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domingo, 13 de outubro de 2013

Os jornais, para que servem?

Os jornais, para que servem? (*)


Somos uma raça de acanhados homens-pássaros e em nossos vôos intelectuais, elevamo-nos pouco mais alto do que as colunas dos jornais diários.

Henry David Thoreau


Ler um jornal é como observar um aquário. Peixes, água, barquinho afundado, bolhas. A visão dos jornais restringe o mundo a um aquário! Um mundo reduzido, um conjunto ou círculo ideológico onde cabem apenas vedetes, uma covarde concessão às idéias dominantes e aos poderes governamentais.

Acompanhei as notícias dos jornais, revistas e TV no período da ditadura. Com raras exceções, não via utilidade melhor aos jornais impressos que dobrá-los, cortá-los, perfurá-los e dependurá-los em um prego perto da bacia da privada. Nem uma palavra pela democracia. O fato do regime ditatorial proibir jornais de falar a verdade não justifica proferir mentiras durante 21 anos. Se um soldado é obrigado pelo seu comandante a descumprir as leis, ferir, matar inocentes, se for pessoa de bem, nada mais lógico do que mudar de profissão. Porque os jornalistas naquele período não fizeram o mesmo?

Esses noticiários nos são vendidos como peixe velho retirado de uma geladeira. Em seus personagens principais, vedetes do mundo esportivo, político, artístico, científico, não se vê nada que lembre respeitáveis cidadãos de uma democracia. E quando retratam o homem comum, ele aparece como criminoso, estúpido, ridículo ou massa de manobra.

Lembro da ocasião em que contratei uma jornalista do Estadão para escrever uma matéria sobre Jaime Cuberos, que acabara de morrer de câncer. Sapateiro, jornalista, autodidata, respeitado no meio acadêmico, maior expressão do anarquismo brasileiro. A matéria seria publicada numa revista alternativa. “Jaime Cuberos? Quem é?” Disse ela, em tom de deboche. Respondemos que o Jornal do Brasil fizera no dia anterior uma resenha sobre sua vida, ao que ela retrucou: “o JB está à beira da falência, esse cara não merece nada além de uma nota paga na seção de efemérides”. Nesse dia eu compreendi a estreiteza da mentalidade da maior parte dos jornalistas.

Mas quem é este público que consome jornais? Quem é este público assim tão totalmente privado da liberdade e que tolera todo tipo de abuso? Seja lá qual for, ele merece menos que qualquer outro ser tratado gentilmente. Os manipuladores da propaganda, com o descaramento habitual daqueles que sabem que as pessoas tendem a justificar quaisquer afrontas não desforradas, calmamente declaram que “as pessoas informadas lêem jornais”. Mas essas informações e esses jornais são igualmente vis, pois dificilmente questionam quem, como, quando, porque certas matérias são escritas, e ignoram por quem e por qual razão uma versão do fato é defendida nos editoriais e outra não.

Os leitores de jornais, raramente proletários e nunca burgueses de verdade, são recrutados quase que completamente de um único estrato social, que, todavia, tem aumentado consideravelmente – o extrato dos empregados qualificados de baixo nível das várias ocupações do setor de “serviços”, tão necessários ao atual sistema de produção: administração, controle, manutenção, pesquisa, ensino, propaganda, entretenimento, pseudo crítica. Só para dar uma idéia de quem são eles. Este público que ainda lê jornais, inclui naturalmente o jovem da mesma classe que ainda está na fase de aprendizado de uma ou outra dessas funções.

Enganados sobre tudo, eles podem apenas repetir absurdos baseados em mentiras – não passam de pobres assalariados que se vêem como donos de propriedades, não passam de místicos ignorantes que se julgam educados, não passam de zumbis com a ilusão de que seus votos significam alguma coisa, e que acompanham diariamente os gráficos das intenções de voto estampados nas manchetes, que pautarão suas conversas nos bares, filas e local de trabalho.

Este público, que gosta de simular conhecimento, na verdade não faz outra coisa senão justificar tudo aquilo que é forçado a sofrer, aceitando passivamente a constante e crescente repugnância do alimento que ingere, do ar que respira, da casa onde mora – este público leitor grita por mudança somente quando afeta a mesmice com a qual se acostumou. Todos os jornalistas, até mesmo aqueles suficientemente atualizados para ecoar alguns poucos modismos criados pela imprensa, continuam presumindo a inocência deste público, continuam usando as mesmas velhas convenções jornalísticas para mostrar o mesmo tipo de aventura distante ordenada por celebridades – celebridades cuja intimidade pode ser vista em grande parte pelo buraco da fechadura da TV.

Os jornais a que me refiro é uma imitação desordenada de uma vida desordenada, uma produção habilmente projetada para nada comunicar. Não serve a nenhum propósito fora daquela hora de enfado que reflete o mesmo enfado. Esta imitação covarde é a enganação do presente e a falsa testemunha do futuro. Sua massa de ficções e grandes espetáculos não passa de uma acumulação inútil de reflexos varridos pelo tempo. Que respeito infantil pelas imagens e pensamentos de políticos profissionais, celebridades de BBB, Fazenda, vedetes de futebol! Esta feira das vaidades é bem adequada para espectadores plebeus, que constantemente oscilam entre o entusiasmo e a decepção, o bipolarismo epidêmico de nossos dias; falta-lhes gosto porque eles nunca tiveram nenhuma experiência feliz em coisa alguma, e recusam admitir suas experiências infelizes porque lhes falta além da coragem também o gosto. Isso explica porque nunca cessam de sofrer todo tipo de fraude, geral e particular, que apela para a auto influenciada credulidade.

