terça-feira, 11 de novembro de 2008

Declaração de princípios da Sociedade de Amigos. Boston, 1838.

Nós, abaixo assinados, acreditamos ter o dever, para conosco e para com a causa tão cara a nossos corações, para com o país em que vivemos e para com o mundo inteiro, de proclamar a nossa fé, expressando os princípios que professamos, a finalidade por nós buscada e os meios que temos intenção de usar para chegar a uma revolução benéfica, pacífica e geral.

 

Eis os nossos princípios:

 

Não reconhecemos qualquer autoridade humana. Não reconhecemos senão um só rei e legislador, um juiz e líder da humanidade. Nossa pátria é o mundo inteiro; nossos compatriotas são todos os homens. Amamos todos os países como nosso próprio país, e os direitos de nossos compatriotas não nos são mais caros do que os de toda a humanidade. Por isto, não admitimos que o sentimento de patriotismo possa justificar a vingança de uma ofensa ou de um mal feito ao nosso país.

 

Reconhecemos que o povo não tem o direito de se defender dos inimigos externos, nem de atacá-los. Reconhecemos ainda que os indivíduos isolados não podem ter este direito em suas relações recíprocas, não podendo a unidade ter direitos maiores do que os da coletividade. Se o governo não deve se opor aos conquistadores estrangeiros que visam à ruína de nossa pátria e à destruição de nossos concidadãos, da mesma forma não pode opor a violência aos indivíduos que ameaçam a tranqüilidade e a segurança públicas. A doutrina, ensinada pelas igrejas, de que todos os países da terra são criados e aprovados por Deus, e de que as autoridades, que existem nos Estados Unidos, na Rússia, na Turquia etc. Emanam de Sua vontade, não é apenas estúpida, como também blasfematória. Esta doutrina representa nosso Criador como um ser parcial, que estabelece e encoraja o mal. Ninguém pode afirmar que as autoridades existentes, em qualquer país que seja, ajam com seus inimigos segundo a doutrina e o exemplo de Cristo.

 

Nem mesmo seus atos podem ser agradáveis a Deus. Não podem, portanto, ter sido estabelecidos por Ele, e devem ser derrubados, não pela força, mas pela regeneração moral dos homens.

 

Não reconhecemos como cristãs e legais não apenas as guerras — ofensivas ou defensivas — mas também as organizações militares, quaisquer que sejam: arsenais, fortalezas, navios de guerra, exercícios permanentes, monumentos comemorativos de vitórias, troféus, solenidades de guerra, conquistas através da força, enfim, reprovamos igualmente como anticristã qualquer lei que nos obrigue ao serviço militar.

 

Em conseqüência, consideramos impossível para nós não apenas qualquer serviço ativo no Exército, mas também qualquer função que nos dê a missão de manter os homens no bem pela ameaça de prisão ou de condenação à morte. Excluímo-nos, então, de todas as instituições governamentais, repelimos qualquer política e recusamos todas as honrarias e todos os cargos humanos.

 

Não nos reconhecendo o direito de exercer funções nas instituições governamentais, recusamos também o direito de eleger para estes cargos outras pessoas. Consideramos que não temos o direito de recorrer à justiça para nos fazer ser restituído o que nos foi tirado e acreditamos que, ao invés de fazer uso da violência, estamos obrigados a "deixar também o manto àquele que nos roubou a veste" (Mt 5,40).

 

Preconizamos que a lei criminal do Antigo Testamento — olho por olho,dente por dente — foi anulada por Jesus Cristo e que, segundo o Novo Testamento, todos os fiéis devem perdoar seus inimigos em todos os casos, sem exceção, e não se vingar. Extorquir dinheiro à força, prender, mandar para a cadeia ou condenar à morte não se constitui, evidentemente, em perdão, e sim em vingança.

 

A história da humanidade está cheia de provas de que a violência física não contribui para o reerguimento moral e de que as más inclinações do homem somente podem ser corrigidas através do amor; de que o mal não pode desaparecer senão por meio do bem; de que não se deve contar com a força do próprio braço para se defender do mal; de que a verdadeira força do homem está na bondade, na paciência e na caridade; de que só os pacíficos herdarão a terra e de que aqueles que com a espada ferirem pela espada perecerão.

