sábado, 2 de outubro de 2010

Além das eleições: limites da política eleitoral










A grosso modo podemos distinguir cinco graus de "governo":

      (1) liberdade irrestrita
      (2) democracia direta
      (3) democracia delegada
      (4) democracia representativa
      (5) ditadura de minoria

A presente sociedade oscila entre (4) e (5), ou seja, entre ostensivo governo da minoria e governo minoritário disfarçado, ambos camuflados por uma fachada de democracia. Uma sociedade livre eliminaria os pontos (4) e (5) e reduziria progressivamente a necessidade de (2) e (3). . . 

Nas democracias representativas as pessoas abdicam de seu poder em favor de candidatos eleitos. As políticas apresentadas pelos candidatos se limitam a algumas vagas generalidades, e uma vez eleitos, há pouco controle sobre suas reais decisões em centenas de questões - além da possibilidade de redirecionamento do voto das pessoas, alguns anos mais tarde, a alguns rivais políticos igualmente incontroláveis. Todos candidatos além de estarem expostos ao suborno dos ricos no financiamento da campanha, também estão subordinados aos donos dos meios de comunicação de massa, que decidem como será a publicidade. Esses candidatos são quase tão ignorantes e impotentes quanto o público em geral sobre muitos e importantes assuntos que são pautados por burocratas não eleitos e agencias secretas independentes. Ditadores declarados podem ser depostos, mas os verdadeiros governantes nos regimes "democráticos", aquela minúscula minoria que virtualmente possui e controla tudo, nunca é votada nem depende do voto. A maioria das pessoas nem sequer sabe quem compõe essa elite...

De qualquer forma, o voto em si não é de grande importância (e os que fazem um grande estardalhaço recusando-se a votar apenas revelam seu próprio fetichismo). O problema da eleição é a ilusão de que o voto vale alguma coisa e a fantasia de que o eleito agirá no lugar dos eleitores. Na realidade, o voto desarma o eleitor distanciando-o das mais gnificativas possibilidades de ação. Um povo que toma alguma iniciativa criativa (pense nas primeiras conquistas dos direitos civis) pode conquistar muito mais benefícios do que colocar sua energia na eleição de políticos menos ruins. Na melhor das hipóteses, os legisladores raramente fazem mais do que são forçados a fazer pelos movimentos populares. Um regime conservador sob pressão de movimentos radicais independentes freqüentemente concede mais do que um regime liberal que sabe que pode contar com o apoio radical. A guerra do Vietnã, por exemplo, não terminou por causa da eleição de políticos anti-guerra, terminou porque havia tanta pressão de tantas direções diferentes que o presidente Nixon, mesmo sendo favorável à guerra, foi forçado a retirar as tropas. Se as pessoas invariavelmente se reúnem para males menores, tudo o que os governantes têm que fazer em qualquer situação que ameace seu poder é evocar a ameaça de algum mal maior.

Mesmo no caso raro quando um político "radical" ganha uma eleição, todos os tediosos esforços de campanha de milhares de pessoas pode ir pelo ralo em apenas um dia por causa de algum escândalo trivial descoberto em sua vida pessoal, ou porque ele inadvertidamente disse algo inteligente. Se ele consegue evitar essas armadilhas e ganhar, ele tende a evitar assuntos controversos com medo de antagonizar eleitores indecisos. Se ele realmente for eleito, quase nunca cumpre o que prometeu, e depois de anos de disputas e embates com seus novos colegas, acaba implementando sua nova e principal prioridade: fazer os acordos necessários para manter-se indefinidamente no poder. Na lida com os ricos e poderosos, ele desenvolve novos interesses e novos gostos, que ele justifica dizendo que merece algumas regalias após todos os seus anos de trabalho e de luta. E o que é pior, se ele eventualmente consegue implementar algumas medidas "progressistas", este sucesso excepcional e normalmente trivial é colocado como uma prova do valor da política eleitoral, atraindo mais pessoas para desperdiçar suas energias em campanhas semelhantes no porvir.

Uma das pichações de maio de 1968 ilustra bem a inutilidade do político e do patrão: "O patrão e o candidato precisam de você, mas você não precisa nem de patrão nem de candidato."

Extraído e adaptado de "A Alegria da Revolução" de Ken Knabb.
O texto completo está disponível online em http://www.reocities.com/projetoperiferia3/ar.htm

Observação: Minha intenção ao publicar o material acima não é desencorajar o voto nem a participação ativa na campanha eleitoral, mas incentivar as pessoas a ir além disso.


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