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quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Evangelho da Prosperidade e o Evangelho do Reino


É impossível viver no Brasil de hoje sem dar de cara, de uma forma ou de outra, com o chamado "evangelho da prosperidade".

Os críticos do movimento, tanto cristãos quanto secularistas, são rápidos em apontar a hipocrisia desses pregadores da prosperidade com seus jatinhos particulares e mansões de luxo comprados com o dinheiro das ofertas de fiéis pobres. Tais críticas são sem dúvida bem fundamentadas, mas podem, segundo David Maxwell*, não abranger o contexto de situações de pobreza e de desespero que conduz cristãos a abraçar tal movimento. Em outras palavras, fixar-se apenas nos abusos dos líderes da prosperidade pode desviar a nossa atenção do outro lado da questão, as pessoas gananciosas que atendem seus apelos e que são capazes de fazer qualquer coisa, inclusive fraudar, oprimir e explorar, para alcançar seus intentos. O fato de conseguirem ou não "prosperar" pode ser mais associado a ceder a tentações diabólicas por poder, glória e riqueza, semelhantes àquelas que Cristo sofreu no deserto, do que ao recebimento de bênçãos divinas.

A boa notícia de Cristo não é buscar coisas em primeiro lugar em detrimento do Reino de Deus e de sua justiça, é exatamente o contrário. O que Cristo prega é que no ambiente do Reino e da justiça de Deus nada falta e que lá tudo que realmente necessitamos é automaticamente acrescentado. Naturalmente deve-se denunciar enfaticamente os erros desses líderes que embora usando o nome de Jesus pregam um outro evangelho. João Batista chamou os escribas de "raça de víboras", Cristo qualificava-os como "túmulos caiados de branco". Tal denúncia faz parte da "boa nova". O Reino de Deus não pode ser confundido com posse nem com desejo de posse de riquezas materiais, pois ter mais do que o estritamente necessário pode resultar na criação de ambientes de probreza e de miséria. A doença que cria o excesso de conforto e de bens de uns é a mesma que origina o excesso de desconforto e a miséria de outros. Trata-se principal e simplesmente de lembrar a quem Jesus dirige sua mensagem e qual mensagem é essa. A existência de pobreza e de doença dentro de uma sociedade é o efeito de uma causa. Colocar o Reino de Deus em primeiro lugar significa arrancar pela raiz a gênese da pobreza e da doença. Buscar a cura e a riqueza antes do Reino pode significar disseminar ainda mais doença e miséria dentro da sociedade.

O fato de algumas pessoas adquirirem riqueza lutando por ela não é uma negação da mensagem de Jesus, é uma prova de que o poder do mal ainda está ativo em nosso mundo.


No Evangelho de Lucas o próprio Jesus identifica diretamente seu público no início do seu ministério. "O Espírito do Senhor... Me ungiu para levar boas notícias aos pobres ... para libertar os oprimidos" (Lc 4:18). O Evangelho de Mateus identifica a mesma audiência com palavras ligeiramente diferentes.

"Jesus percorria a Galiléia ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do Reino e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo .... E trouxeram-lhe todos os enfermos, os que estavam aflitos com várias doenças e dores .. .. E grande multidão o seguia desde a Galiléia... (Mt. 4:23-25).

O relato de Mateus é particularmente instrutivo, pois é a essa mesma multidão -- que segue Jesus por causa de seu ministério de cura -- que ele começa a ensinar. Ou seja, a diretriz dos três versos curtos no final do capítulo 4, introduzidos diretamente no "sermão do monte", é enfatizada também nos capítulos 5-7. Embora Mateus afirme inicialmente que o "ensino" de Jesus no monte era direcionado a "seus discípulos", era "a multidão" que "ficava impressionada com o seu ensino" após "Jesus terminar de dizer estas coisas" (Mt 5:1 - 2, 7:28). Em suma, Jesus se preocupava com as multidões -- os pobres, os oprimidos, os aflitos. Esses eram os destinatários da boa notícia.

Se a audiência de Jesus, portanto, consistia de uma multidão de pessoas pobres e aflitas, podemos agora perguntar sobre o conteúdo específico dessa boa notícia anunciada. Qual seria essa "boa notícia aos pobres"?

Seguindo a narração de Mateus sobre o ensino de Jesus para a multidão, encontramos muito sobre saúde humana e riqueza -- a prosperidade. Aprendemos, por exemplo, que "o Pai celeste" de fato se preocupa com o que as pessoas "comem", "bebem", "vestem". Deus se preocupa com a vida humana, com seu corpo. Deus sabe que as pessoas "precisam de tudo isso". Além de saber, Deus provê tais coisas. Assim como Deus esbanja coisas boas e belas para seres menos valiosos que os pobres -- "as aves do céu" e "os lírios do campo" -- da mesma forma Deus dará "o pão de cada dia" (6:11) a eles. Ao contrário do anunciado pelas modernas versões mecanicistas do evangelho da prosperidade ("nós damos a fim de obter"), "a boa notícia do Reino" é o próprio Reino: "Mas, buscai primeiro o Reino de Deus e sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas "(Mt. 6:25-33).