 

Por isso, tanto para garantir com mais segurança a vida, a propriedade, a liberdade e a felicidade dos homens, quanto para seguir a vontade d'Aquele que é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores, aceitamos de todo o coração o princípio fundamental da não-resistência ao mal por meio do mal, porque acreditamos firmemente que este princípio, que atende a todas as circunstâncias possíveis da nossa existência e ao mesmo tempo exprime a vontade de Deus, deve finalmente triunfar. Não pregamos uma doutrina revolucionária. O espírito da doutrina revolucionária é um espírito de vingança, de violência e de morte, sem temor a Deus e sem respeito pela personalidade humana, e não queremos nos deixar penetrar senão pelo espírito do Cristo. Nosso princípio fundamental de não-resistência ao mal por meio do mal não nos permite insurreições, nem rebeliões, nem violências. Submetemo-nos a todas as regras e a todas as exigências do governo, exceto àquelas que sejam contrárias aos mandamentos do Evangelho. Não resistiremos de outra forma a não ser submetendo-nos passivamente às punições que poderão ser infligidas devido à nossa doutrina. Suportaremos todas as agressões sem deixar de, pelo nosso lado, combater o mal onde quer que o encontremos, no alto ou embaixo, no terreno político, administrativo ou religioso, e procuraremos atingir, servindo-nos de todos os meios possíveis, a fusão de todos os reinos terrestres num só reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Consideramos como verdade indiscutível que tudo aquilo que seja contrário ao Evangelho deve ser definitivamente destruído. Acreditamos, como o profeta, que virá um tempo em que as espadas serão transformadas em relhas e as lanças em foices, e que devemos trabalhar sem demora, na medida de nossas forças, para a concretização dessa profecia.

 

Em conseqüência, aqueles que fabricam, vendem ou se servem de armas contribuem para os preparativos da guerra e se opõem pela mesma razão ao poder pacífico do Filho de Deus na Terra.

 

Após a exposição de nossos princípios, dizemos agora de que modo esperamos alcançar nosso objetivo. Esperamos vencer "por meio da loucura da pregação".

 

Procuraremos difundir nossas idéias entre todos os homens, pertençam eles a qualquer nação, religião ou classe social. Para tanto, organizaremos palestras públicas, difundiremos programas e opúsculos, constituiremos sociedades e enviaremos petições a todas as autoridades públicas.

Em suma, empenhar-nos-emos, com todos os meios de que dispusermos, para produzir uma revolução radical nas opiniões, nos sentimentos e nos costumes da nossa sociedade, em tudo o que concerne à ilegitimidade da violência contra os inimigos internos ou externos.

 

Empreendendo esta grande obra, compreendemos perfeitamente que nossa sinceridade talvez nos prepare cruéis provações.

 

Nossa missão pode nos expor a muitos ultrajes e a muitos sofrimentos,e também à morte. Seremos incompreendidos, ridicularizados e caluniados.Uma tempestade se erguerá contra nós. O orgulho e a hipocrisia, a ambição e a crueldade, os chefes de Estado e os poderosos, tudo pode se voltar contra nós.Não foi de outro modo tratado o Messias que procuramos imitar na medida de nossas forças. Mas tudo isto não nos amedronta. Não colocamos nossa esperança nos homens, mas no Nosso Senhor Onipotente. Se recusamos qualquer proteção humana, é porque temos para nos sustentar apenas a nossa fé, mais poderosa do que tudo. Não nos maravilharemos com as provações e ficaremos felizes por haver merecido poder compartilhar dos sofrimentos de Cristo.

 

Assim, então, entregamos nossas armas a Deus, confiantes em Sua palavra de que aquele que abandonar campos e casas, irmão e irmã, pai e mãe, mulher e filhos, para seguir Cristo, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna.

 

Acreditando firmemente, apesar de tudo o que poderia cair sobre nós, no indubitável triunfo, em todo o mundo, dos princípios expostos nesta declaração, aqui pomos nossas assinaturas, confiando no bom senso e na consciência dos homens, mas ainda mais no poder divino, ao qual nos reportamos.


(*) Esse manifesto foi escrito em Boston pelo quacre, abolicionista, jornalista, defensor dos direitos feministas, Willian Garrison. Mas o primeiro a torná-lo mundialmente conhecido foi o escritor russo Leon Tolstoi através de seu livro "O Reino de Deus está em vós". Com o título de "Não-Resistência", Garrison, em 1838, propõe uma associação que visa contribuir para o restabelecimento da paz entre os homens e fornecer os meios adequados para fazer cessar a guerra. Essa declaração afirma que a paz universal não pode ser erigida sem o reconhecimento público do mandamento da não-resistência ao mal com a violência (Mt 5,39) em toda sua amplitude. Preceito que já vinha sendo praticado pelos quacres com os quais Harrison mantinha relações de amizade. 

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