de reservas internacionais, por representar apenas uma superestrutura sintética da moeda real de todos os Estados nacionais envolvidos. Com esse sucedâneo, não há como conquistar a famosa "confiança" dos mercados.

9. Cooperação e protecionismo
É certo que na cúpula do G20 será invocada, em termos ritualísticos, a construtiva cooperação internacional em meio à crise. Mas, quanto mais fortes forem os clamores de advertência de todos contra o risco de "reflexos protecionistas", tanto mais todos estarão preparando, no plano doméstico, suas medidas protecionistas. Isso vale em especial para a China e os EUA, cujas advertências são particularmente audíveis. Cada um cuida primeiramente de si, embora todos saibam que, no patamar econômico entrementes atingido, a globalização só é reversível ao preço de colapsos de crises muito mais profundas.

10. Resultados duvidosos
Causam perplexidade não apenas as contradições entre os países envolvidos, mas também suas contradições internas. Em todos os países, os partidos lutam por concepções igualmente arriscadas. A queda dos governos tcheco e húngaro coloca a pergunta se os ministros presentes ao encontro de Londres genericamente ainda podem falar em nome de seus países e se a cúpula ainda tem capacidade de negociar soluções a longo prazo. O êxito da cúpula da crise é mais do que duvidoso. Provavelmente os participantes se despedirão com cortesia, sem terem chegado a resultados palpáveis, e procurarão depois salvar a própria pele. A interdependência de todos tende mais à paralisia, pois o mundo do capital desconhece uma instância comum.

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