"Todas estas coisas" não são "acrescentadas" como resultado de nossos meios, de nossa "busca" ou "esforço", para adquiri-los. O fato de algumas pessoas adquirirem riqueza lutando por ela não é uma negação da mensagem de Jesus, é uma prova de que o poder do mal ainda está ativo em nosso mundo. Mas para aqueles que ousam seguir os ensinos de Jesus buscando "primeiro o Reino de Deus e a sua justiça", a glória das "coisas acrescentadas" desaparece. Ela não se compara com o "Reino de Deus" que é "justiça, paz e alegria no Espírito Santo" (Rom. 14:17). Ela não se compara com "a paz de Deus, que excede todo o entendimento" (Fp 4:7). Somente quando vemos o engodo das "coisas acrescentadas" e abraçamos a vida sem elas, é que elas nos são acrescentadas. Somente experimentando "a glória de Deus na face de Jesus Cristo" encontramos aquilo que realmente precisamos (2 Coríntios. 4:6).

As multidões que seguiam Jesus viram tal glória e a reconheceram na poderosa, absoluta e convincente "autoridade" daquele que "ensinava não como os escribas" (Mt. 7:29). Naquele tempo havia muitos escribas. Nossos modernos escribas são os mestres da prosperidade ocupando milionários espaços na midia. Apesar da grande aceitação do evangelho da aquisição pregado por eles, o evangelho do amor de Deus pregado por Jesus ainda não desapareceu. Nós, estreitamente envolvidos com aqueles com quem Jesus estava envolvido, fariamos bem redescobrindo a alegria simples da palavra de Jesus que quebra nossa escravidão das "coisas acrescentadas" e que nos conduz mais profundamente nos mistérios do Reino de Deus.

*Maxwell, David. African Gifts of the Spirit: Pentecostalism & the Rise of a Zimbabwean Transnational Religious Movement. Oxford: James Currey, 2006.

Texto criado a partir da leitura de http://anisa.org.za/node/294

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Boas-novas para os pobres



Cristo não estava fazendo uma observação histórica quando declarou que o evangelho é pregado aos pobres. A ênfase está nas boas-novas, que as boas-novas são para os pobres. 

Aqui a palavra "pobres" não quer dizer simplesmente pobreza mas também todos os que sofrem, são desafortunados, miseráveis, injustiçados, oprimidos, aleijados, coxos, leprosos e endemoninhados. 

O evangelho é pregado a eles, isto é, as boas-novas são para eles. O evangelho é boas notícias para eles. Que boas notícias? Não é dinheiro, saúde, status, etc. Não, isto não é Cristianismo.

Não, para os pobres o evangelho é boas-novas porque ser desafortunado neste mundo (de uma forma em que a pessoa é abandonada pela simpatia humana, e o apreço mundano pela vida até tenta cruelmente transformar o infortúnio da pessoa em culpa) é um sinal da proximidade de Deus. 

Foi assim que era originalmente; estas são as boas-novas no Novo Testamento. São pregadas para "os pobres", e são pregadas para os pobres que se não estivessem sofrendo de outras formas, iriam eventualmente sofrer ao proclamar o evangelho; já que sofrimento é inseparável de seguir a Cristo e de dizer a verdade. 

Mas logo veio mudança. Quando pregar o evangelho se tornou meio de subsistência, até mesmo profissão de luxo, o evangelho se tornou boas-novas para os ricos e para os poderosos. De que outra forma iria o pregador manter e garantir eminência e dignidade se o cristianismo não garantisse o melhor para todos? 

O cristianismo, portanto, deixou de ser boas notícias para aqueles que sofrem, uma mensagem de esperança que transforma sofrimento em alegria, mas virou uma garantia de deleite na vida intensificada e garantida pela esperança de eternidade. As boas-novas não beneficiam mais os pobres, essencialmente. 

Na verdade, o cristianismo tornou uma extrema injustiça para aqueles que sofrem (embora não estejamos sempre conscientes disto, e certamente não dispostos a admiti-lo). Hoje as boas-novas são pregadas aos ricos, aos poderosos, que descobriram que ele é vantajoso. 

Voltamos ao mesmo estágio original ao qual o cristianismo queria se opôr! Os ricos e os poderosos não somente acabam ficando com tudo, mas seus sucessos se tornam a marca da sua piedade, o sinal dos seus relacionamentos com Deus. 

E isto leva à antiga atrocidade de novo, a saber, a idéia que o desafortunado, os pobres são culpados pela sua própria condição; que é assim porque não são piedosos o suficiente, não são cristãos verdadeiros, porque são pobres, enquanto os ricos têm não apenas prazer mas piedade também. E isto dizem ser cristianismo. Compare-o com o Novo Testamento, e vocês verão que isto está o mais longe possível do Novo Testamento.

Tradução: K-fé (do Inglês)
Fonte: Provocations: Spiritual Writings of Søren Kierkegaard

fonte: http://gustavofrederico.blogspot.com/2008/07/boas-novas-para-os-pobres-sren.html