O que os jornais de nossos dias escrevem, da mesma forma que durante o tempo da ditadura, é tão desprezível quanto a máxima de que o que não está no processo ou no aquário não está no mundo. Foi justamente a intimidação de testemunhas, a compra de falsos depoimentos, o sumiço de provas cabais, tudo isso promovido pelo governo dos Estados Unidos, que lançaram Sacco e Vanzeti na cadeira elétrica, e que fizeram o advogado deles jurar que nunca mais pisaria num tribunal.

Todo ano a mesma ladainha do mundo do aquário e do processo. Diariamente jornais estampam malditos gráficos de intenção de voto em candidatos de plantão. Como se não houvesse no mundo outra opção à democracia representativa, democracia que deixa de sê-la ao tornar-se representativa. Como se democracia do povo e democracia de representantes ou pseudo representantes do povo fossem a mesma coisa.

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(*) boa parte desse texto constitui desvio de "In Girum" de autoria de Guy Debord

sábado, 24 de agosto de 2013

Aspectos da vida quotidiana: o vômito social

Enquanto organismo vivo a sociedade às vezes tem espasmos e vomita, maio de 1968 na França e junho de 2013 no Brasil, são uma prova visível disso.

Vômito é a expulsão ativa do conteúdo gástrico pela boca. O vômito é ao mesmo tempo um sinal e um sintoma bastante desagradável que pode assustar muito a pessoa atingida. Pode ocorrer nas doenças do labirinto, nas intoxicações, nas obstruções intestinais e como resposta do organismo a dores muito intensas.

A sociedade enquanto ser vivo também vomita. Hoje, o Brasil vive na zona de gatilho. É o momento histórico quando a sociedade sente vontade de vomitar todo o sistema econômico e político presente em suas entranhas. Essa compreensão situa-se fora do domínio (domain) das empresas, dos partidos, da imprensa, daí a dificuldade e até mesmo impossibilidade deles apreenderem o que aconteceu e acontece.

Diante desse quadro, as principais substâncias estimulantes que o Sistema injeta na sociedade doente não configuram nenhuma novidade: é um misto de pão, circo, e ilusões econômicas, espetaculares e políticas: novos partidos, novos candidatos, copa do mundo, olimpíadas, bolsas, auxílios, quotas, que procuram aliviar, não curar, os sintomas da desigualdade crônica. Institutos como bom prato ou mesmo o bolsa família, por exemplo, gerado pelo PSDB à direita e implantado pelo PT à esquerda, funcionam como migalhas dadas a miseráveis enquanto os recursos que poderiam resolver a causa do problema são acumulados em paraísos fiscais e em contas de bancos suíços para usufruto de megaempresários e políticos.

Longe de ser exclusividade no Brasil, todos os países do mundo sofrem dessa peste, que pode ser chamada Capitalismo de Estado (maior parte dos recursos da nação se concentra nas mãos do Estado), ou Capitalismo de Monopólios (maior parte dos recursos da nação se concentra nas mãos de megacorporações). Ambos tiram a autonomia, e os recursos econômicos e políticos básicos dos cidadãos, elementos necessários para a resolução de problemas que afetam a humanidade nos âmbitos local e global. Enquanto não experimentarmos formas de socialismo libertário, essas guerras fratricidas como as que sufocaram a primavera árabe, se estenderão pela Europa, Ásia, Américas. Aí será a Barbárie, que poderá marcar o início do fim do homem nesse belo planeta azul.

1 As causas são basicamente econômicas e políticas
2 Trata-se de pontos de saturação
2 Recursos do povo são gastos em farras de empresários e políticos
3 Jovens são lançados ao fanatismo religioso, desportivo, drogas, sexismo, crime
3.1 Sistema econômico e partidos políticos mantêm ditadura velada ou assumida
3.2 Desequilíbrio e descompensação leva povo ao desespero
3.3 Tragédias se multiplicam
3.4 Ruas apinhadas de punguistas e mendigos
4 A cura não vem de mais empregos, nem mais partidos, ou novos candidatos
4.1 O alívio vem da tomada popular da terra, escolas, fábricas, palácios, parlamentos
4.2 Da total rejeição da hierarquia em favor da acracia e da autonomia.

vômitos partidários - rejeitar partidos não significa abandonar política, pelo contrário, significa o desejo de assumi-la diretamente, sem representantes
vômitos econômicos - falta o essencial para o povo em geral enquanto políticos e megaempresários tornam-se bilionários roubando cofres públicos, num típico patognomônico de estrangulamento.
vômitos biliares - quando apresentam conteúdo de cor amarelo-esverdeado sugestivo de bile. O medo da população procede, este tipo de vômito diz aos generais que o fígado está permeável à instalação de uma ditadura declarada.
vômitos em jato - são vômitos explosivos, que podem denotar aumento da pressão intracraniana e indicar risco de morte iminente. Quando pessoas se suicidam.
vômitos pós prandiais - aqueles que correm após denúncia de corrupção
bulimia nervosa - vômitos induzidos por medo de engordar. Um partido começa acusar outro de corrupção, quando na verdade todos são corruptos
Os medicamentos que agem neste sintoma são chamados de antissistema, para abolir as causas da fome e da miséria, toda sociedade se empenha na gestão social via democracia direta.